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Manuel José: “Nem morto trabalharia com Pinto da Costa. Fui posto fora da seleção pelo poder corrupto”

Está de parabéns um dos mais carismáticos treinadores do futebol português e não é por ter ganho qualquer troféu. Manuel José chega aos 75 anos com a frontalidade que sempre o caraterizou, com muitos amigos e outros tantos inimigos, o antigo técnico do Sporting, do Boavista e do Benfica deu uma entrevista ao jornal “A Bola”

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KHALED DESOUKI

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É hoje, dia 9 de abril, que Manuel José celebra o 75º aniversário. Retirado dos relvados há alguns anos, o homem que ficou conhecido por liderar Boavista, Sporting e Benfica nunca perdeu o carisma. Nos últimos tempos, mostra-o como comentador de programas sobre futebol.

Em entrevista ao jornal “A Bola”, explica: “Verde é verde, não é verde-esmeralda. “Continuo a dizer o que penso e o que sinto, mas sei o que digo. Expresso o meu pensamento através de palavras que me parecem mais apropriadas, assumindo a responsabilidade por aquilo que digo. Só tenho uma cara e uma palavra”.

Com uma carreira longa e muitas histórias acumuladas, Manuel José não tem dúvidas: “No futebol fiz tudo o que tinha a fazer”. No entanto, não deixa de admitir: “Cometi alguns erros pelo caminho. Ninguém é perfeito, (fui) mais levado pelo coração e pela amizade do que propriamente por má avaliação da minha parte”.

E é então que chega a revelação: “Nunca pensei ser treinador. (…) O meu irmão é que me convenceu a tirar o curso, que eu não queria. Fui sempre um bocado rebelde, fui capitão em várias equipas e tive conflitos com treinadores de quem fiquei amigo depois”. Com capacidade autocrítica, Manuel José admite: “Não era fácil de aturar. Para mim, a lealdade, a verdade e a coerência estão acima de tudo e muitas vezes no futebol estas palavras são vãs, não existem. (…) Prejudiquei-me imenso por ser quem sou e por não deixar que me comprassem”.

Para além de ter marcado o futebol português, Manuel José foi uma espécie de embaixador do nosso país no Egito. Enquanto treinador do Al-Ahly, conquistou 20 títulos e o amor eterno dos adeptos do clube. Ainda hoje, Manuel José é visto como um “semideus” no país dos faraós.

Cá dentro, faltou-lhe treinar o FC Porto para fazer o pleno dos chamados “três grandes”. Manuel José diz: “Se eu disser que não o treinei porque não quis vão dizer que é mentira. Mas é verdade”. Sobre trabalhar com Pinto da Costa, o técnico não tem dúvidas: “Nem morto trabalharia com ele,” diz o homem que se assume como adepto do Benfica. "Tenho muito respeito pelo Sporting mas sou benfiquista."

Em 2004, chegou a ser contratado para treinar a seleção nacional. A FPF, liderada por Gilberto Madaíl acabou por ir buscar Scolari. “Fui posto fora da seleção pelo poder corrupto que mandava na federação e no presidente,” diz o técnico. “Três meses e meio antes tinha tudo acertado com a FPF. Depois, ofereceram-me o dobro do dinheiro para eu ser adjunto de Scolari. Perguntei se estavam a brincar comigo. ‘Está a tentar comprar-me?’”

“Tentaram comprar-me mais de uma vez e nunca o conseguiram. ‘Entras no jogo ou estás tramado,’ diziam-me. Tramei-me mas hoje olho-me ao espelho e não tenho vergonha do que vejo. Ninguém na minha família tem e isso para mim é o mais importante. Sou incorruptível,” diz Manuel José.

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    Para quem se torna jogador-treinador, descalçar em definitivo as chuteiras pode ser mais difícil do que parece. Mas a insistência e o conselho sensato do irmão mais velho ajudou Manuel José a abraçar em definitivo a carreira de treinador que, diga-se teve mais sucesso do que a de jogador. Contador de histórias nato, recorda episódios vividos com presidentes fortes como Valentim Loureiro, Mesquita Machado, Pimenta Machado, João Rocha, Manuel Damásio ou Sousa Cintra num percurso que acaba por ficar muito ligado ao Egito onde se tornou uma espécie de "Deus" pelas conquistas no Al-Ahly.

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    Nascido no Algarve há 72 anos, no seio de uma família sportinguista, a primeira vez que teve hipótese de ir jogar para o Benfica, fugiu de casa. Mas acabou por ser na Luz que Manuel José iniciou a carreira de jogador, que o próprio considera medíocre, sobretudo, diz, por circunstâncias da vida, mas também por alguma culpa própria. Nesta primeira parte da entrevista (domingo será publicada a segunda parte), revela como o marcou a prisão do pai pela Pide, conta histórias da sua passagem pelo Benfica, União de Tomar, Farense e Sp. Espinho, entre outros, e revela como conheceu a sua mulher, com quem, dia 20 de julho, completou 49 anos de vida em comum