Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Revista de Imprensa

A filha de Muhammad Ali e o novo documentário sobre o lendário pugilista: “Espero que conte a história do meu pai a uma nova geração"

Numa daquelas situações em que o nome diz tudo, o novo documentário sobre a lenda do boxe chama-se "Muhammad Ali". O homem por trás do mito teve uma vida difícil, como seria de esperar num tempo em que o racismo era visto como natural. Na tela, uma das sete filhas de Cassius Clay/Muhammad Ali ajuda a contar a história do pai, alguém que se via com uma missão na Terra: ajudar pessoas

Tribuna Expresso

Bettmann

Partilhar

Foi em fevereiro de 1964 que um jovem chamado Cassius Clay, de Louisville, no estado do Kentucky, se autoproclamou “o maior”. De seguida, tirou a Sonny Liston o seu primeiro título de campeão mundial de boxe em pesos-pesados. Foi o primeiro de três.

Entretanto, Clay converteu-se ao Islão e passou a chamar-se Muhammad Ali. Conquistou fãs e títulos um pouco por todo o mundo, com o carisma e a controvérsia que andaram sempre lado a lado na sua carreira e na sua vida. Ken Burns, realizador do novo documentário, ao qual chamou, simplesmente, “Muhammad Ali”, refere que há ainda mais desses dois ingredientes na vida de Ali do que a carreira faz pensar. A filha, Rasheda Ali, concorda.

“O meu pai não teve uma vida fácil. Teve muitos divórcios, muitos contratempos, até com o Supremo Tribunal, e sacrificou um pouco da sua vitalidade para que o ‘seu’ povo fosse libertado,” disse Rasheda, uma das sete filhas do pugilista, ao jornal “Observer”.

O documentário refletiu a complexidade da vida de Clay/Ali. Foram seis anos de trabalho partilhado entre Ken Burns, a sua filha Sarah, e David McMahon, corealizadores do filme. Rasheda tem o espírito do pai, segundo Burns, e não hesita quando diz esperar que a série documental conte a história de Ali “a uma nova geração, não familiarizada com pessoas socialmente responsáveis por grandes agregados”.

Rasheda prossegue: “Consegue-se ver [no documentário] que este homem gentil está fora da sua zona de conforto. Ele era um rapaz de uma pequena cidade, atirado automaticamente à multidão. Mas mesmo ainda novo, ele tinha um pensamento transcendental. Sempre pensou que (…), dada a oportunidade, ele aproveitaria para ajudar as pessoas. Na casa dos 20, ele estava a mudar o mundo e provavelmente nunca tinha pensado estar nessa posição”. Ali “enfrentou o racismo extremo, a brutalidade da polícia, a islamofobia,” conta Rasheda, acrescentando a atualidade dessas questões: “Ainda estamos nessa luta”.

Ken Burns afirma que o filme é “uma tentativa de ir para além da sapiência convencional. Não queríamos apenas contar a história dos combates (…), mas também a sua viagem religiosa e vida pessoal, a interseção com todos os temas importantes na América da segunda metade do século XX.” O realizador refere “o papel do desporto, os atletas negros, as questões da masculinidade negra…”

No documentário, é referido um episódio que influenciou Ali a tornar-se ativista dos direitos da comunidade afro-americana.

Em 1955, no Mississippi, um jovem de 14 anos chamado Emmett Till foi assassinado por questões raciais. “Tinham a mesma idade,” lembra Rasheda. O crime que levou Emmett “foi tão abominável que o motivou a levantar-se e mudar as coisas. Ele sentia que estava na Terra para ajudar as pessoas” completou a filha de Muhammad Ali.