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Sobre Bobby Charlton: há uma relação entre cabecear múltiplas vezes uma bola de futebol e a demência. Chris Sutton tem exemplos concretos

Nobby Stiles, Bobby Charlton, Jack Charlton, Martin Peters, Ray Wilson. Todos ex-internacionais ingleses. Todos vítimas de uma doença silenciosa que nos corrói por dentro: a demência

Carlos Luís Ramalhão

Sir Bobby Charlton

Jon Super

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Chris Sutton foi um futebolista com algum sucesso. Seguiu as pisadas do pai, Mike, que tem 76 anos e está numa cadeira de rodas, vítima de uma doença que já não é nova, mas cuja verdadeira dimensão começou a ser visível há poucas décadas. Mike Sutton sofre de demência e passa os seus dias a olhar para um horizonte que só ele consegue alcançar. Chris escreveu no “Daily Mail” sobre o pai e, sobretudo, sobre a doença no futebol.

Segundo o filho, “por vezes murmura palavras que nunca fazem sentido”. “Quando nos olhamos nos olhos ele nunca me reconhece. Não se lembra de que eu e ele fomos futebolista.”

Por vezes, Chris leva-lhe recortes de jornais que mostram o pai a jogar pelo Carlisle United, clube do Norte de Inglaterra, mas ele não reage. “Se lhe puseres um prato de comida à sua frente, ele não sabe como comer,” desabafa o filho. “Ele não consegue lavar os dentes, vestir-se ou ir à casa de banho.”

Mike retirou-se do futebol aos 28 anos por causa de uma lesão no joelho. Nessa altura inscreveu-se na universidade e tirou um curso de biologia e tornou-se professor. Aos sessenta e poucos, começou a desenvolver sintomas de demência. “É esta a realidade, mas ele não está sozinho,” refere Chris.

Não é por acaso que este artigo surge esta semana. Entre os heróis ingleses que ganharam o Mundial de 1966, cinco desenvolveram demência. O último a ser diagnosticado – ou, pelo menos, a tornar pública a sua condição – foi Sir Bobby Charlton, que deixou de ser visto em Old Trafford, a apoiar o Manchester United ou a acompanhar a equipa nas suas viagens ao estrangeiro.

O diagnóstico foi anunciado poucos dias depois de outro campeão do mundo por Inglaterra e histórico do Manchester United, Nobby Stiles, ter-se despedido da vida, também ele vítima de demência. Para além deles, Jack Charlton, irmão de Bobby, Martin Peters e Ray Wilson sofrem ou sofreram da doença que vai corroendo o cérebro.

Chris Sutton diz sobre a demência de Sir Bobby Charlton: “Se essa notícia, anunciada dias após a morte de Stiles, não forçar o futebol a abrir os olhos, então não o que poderá fazê-lo. É este o maior escândalo da modalidade”.

“Tantos homens têm morrido da forma mais humilhante possível e foram abandonados pela Professional Footballers’ Association (a associação que representa os futebolistas no Reino Unido), o sindicato que deveria protegê-los,” lamenta Chris Sutton.

“Os ex-futebolistas precisam de apoio e as gerações futuras também vão sofrer também porque não se está a fazer o máximo para impedir que os jogadores contraiam esta horrível doença,” alerta o antigo jogador.

Chris Sutton lembra que os jogadores de futebol, particularmente os defesas centrais, “cabeceiam centenas de bolas por semana, durante os treinos”. Em Inglaterra, os futebolistas com menos de 12 anos estão proibidos de cabecear a bola. Para Sutton, a medida chegou “demasiado tarde” e, no caso dos jogadores profissionais, deveria haver limites. “Não quero dizer que os lances de cabeça deveriam ser banidos, nenhum de nós quer isso, mas há mais que se pode fazer”.

“Passou mais de um ano desde que um estudo confirmou uma ligação entre a demência e o futebol. (…) Os jogadores profissionais têm uma probabilidade de mais três vezes e meia de sofrer de demência e de outras doenças neurológicas severas,” diz Chris Sutton.

Por cá, José Torres, velha glória do Benfica, morreu em 2010, aos 71 anos, com demência. Conhecido como “o bom gigante”, o goleador das Águias e da seleção nacional era exímio nos lances aéreos.

Em novembro de 2002, o médico legista que analisou Jeff Astle, outro internacional inglês conhecido pelo jogo de cabeça, concluiu que ele morreu com demência provocada por repetidamente cabecear a bola. “Passados 18 anos, o problema subsiste, e isso é escandaloso,” conclui Sutton.