Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

Mendy, o número um do Chelsea: "Há seis anos eu dependia de um subsídio e estava prestes a trabalhar numa loja de roupa"

Edouard Mendy pode orgulhar-se do que tem feito: ganhou o lugar ao "milionário" Kepa Arrizabalaga e vai jogar a final da Liga dos Campeões com o Manchester City. Mas o franco-senegalês de quase dois metros sabe que, de um momento para o outro, as coisas mudam. E nem sempre é para pior

Carlos Luís Ramalhão

Chris Lee - Chelsea FC

Partilhar

Edouard Mendy. 29 anos. Franco-senegalês. Guarda-redes titular do Chelsea. Se lhe tivessem dito, em 2014, que este seria o seu lugar em 2021, talvez Mendy risse, talvez chorasse, mas dificilmente acreditaria. Depois de ter começado a época como suplente de Kepa, o espanhol que está – estava – entre os guarda-redes mais caros do futebol europeu, o francês conquistou o seu lugar. Hoje em dia são poucos os que põem em causa a justeza do seu papel num dos maiores clubes ingleses, finalista da Liga dos Campeões deste ano.

Em entrevista à distância ao “Daily Mail”, a sua voz enfraquece um pouco quando conta o momento da sua dispensa de um clube da terceira divisão francesa, em 2014. Desesperado, Mendy enviou mensagens impulsivas ao seu agente a perguntar se alguém o queria. A janela de transferências estava quase a fechar e o agente não lhe devolvia as chamadas. Parece um pesadelo recorrente mas não é. É simplesmente uma das muitas realidades escondidas no aparente “glamour” do futebol.

De repente, Mendy lembra o apartamento sobrelotado dos pais num subúrbio pobre de Le Havre. Edouard e a sua companheira, grávida pela primeira vez, mudaram-se para lá nesse verão por não poderem alugar um sítio só para eles. O futebolista treinava, sem pagar ou receber, na academia do clube local, tentando salvar uma carreira.

Mendy lembra o ano em que não teve clube, em que recorreu ao subsídio de desemprego, em que lhe pareceu impossível sustentar a família. Foi o ano em que fez 23 anos, uma idade em que a maioria dos futebolistas promissores já estão a conquistar prémios e glória.

Depois, veio a oportunidade de trabalhar, não da forma que melhor sabia fazer, mas ainda assim melhor do que viver de subsídios. Um amigo, que conhecia o sonho de Mendy, ofereceu-lhe uma hipótese de trabalhar numa loja de roupa. O francês esteve muito perto de aceitar mas, nesse momento, a vida mudou.

É por isso que o guarda-redes do Chelsea repete aos filhos uma frase em francês que é um conselho universal: “Jamais lacher”. Ou seja, “Nunca desistir”. Em 2013/14, Mendy era ainda guarda-redes. O clube era o AS Cherbourg, da quarta divisão do futebol francês. Era a sua terceira época no clube, a maior parte do tempo passada sentado no banco de suplentes. No fim dessa temporada, foi dispensado.

Edouard pôs a vergonha de lado e voltou à academia do Le Havre para treinar mais do que nunca. Foi um ano difícil. Uma semana depois de o seu amigo ter referido, pela primeira vez, a hipótese de lhe dar emprego na loja, Mendy recebeu uma chamada de Marselha. O clube do Sul de França queria oferecer-lhe uma hipótese de ser guarda-redes de reserva.

Mendy era o quarto guarda-redes do Marselha. Via a primeira equipa por um canudo. Ofereceram-lhe um contrato amador de um ano, com o salário mínimo. “Mendy era como um pneu sobresselente,” diz Dominique Bernatowicz, o treinador de guarda-redes da academia do Marselha. Nessa época, jogou algumas vezes pelas reservas. Foi o suficiente para repararem nele.

Em 2016/17, o ex-futuro empregado de uma loja de roupa assinou pelo Reims, da Ligue 2. No primeiro jogo da época, Mendy era suplente, mas o titular da equipa lesionou-se aos cinco minutos da partida. Edouard teve a melhor oportunidade até então de se mostrar. Ao Reims, sucedeu-se o Rennes, da Ligue 1, onde Petr Cech tinha jogado antes de ir para o Chelsea. E foi o mesmo clube londrino que o foi buscar a França para concorrer com Kepa pela pesada baliza que já pertencera ao checo.

“Sinto-me um sortudo por estar numa fase muito positiva da minha carreira, a jogar por um clube onde tenho a oportunidade de ganhar troféus, mas o que aconteceu é mais do que simples sorte. Eu trabalhei arduamente para chegar aonde cheguei. Esta final (da Liga dos Campeões) é a recompensa por esse trabalho,” afirma Edouard Mendy, guarda-redes do Chelsea, internacional pelo Senegal, em 2021.