Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

Gianluigi Buffon: “Tive um buraco negro na alma. É importante cometer erros ao longo da vida. E pagar por eles é ainda mais importante”

O lugar de Buffon na história do futebol está garantido. O que não está garantido é que o guarda-redes que vai na 19ª época na Juventus termine a carreira. Chegou a ter medo de uma vida sem futebol e essa poderia ser uma razão para prolongar eternamente o seu percurso como jogador. Mas Buffon diz que isso já passou e “quase” não sente esse receio

Carlos Luís Ramalhão

Stu Forster

Partilhar

Em entrevista ao jornal inglês “The Guardian”, Buffon fala de tudo, desde as notícias do fim da carreira que foram claramente exageradas, à alegria de estar em confinamento por poder passar tempo em família, passando pela importância dos erros na vida para que possamos aprender com eles. A conversa é frequentemente interrompida por uma das potentes gargalhadas do italiano.

Em 2017, Buffon confessou o desejo de terminar a carreira. Em 2018, assinou pelo Paris Saint-Germain para experimentar uma nova cultura, jogar com Neymar e Mbappé e assinar um último capítulo no seu épico percurso pelo futebol mundial. Em 2021, o histórico guarda-redes está na Juventus, a ser treinado por um amigo de longa data – Andrea Pirlo – e a partilhar o relvado com o filho de outro ex-colega de equipa – Federico Chiesa, cujo pai, Enrico, jogou com Buffon no Parma.

“Na minha cabeça, há mesmo um sinal de ‘stop’, em junho de 2023,” diz, repetindo como quem quer convencer-se da veracidade da afirmação: “Esse é o máximo, mesmo”. “Mas também posso parar de jogar daqui a quatro meses,” confessa o guarda-redes de 43 anos.

“Aprendi que nada é certo na vida,” acrescenta com razão Gianluigi Buffon, testemunha de uma pandemia que nos tem ensinado muito e que, em Itália, teve um início particularmente demolidor. Com algum sentimento de culpa, Buffon admite que o primeiro mês de confinamento “foi mesmo bonito”. “No início, a pandemia permitiu-me ter tempo para dedicar a mim próprio, algo que nunca tinha acontecido. Pude estar com a minha mulher e os meus filhos o dia todo e dedicar-me aos meus passatempos, à leitura… (…) Depois, tornou-se pesado. Pensas cada vez mais no que os outros estão a passar.”

Buffon é, naturalmente, um homem rico. Tem uma casa com um grande jardim e tudo o que o dinheiro pode dar. Ainda assim, o italiano confessa que, no pico da sua carreira, aos 20 e poucos anos, sofreu de depressão, uma espécie de “buraco negro da alma”, como ele a descreve. Abrir os olhos e ver outras realidades permitiu-lhe escapar ao fundo do poço. “Sinto-me como alguém que continua a crescer,” afirma o homem com 26 anos de carreira como jogador de futebol.

“Diz-se que, quando chegas à minha idade, o declínio acontece todo ao mesmo tempo. (…) Eu não acredito nisso. (…) Eu acredito muito no destino. Quando a Juventus me ofereceu a hipótese de regressar, pensei: ‘Madonna!’. Nunca sabes, talvez haja uma razão,” confessa. Essa razão pode ser ganhar a Liga dos Campeões, o único título importante que continua a faltar-lhe.

Campeão do Mundo por Itália em 2006, Buffon recorda o país unido e o nervosismo da final, contra a atual detentora do título, a França. Entre os muitos companheiros de longa data em campo com ele naquele dia, estava um grande amigo chamado Andrea Pirlo, o seu atual treinador na Juventus, a quem reconhece ter sido difícil chamar “mister”. “À frente de outras pessoas, ele será sempre ‘mister’. (…) Quando saímos juntos, podemos ser Gigi e Andrea.”

Refletindo acerca da sua longa carreira, particularmente sobre o início da mesma, e pondo a hipótese de voltar atrás e transmitir alguma da experiência adquirida a si próprio, Buffon lembra: “É importante cometer erros na vida. E é ainda mais importante teres de pagar por eles. (…) Sentires-te embaraçado é parte essencial do teu crescimento”.

Esta época, o veterano guarda-redes tem jogado menos. A titularidade na baliza da Juventus está entregue a Wojciech Szczesny desde que o próprio Buffon saiu para o PSG. Ainda assim, aos 43 anos, o italiano tem feito exibições que em nada o embaraçam, como aconteceu na vitória por 3-0 em Camp Nou que chocou o Barcelona. Gigi mantém um papel importante na equipa treinada pelo grande amigo, partilha o balneário com Cristiano Ronaldo e acaba a entrevista a admitir: “Sinceramente, nunca imaginei que poderia jogar tantos anos. Mas estas histórias são bonitas, acho eu”.