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“Eu tinha sete anos e não conseguia distinguir bem entre a vida e a morte”: Marco van Basten recorda Jopie, o amigo que não conseguiu salvar

Foi um dos melhores jogadores do mundo mas terminou a carreira aos 28 anos, torturado por lesões. Muito antes disso, na infância, um episódio marcou-o para a vida

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Flavio Lo Scalzo

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Marco van Basten é um nome associado à vitória, à conquista de títulos, à admiração dos pares e dos adeptos. Mas a sua vida conta uma história paralela, que não lhe apaga o mérito, longe disso, mas impressiona pelos traumas que acumulou ao longo da vida. Da perda do amigo de infância, do repentino e precoce fim da carreira, a perda de confiança, as questões de saúde e o muito dinheiro que perdeu.

Ao “Daily Mail”, ouvindo a história da sua vida contada pelo jornalista, van Basten diz que consegue “ser muito frio, mas isso é apenas por ser muito sensível”. “Tento defender-me e torno-me frio e pragmático.”

Tempos houve, no início dos anos 90 em que van Basten era o melhor jogado do mundo. Nas constantes listas que elegem os melhores do mundo, é comum ler o nome do holandês. Van Basten ganhou a bola de ouro três vezes e foi duas vezes melhor marcador da Série A, num AC Milan carregado de vitamina c dessa laranja mecânica que deslumbrava o mundo. Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Marco van Basten levaram o clube milanês à glória caseira e internacional.

Em 1992, van Basten venceu o prémio da FIFA para o melhor jogador do ano. Em 1993 a sua carreira estava terminada. O seu último jogo foi a final da Liga das Campeões perdida para o Marselha. Nessa altura já o holandês tinha passado por uma sucessão de lesões no joelho e operações sem sucesso. Tinha 28 anos quando terminou a carreira.

No seu novo livro, autobiográfico, van Basten fala da sua despedida dos relvados com 80.000 pessoas a assistir: “De repente, apercebi-me. Eu estava a assistir à minha despedida. Estavam a aplaudir alguém que já não existia. Eu corria e batia palmas mas já não estava lá. Nesse dia, morri como futebolista.”

“Eu vejo o Messi a jogar aos 33, o Ronaldo aos 35, mesmo o Robert Lewandowski aos 32,” diz van Basten. “Quando vejo o que eles ainda conquistam, sinto algum arrependimento. O Ronaldo ainda joga ao mais alto nível e tem-no feito há muito tempo. O que posso dizer? Só posso ser feliz. Ainda é ótimo ver o Messi e o Ronaldo a dar-nos momentos agradáveis quando vemos futebol.”

“Eu tive 10 anos fantásticos e perdi outros 10 anos fantásticos. Por dentro, não estou muito feliz por não ter vivido esses anos como o Ronaldo e o Lewandowski, mas sei que há imensos jogadores que terminaram a carreira aos 17 ou 18,” desabafa o holandês.

É nesta altura que van Basten recorda o amigo de infância, Jopie, também ele um talentoso jogador de futebol. Com sete anos, os dois companheiros resolveram ir caminhar pelos ribeiros congelados pelo inverno. A certa altura, num lago, o gelo quebrou e Jopie foi engolido. Van Basten correu a pedir ajuda mas quando conseguiram finalmente trazer Jopie à superfície, ele já estava morto.

“É difícil compreender a influência desse episódio na minha vida pessoal,” diz van Basten. “Eu tinha sete anos e claro que teve um impacto grande na minha personalidade. (…) Eu tinha sete anos (…) e não conseguia distinguir bem entre a vida e a morte.” Marco guardou uma fotografia do amigo durante dez anos, até que o pai resolveu tirar-lha, com medo das consequências psicológicas.

Marco van Basten fez 56 anos há poucos dias. É pai e avô. Pouco depois de se retirar, fez uma operação delicada ao calcanhar. Para substituir o ténis que adorava jogar mas que lhe exigiria maios mobilidade, escolheu o squash. Continua a detestar perder. Por vezes joga golfe com os seus antigos companheiros do AC Milan, como Gullit e Rijkaard, que continuam a ser seus amigos.

Diz-se muitas vezes que o fim da carreira do holandês se deveu, acima de tudo, às entradas maldosas dos adversários. Van Basten tem dúvidas mas admite que, hoje em dia, “o futebol está um pouco mais limpo do que há 20 anos”. “Isso é bom mas não posso negar que gosto de uma boa entrada e isso faz parte do jogo. Se és defesa e estás a dar o máximo, isso é bom. Se for uma entrada honesta, é bom. (…) Ser duro faz parte do jogo.”

Van Basten também já experimentou ser selecionador holandês, no Mundial de 2006 e no Europeu de 2008. Sendo sincero, o antigo jogador admite que teve problemas em lidar com o stress do cargo. Em 2014, van Basten assumiu o cargo de treinador do AZ Alkmaar para, cinco jogos depois, se demitir.

No entanto, o holandês continua a adorar futebol. Vai fazendo comentários e as suas declarações vão fazendo as manchetes. Há pouco tempo considerou que o compatriota Donny van de Beek fez mal em escolher o Manchester United para prosseguir a carreira. Os dois avançados que mais admira na atualidade são Mbappé e Lewandowski, tal como Messi e Ronaldo. “O Lewandowski faz-me lembrar o meu estilo de jogo. Eu era uma mistura dele e de Ronaldo,” afirma.

Cada vez mais, sente-se um homem apaziguado com o que perdeu. “Grandes jogadores, como Romário e Ronaldo, ganharam troféus entre os 19 e os 22 anos e eu fiz o mesmo. Só que eu não consegui terminar o que comecei. Percebo cada vez melhor que o meu copo está meio cheio.”

“Estou muito feliz e grato. Tenho uma mulher fantástica. Tenho três filhos. A minha filha mais velha tem um menino, a minha segunda filha tem uma menina. Todas as manhãs, quando me levanto e sinto-me bem e quero fazer desporto, é uma forma de perceber que tenho uma boa vida e sou feliz,” conclui van Basten.