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Halldorsson, realizador e ex-guarda-redes: “Participar num jogo grande é inacreditável, mas ver o nosso filme num cinema é semelhante”

O islandês, que se tornou conhecido do grande público — principalmente o argentino — ao defender um penálti de Lionel Messi, de vez em quando lá pegava numa câmara de filmar. Agora que pendurou as luvas, mas não a câmara, Hannes Thor Haldorsson acha que a história da sua carreira "daria um mau argumento para um filme" porque "as pessoas não iriam acreditar"

Carlos Luís Ramalhão

Robbie Jay Barratt - AMA

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Com pouco mais de 20 anos, desistiu do futebol. Aos 28, depois de regressar aos relvados, estreou-se pela Islândia. Ao serviço da seleção nórdica, venceu a Inglaterra no Euro 2016 e, no primeiro jogo da Islândia num Mundial, defendeu um penálti de Leo Messi. Aos 37 anos, Halldorsson, o guarda-redes que é também realizador de cinema, conclui, acerca da sua carreira: “Seria um mau argumento para um filme. As pessoas provavelmente não iriam acreditar”.

Não se pense que o guardião está a exagerar a sua experiência cinematográfica. O mais recente filme de Halldorsson chama-se "Cop Secret", é uma comédia LGBTQ+ e tem sido bem recebido internacionalmente, com direito a estreia oficial no festival BFI, em Londres.

Aos cinco anos, Hannes Thor jogava no clube mais vencedor da Islândia, o impronunciável Knattspyrnufelag Reykjavikur, por sorte também conhecido como “KR”. Uma lesão no ombro, aos 20 anos, fê-lo deixar as balizas e investir na sua carreira cinematográfica. Mas a história do guarda-redes com nome de deus da mitologia nórdica ainda não tinha acabado. “Decidi que iria ver qual das carreiras me levava mais longe,” disse, em entrevista à "BBC".

Halldorsson regressou em força.

“A adrenalina de participar num jogo grande é inacreditável, mas sentarmo-nos num cinema para vermos um filme que fizemos, diria que é uma sensação semelhante,” concluiu o islandês, na mesma entrevista. Na sua segunda “vida” como jogador de futebol e realizador, Halldorsson foi chamado à seleção e estabeleceu-se como titular da baliza nacional. Ao mesmo tempo, trabalhava para uma agência publicitária.

Em 2013, o homem por trás do guarda-redes e do realizador percebeu que estava às portas de um esgotamento. “Não era normal ser o número um da equipa nacional e ter um emprego com trabalho constante ao mesmo tempo,” reconhece Hannes. No ano seguinte, dedicou-se exclusivamente ao futebol, não abandonando a ideia de fazer filmes, apenas deixando-a descansar. “Joguei no estrangeiro cinco ou seis anos, criei os meus filhos em muitos países.” De facto, Halldorsson jogou na Noruega, nos Países Baixos, na Dinamarca e no mais longínquo Azerbaijão. Regressou ao país natal em 2019, ainda para jogar.

Anadolu Agency/Getty

Foi na baliza do Valur que o islandês recuperou uma ideia antiga para um filme. Já em 2011, Halldorsson tinha realizado um filme de ação, com um dos maiores humoristas da Islândia. Inspirado pelo seu primeiro filme, uma curta-metragem, o cineasta começou a rodar o novo trabalho quase no fim da época de 2020, em que se sagrou campeão da Islândia pelo Valur.

Halldorsson retirou-se (agora sim) do futebol no mês passado, com 77 internacionalizações. Quem tiver estado atento ao que se passou no Euro 2016, aquele em que Portugal se sagrou campeão europeu, ter-se-á apercebido de uma outra seleção que impressionou. Precisamente a Islândia, que empatou com a seleção portuguesa e venceu a Áustria, tendo ficado em segundo lugar no grupo, atrás de Portugal. A seguir, os nórdicos, com os seus costumes excêntricos e uma comovente ligação ao seu público, ainda venceram a Inglaterra.

Com o seu humor escandinavo, Halldorsson atreve-se a dizer: “Esses momentos são os pontos altos da minha carreira e da minha vida. É suposto dizeres que o nascimento dos teus filhos é o teu ponto alto, mas diria que isto [Euro 2016] ultrapassa isso [o nascimento dos filhos]. Não digas a ninguém!”

Dois anos mais tarde, o guarda-redes foi um dos onze islandeses a estrear o país num Campeonato do Mundo. E de que forma. Em grande parte, o empate a um golo frente à Argentina deveu-se à ação de Halldorsson, que defendeu um penálti marcado por alguém muito especial. “Se pensares num cenário de sonho para um guarda-redes, concluis que é defender uma grande penalidade de Lionel Messi,” contou Halldorsson, ainda entusiasmado.