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Arsène Wenger: “Eu percebo que as pessoas só queiram ganhar, mas tens de ter o desejo de transformar a expressão da equipa em arte”

Wenger imagina muitas vezes o que vai dizer a Deus quando morrer. Na maioria destes exercícios, Deus pede-lhe que justifique o seu tempo na Terra, como deu significado à sua vida e à de outros. “Tentei ganhar jogos de futebol,” dirá Wenger. Deus olhará para ele, cético: “Só isso?” Wenger explica: “Ganhar jogos é muito difícil. Se fizeres bem o teu trabalho, levas alegria a milhões. E se não ganhares…”

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JOEL SAGET

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“Por vezes sinto medo de não ter feito mais nada na vida para além de futebol,” diz Wenger, de 70 anos, numa entrevista em vídeo ao jornal “The Guardian”, a partir de Zurique. “Por isso, quando falo com Deus, é um pouco pretensioso. Se Deus existir e tiver um teste para ver se vais para o céu ou para o inferno, pode parecer ridículo ter dedicado a vida toda a ganhar jogos de futebol. E foi por isso que me surgiu a ideia. Por vezes sinto que a vida pode perder significado se for toda dedicada a isso.”

Wenger nasceu em 1949, cresceu numa aldeia da Alsácia, território historicamente disputado por franceses e alemães, mas que, por agora, se mantém em França. As suas primeiras dicas sobre psicologia surgiram enquanto observava os clientes do café que os seus pais geriam. “Álcool, berros, violência, tudo o que costumava enojar-me ou assustar-me em criança,” lembra Wenger. Arsène tornou-se um médio trabalhador ao serviço do Estrasburgo e, chegado aos 30, tornou-se treinador, passando por Cannes, Nancy, Mónaco, Nagoya Grampus Eigh, do Japão, e então o Arsenal. Foi em 1996.

Por vezes, a competitividade de Wenger entornava o copo, particularmente com dois rivais épicos: primeiro Alex Ferguson e depois José Mourinho, principalmente quando o português ainda treinava os rivais londrinos do Chelsea. Mas, na sua autobiografia acabada de lançar em Inglaterra, My Life in Red and White, Wenger critica sem nunca criar controvérsia. O francês fala da “autoridade esmagadora” de Ferguson no futebol inglês, mas nem sequer menciona José Mourinho. “Eu não queria que fosse um livro de vingança ou frustração ou injustiça,” diz.

Wenger não voltou a treinar desde que deixou o Arsenal, mas tornou-se Diretor de Desenvolvimento Global do Futebol, da FIFA. Em 2015, divorciou-se. A filha, Léa, está a terminar um doutoramento em neurociências em Cambridge. Wenger vive entre Londres, Paris e Zurique e admite que o pior da Covid-19, para ele, foi quando as ligas de futebol foram suspensas. “Não sei porquê mas os jogos de futebol são a minha vida e não me parece que isso vá alguma vez mudar.”

Muitos desses jogos foram vividos em Londres, à frente dos Gunners, que tinham um estilo de jogo próprio mas não conquistaram muitos títulos. “O Arsenal tinha um estilo de jogo que era criticado, mas tinha um estilo de jogo. Eu percebo que as pessoas só queiram ganhar, mas tens de ter o desejo de transformar a expressão da equipa em arte. Quando o adepto acorda de manhã, tem de pensar: ‘Talvez eu vá ter uma experiência fantástica hoje.’ Ele quer ganhar o jogo mas também ver algo bonito.”

Para complementar o artigo, o jornal “The Guardian” pediu a algumas figuras públicas que colocassem perguntas ao treinador francês. Entre nomes como o do ator Mark Strong, do dramaturgo Patrick Marber ou do rapper Nines, surge o de José Mourinho, o “tal” dos combates épicos. O português diz a Wenger que o veria como executivo de topo num clube, elogiando a sua cultura, e pergunta se o francês se veria num desses cargos no Arsenal. Wenger diz que se veria mais num cargo de assessoria. “Acredito que há um défice de conhecimento nos clubes grandes. E creio que temos visto recentemente que há muitas formas de ter sucesso no futebol,” diz o francês.