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Sir Alex Ferguson: "Hoje em dia, vês alguns treinadores a tomar notas durante os jogos. Eu nunca fiz isso. Sempre dependi da minha memória"

O histórico treinador do Manchester United, exemplo para muitos, controverso nalguns dos seus métodos, voltou à ribalta por causa de um documentário sobre a sua carreira ímpar. Em entrevista ao "The Guardian", admite que admira Steven Gerrard, treinador do Rangers e histórico jogador do Liverpool.

Carlos Luís Ramalhão

Matthew Lewis

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“Estás deitado na tua cama e estás por tua conta,” diz Sir Alex, lembrando o internamento no hospital há três anos. Muitos se lembrarão dos títulos, das vitórias históricas do técnico escocês em 27 anos de Manchester United, clube ao qual dedicou grande parte da sua vida adulta. Poucos se lembram da hemorragia cerebral que sofreu e que o levou às portas da morte. “Pode tornar-se solitário e assustador,” lembra aquele a quem muitos carinhosamente chamam Fergie.

Antes da chegada ao Manchester United, muito antes da hemorragia, havia um Alex a brincar nos estaleiros navais de Glasgow. Raramente um amadurecimento sem problemas cria personalidades assim, com a fibra necessária para enfrentar as agressões da vida. O jovem Alex sofreu no Rangers coisas que pouco conhecem e, ao contrário do que muitos pensam, não foi no Manchester United que conheceu o sabor da vitória pela primeira de muitas vezes. Esse gosto foi adquirido no modesto Aberdeen, equipa com a qual venceu a Taça dos Vencedores das Taças, competição entretanto fundida com a Taça UEFA para dar lugar à Liga Europa.

O filho, Jason, está presente durante a entrevista. É da sua autoria o documentário que mostra ao mundo um homem forte nalguns momentos de maior fragilidade. “Aconteceu depois da cirurgia, quando fiquei sem voz. Foi a parte mais assustadora,” confessa Ferguson que, após a operação relacionada com a hemorragia cerebral, esteve 10 dias sem conseguir dizer uma palavra.

Já em relação à entrevista, o treinador mais titulado do mundo pôde dar-se ao luxo de impor uma condição, apesar de certamente não lhe faltarem palavras sobre o tema: não responde a perguntas sobre o Manchester United atual, a família Glazer, que detém o clube, ou a Superliga Europeia.

Ferguson regressa ao tema da sua doença para explicar o medo de perder a memória que, juntamente com a perda temporária da voz, era o que mais o atormentava. “É que enquanto treinador, eu dependia da minha memória,” explica, começando a mostrar o feitio que o ajudou a tornar-se famoso. “Hoje em dia, vês alguns treinadores a tomar notas durante os jogos. Eu nunca fiz isso. Sempre dependi da minha memória e quando ia ao balneário isso era uma sensação muito forte. Não percebo. Baixar a cabeça para escrever e não ver um golo?”

Regressando à sua recuperação após a cirurgia, o escocês conta, entre sorrisos, que “a terapeuta da fala vinha todos os dias e era fenomenal”. “Pôs-me a escrever os nomes todos da minha família e dos meus jogadores. Depois foram os animais. Gradualmente, a minha voz regressou. Mas o mais importante era a minha memória. Ela pôs-me a escrever cartas à minha mulher e aos meus filhos.”

Apesar dos muitos anos de Inglaterra e de Manchester em particular, Alex Ferguson continua a ver nos bairros pobres de Glasgow as suas origens. O pai trabalhava nas docas. Em 1961, cortaram relações devido ao comportamento de Alex, na altura jogador das reservas do St. Johnstone. Estiveram quase três anos sem se falarem e até que o filho desse razão ao pai, o jovem Alex cometeu alguns excessos. Na noite da grande discussão que ditaria o corte de relações, Alex foi até ao centro da cidade, embebedou-se e passou a noite na prisão. “Rendi-me,” admite o escocês.

Não foi apenas a mudança de comportamento que ajudou a fazer as pazes com o pai. Um dia, o jovem jogador Alex Ferguson foi chamado à equipa principal do St. Johnstone porque o treinador “não tinha jogadores”. E logo contra o Rangers. Alex jogou e marcou três golos. Curiosamente, a boa exibição foi decisiva para ser contratado pelo adversário.

A ida de Alex para o Rangers foi celebrada em grande. Era o seu clube de infância, aquele que o pai e a família apoiavam. No entanto, os dois anos que passou de azul trouxeram mais mágoa do que alegrias, particularmente no dia em que a sua mulher, Cathy, entrou na discussão.

Glasgow estava – está – dividida entre protestantes e católicos, à imagem da Irlanda do Norte. O Celtic é conotado com a fé católica, enquanto o Rangers tem, na sua maioria, adeptos protestantes. Certo dia, um dirigente do Rangers quis saber se o casamento de Alex com Cathy tinha sido numa igreja católica. Ferguson respondeu que tinha sido no registo. Na verdade, o jovem que viria a conquistar o mundo, cometera o maior “crime” de todos: sendo protestante, casara com uma mulher católica.

Hoje em dia, Fergie confessa que só torce pelo Rangers frente ao Celtic. Naturalmente, tem o coração do lado de lá da fronteira, em Inglaterra. Ainda assim, deixa elogios a Steven Gerrard, antigo jogador do Liverpool e atual treinador do Rangers, e não apenas no jogo: “As conferências de imprensa dele são fantásticas. Uma má conferência pode custar-te o emprego”.