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A história do Millwall é feita de muita violência e poucas vitórias. Dizem que há uma espécie de “lixo tóxico” naquela parte de Londres

O clube do Sudeste de Londres tem uma história de violência desde que foi fundado, em 1920. Depois das agressões a árbitros e adversários, a última moda é apupar os jogadores que se ajoelhem em protesto contra a violência policial e o racismo

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Há clubes que se tornam conhecidos pelo sucesso desportivo, seja por uma glória inesperada ou por hegemónicas repetições de força. Há também aqueles glorificados pelo insucesso – quem nunca leu aquelas histórias acerca do clube com mais derrotas no mundo, com mais golos sofridos num jogo ou numa época? E há ainda aquelas coletividades que vão somando feitos pouco dignos, que nada têm a ver com o desporto.

O Millwall é um clube inglês de segunda liga, sediado no Sudeste de Londres. Longe da fama de Chelsea, Arsenal, Tottenham ou West Ham, entre muitos outros que crescem como cogumelos na capital do Reino Unido. Porquê falar dele, então? Digamos que apesar das muitas tentativas de amaciar a fama do clube, de o associar a um emoji de cara sorridente, há sempre alguma coisa que faz ruir as boas intenções. Desta vez, são apupos aos jogadores que se ajoelham contra o racismo. Mas podia ser outra coisa qualquer, como nos conta a história do clube.

O cronista do jornal “The Guardian”, Sean Ingle pergunta-nos se sabemos quanto tempo demorou o Den, estádio do clube, a ser encerrado depois de problemas com os adeptos do Millwall. Digamos apenas que o estádio foi inaugurado em agosto de 1920 e, em outubro de 1920, foi encerrado devido ao arremesso de objetos contra o guarda-redes do Newport, o clube adversário nesse dia. Depois disso, o Den – nome apropriado, significa “covil” – teve de ser fechado em 1934, 1947, 1950, 1978 e 1994.

Entre as razões para os castigos, podemos encontrar: atirar cimento ao árbitro auxiliar; atacar árbitros; destruir o campo de um adversário; ferir 50 agentes da polícia depois de uma derrota… A lista de crimes e ofensas é tão longa que a última situação pode parecer inofensiva. De facto, a última moda entre os adeptos do Millwall parece ser apupar os jogadores que se ajoelham em homenagem às vítimas de violência policial.

Segundo Sean Ingle, esta atitude pode ser vista de outra forma, para além de ser condenável pelas razões óbvias. “A ação e consequente reação diz muito. Não apenas sobre os adeptos do Millwall mas também sobre o Reino Unido e os políticos que lideram o país”. O cronista lembra que os adeptos do Millwall já não iam ao estádio há nove meses. Os que lá estavam eram todos portadores de bilhete anual, ou seja, os mais fanáticos de entre os fanáticos.

O defesa da equipa da casa, Mahlon Romeo, admitiu que aqueles adeptos do clube que representa estavam a “espalhar o ódio”. “O que eles fizeram foi apupar e condenar um gesto pacífico, criado para dar a conhecer e combater qualquer comportamento racista ou discriminatório,” disse Romeo, um jogador negro nascido em Londres, que representa a seleção de Antígua e Barbuda. “É apenas isso que o gesto representa. Mas há um problema na sociedade e esse problema é o racismo.”

Torna-se complicado discutir o tema, apesar de alguns inevitavelmente o fazerem. Na verdade, como diz o cronista do “The Guardian”, “há uma espécie de lixo tóxico à volta de Millwall e que vai para além do futebol. E apesar de as coisas não estarem tão más como nos anos 70 e 80, é preocupante vê-lo – ao lixo tóxico – a envenenar o futebol inglês novamente”.