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Kaepernick, o homem que se ajoelhou por um mundo justo: “Acordo às 5h, treino 6x por semana. Estou pronto para levar um clube à Super Bowl”

Foi posto de lado pela NFL depois de se ter ajoelhado em protesto contra a violência racial, enquanto se ouvia o hino dos EUA. A luta de Kaepernick não parou por causa disso. O jogador de futebol americano continua empenhado em mudar mentalidades e quer fazê-lo de várias formas, incluindo numa série da Netflix sobre a sua adolescência. E garante que não deixou de se preparar para um regresso à NFL

Carlos Luís Ramalhão

Colin Kaepernick ao serviço dos San Francisco 49ers.

Thearon W. Henderson

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Colin Kaepernick tornou-se globalmente conhecido — ou, pelo menos, nas zonas do globo que não seguem tanto o futebol americano — porque se ajoelhou, em pleno relvado, durante a habitual cerimónia do hino antes de jogos da NFL. O propósito era simbólico: chamar a atenção para a violência sobre a comunidade afro-americana. A sociedade dividiu-se. Trump, o presidente que nunca foi de todos os americanos, criticou-o. E mesmo a própria NFL torceu o nariz ao gesto de Kaepernick, que continua sem clube.

A estrela da modalidade dá poucas entrevistas. A revista “Ebony” conseguiu pôr o atleta a falar sobre a infância, particularmente sobre a importância de ter sido adotado por uma família branca. A juventude de Kaepernick vai ser retratada em “Colin in Black and White”, a série da Netflix. “A mensagem é manteres-te fiel a ti próprio, acreditares em ti próprio, teres confiança na tua identidade e não deixares ninguém tirar-te isso,” diz o jogador.

Nas palavras de Kaepernick, a série retrata a forma como os negros se relacionam com os brancos numa América dividida, “mas também das pressões, das micro-agressões, do racismo”. “Espero que seja uma oportunidade para os brancos olharem para as suas ações (…) e para as posições de poder e privilégio que ocupam,” conta o atleta.

Colin foi adotado por pais brancos, bem-intencionados mas não muito conhecedores da cultura afro-americana. “Não diria que sinto arrependimento. Não gosto de olhar para as coisas dessa forma, sinto que faz parte do nosso caminho. Uma das questões de ser negro e adotado por uma família branca é que há conversas que eu não poderia ter ou que não me sentiria confortável a ter. Gostava de ter tido um mentor que aparecesse nesses momentos (…) para ajudar a orientar-me,” desabafa Kaepernick.

Além de jogador, embora ainda sem clube jogador da NFL, e de ativista pelos direitos humanos, Colin poderá vir a ser ator. Não descarta a hipótese, dizendo só que precisa de “mais treino” com as pessoas que o ajudaram a entrar no papel — dele próprio — para a série da Netflix. Mas desengane-se quem pensar que o desporto deixou de fazer parte da vida diária de Kaepernick. “Continuo a levantar-me às cinco da manhã, treino cinco, seis dias por semana e asseguro-me de que estou preparado para levar novamente uma equipa à conquista da Super Bowl. Isso é algo que eu nunca deixarei de fazer,” conta o atleta que, após ajoelhar-se, foi posto de lado pela NFL.

No entanto, o ativismo de Colin não começou nesse dia de setembro de 2016, no qual se ajoelhou.

Dez meses antes, em conversa com a mulher, Nessa, a jogador da NFL lançou as sementes do que viria a ser o “Know Your Rights Camp”, uma organização sem fins lucrativos que organiza acampamentos para jovens das comunidades negra e latina, com objetivos pedagógicos.

Outro dos projetos de Colin é a editora Kaepernick Publishing. Nascida em 2019, a empresa “luta por elevar uma nova geração de escritores com diferentes visões e vozes, através da criação de obras poderosas de todos os géneros, que podem construir um mundo melhor e mais justo”.

“Tu tens o poder e a capacidade de provocar impacto e criar a mudança, atraindo o futuro que desejas. Penso que podemos fazê-lo pessoalmente, penso que podemos fazê-lo coletivamente. (…) Mudar o mundo? Tentar,” diz Colin Kaepernick após refletir um pouco.