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Para o "The Guardian", Rashford é o futebolista do ano. Em grande parte pelo que fez fora de campo

O jornal inglês começa por esclarecer que o prémio dado ao futebolista do ano “é atribuído a um jogador que tenha feito algo notável, seja superando alguma adversidade, ajudando outros ou dando um exemplo desportivo ao agir com excecional honestidade”. Daqui percebemos imediatamente que as qualidades inegáveis do jovem jogador do Manchester United com a bola nos pés não entram nestas contas. A atribuição do prémio a Rashford tem a ver com outros golos de belo efeito na sociedade.

Carlos Luís Ramalhão

Matthew Peters

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Marcus Rashford teve um 2020 extraordinário. Que o adjetivo não seja interpretado como sinónimo de “feliz” e mais como “fora do normal”. Tivemos todos, na verdade. Mas enquanto muitos de nós lamentavam a má sorte em caminhadas entre a cozinha, a sala e o quarto, a jovem estrela do Manchester United tratava de ajudar as crianças mais pobres e vulneráveis do Reino Unido.

Numa entrevista, o “The Guardian” questionou Rashford sobre a influência da mãe, amiúde referida nas intervenções do jogador ao longo de 2020. “Ela é tudo. Todas as caraterísticas positivas que vê em mim. Se eu pudesse descrevê-la em três palavras, elas seriam ‘forte’, ‘protetora’, ‘invencível’.”

Marcus cresceu numa família monoparental que compensou a pobreza material com o “amor e apoio” de Mel – perguntamo-nos se alguém disse ao futebolista o significado do nome da mãe na língua portuguesa e achamos que ele gostaria de saber – num bairro de nome quase impronunciável do Sul de Manchester. Mel, sem o talento com a bola nos pés que viria a celebrizar o filho, chegou a ter três empregos com horários esticados ao limite. Marcus diz que se lembra dos olhos tristes da progenitora, oscilando na batalha de colocar a comida na mesa. Era ansiedade, desespero, por vezes, admite agora o filho. Momentos como esses levaram Rashford a lutar pela campanha que criou.

Em pequeno, Rashford chegou a depender de “breakfast clubs”, instituições solidárias famosas em Inglaterra pelos pequenos-almoços que oferecem a quem não tem o suficiente para tomá-los em casa. Marcus frequentou bancos alimentares e os Natais eram alimentados a comida oferecida pelos mais afortunados, mas apenas por aqueles em quem batiam corações solidários.

Quando a pandemia se anunciou na Europa, o pensamento do jovem futebolista dirigiu-se imediatamente para as famílias que, em 2020, estavam na situação da sua, há uma década, quando Marcus era criança. “Eu estava preocupado com as crianças pobres se as escolas entrassem em confinamento,” diz. “Sem ‘breakfast club’ e as refeições gratuitas da escola, eu teria tido muito pouco. O que faríamos, eu e a minha mãe?”

Foi então que Marcus fez uma parceria com a FareShare, uma organização que recolhe e distribui sobras de comida, para ajudar a combater alguns casos, substituindo as refeições gratuitas que as escolas geralmente oferecem. Diga-se que as escolas inglesas entraram em confinamento no final de março. No início, o objetivo era juntar 100 mil libras, o que providenciaria refeições para 400 mil crianças. Mas Rashford começou então a pensar no que aconteceria durante as férias de verão.

Segundo o “The Guardian”, grande parte do sucesso de Rashford derivou da forma como a estrela do Manchester United operou nas inevitáveis redes sociais. Marcus tem 21 milhões de seguidores se somarmos as suas contas no Instagram, Facebook e Twitter. Nesses púlpitos tantas vezes utilizados para o mal, o jovem divulgou casos de injustiça social, contando muitas vezes a sua história pessoal, sem qualquer raiva ou azedume.

É verdade que a campanha criada por Rashford teve as suas contrariedades, com a de junho, quando o Governo rejeitou o seu pedido para que continuasse a pagar os vales de alimentação de 15 libras por semana às famílias mais pobres. Marcus não desistiu. Escreveu uma carta aberta aos membros do parlamento inglês, pedindo-lhe que reconsiderassem. E eles fizeram-no. O primeiro-ministro Boris Johnson ligou-lhe para juntos planificarem um fundo de 120 milhões de libras para mais de um milhão de estudantes. Nessa noite, algures num bairro de Manchester com um nome quase impronunciável e um filho da terra famoso, alguém escreveu numa placa “Rashford 1 Boris 0”, como se se tratasse de futebol.

“Não acho que alguém pudesse prever isto,” diz Marcus. “Mas sinto que muitas pessoas puderam aprender mais sobre elas próprias em 2020, especialmente sobre a sua força. Foi um ano bizarro para todos nós mas ao mesmo tempo ensinou-nos que não podemos dar nada como garantido. Conversámos, descobrimos desigualdades, mostrámos compaixão e empatia. Isso foi muito bom.”

Rashford continua: “Ironicamente, há provavelmente muitos pontos positivos a reter de 2020. Sobreviver a este ano com o impacto físico e mental da Covid19, perdas e desemprego, é suficiente. Todos deveríamos dar uma palmada nas costas de cada um por isso, porque não é fácil”. Assim se aproveita a fama para fazer coisas boas. Talvez devêssemos todos dar uma palmada nas costas de Marcus Rashford, 23 anos, avançado do Manchester United. Ah, e Futebolista do Ano para o “The Guardian”. Mas isso não tem nada a ver com futebol.