Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Revista de Imprensa

Ricardinho: "O problema de [Simone] Biles aconteceu-me a mim no Mundial. Cada dia era um sofrimento"

Ao melhor jogador português de sempre no futsal, só faltava mesmo ser campeão do mundo. E foi, para alegria da nação. Mas o caminho até à glória esteve longe de ser reto e bem alcatroado. Ricardinho, em entrevista ao jornal espanhol "Marca", relatou as dificuldades por que passou, comparando-as com as da ginasta americana Simone Biles, em Tóquio 2020

Tribuna Expresso

Angel Martinez - FIFA/Getty

Partilhar

Se, no futebol, Cristiano Ronaldo tem tido um rival à altura, com a competição entre o português e Leo Messi a dominar e a dividir as opiniões, no futsal Ricardinho tem reinado praticamente sozinho. O melhor jogador do mundo em múltiplas ocasiões só não era campeão mundial. Agora que já pode ocupar esse espaço no museu particular, o jogador nascido em Valbom, Gondomar, em 1985, explica à “Marca” que nem tudo foi fácil até conquistar o mais desejado título com a seleção portuguesa.

“Não esperava que o título viesse tão tarde, aos 36 anos, mas chegou no momento mais duro da minha carreira, após superar uma lesão muito difícil. O médico diz que só houve cinco ou seis [casos] no mundo,” explica Ricardinho, que em março rompeu um tendão na perna direita.

“A recuperação foi muito boa. É verdade que não estive ao meu melhor nível. Fui um Ricardinho diferente, tive de passar por uma fase de aceitação, saber o que podia fazer e dar o máximo até esse ponto. O problema de [Simone] Biles aconteceu-me a mim no Mundial. Cada dia era um sofrimento. Mas ganhar um título assim foi incrível, o melhor momento da minha vida,” diz o futsalista.

Depois de uma operação complicada, em março, Ricardinho sofreu também, como a maioria dos seres humanos, com a pandemia. “Tentei preocupar-me mais comigo, rodear-me de pessoas que gostam de mim e trabalhar muito, primeiro com dores e depois a começar a caminhar e a correr. Quando vi que o [selecionador nacional] Jorge Braz contava comigo saiu-me um peso de cima,” afirma Ricardinho.

O jogador que, em Portugal, se afirmou no Benfica, não tem dúvidas de que foram os meses mais duros da sua carreira. “Já rasguei a tíbia e estive seis meses sem jogar, mas na altura tinha 19 anos e muitos anos pela frente. Agora, com 36, não podia deixar escapar a oportunidade [de ser campeão do mundo],” diz.

Com a ajuda do psicólogo da seleção portuguesa, Ricardinho foi combatendo as suas dúvidas e suavizando as angústias. O sucesso desportivo ajudou, claro, mas não foi suficiente.

“Agora estou a passar um pouco essa fase de muitas dúvidas e problemas psicológicos pelo que passei em França, apostando num projeto que correu mal por causa da lesão. Foi muito difícil concentrar-me no Mundial, depois de 50 e tal dias a treinar sozinho. Como líderes, devemos mostrar segurança, confiança, animar, apoiar e ajudar quando há problemas. Mas, por dentro, também tens os teus problemas, mesmo que não possas mostrá-los. Por vezes tínhamos dúvidas sobre as nossas capacidades mas queríamos fazer história e, para isso, tínhamos de chegar à final. Já que estávamos ali, queríamos desfrutar,” contou o campeão do mundo por Portugal.

O futuro próximo passa por “fazer o mínimo até dezembro (…) para que eles [ACCS, o atual clube, de França] tenham a oportunidade de recompor tudo o que tem estado mal economicamente este ano” - o clube foi mesmo despromovido à 2.ª divisão na secretaria, devido a incumprimentos salariais e outros problemas financeiros.

“Vou dar-lhes uma oportunidade. Se as coisas não correrem bem em dezembro, procurarei outro clube. Tenho muitas ofertas de Portugal, Espanha, Rússia, Itália ou Brasil. Parece que as pessoas voltam a acreditar, mas a minha mulher não tem muita vontade de mudar de casa,” explica Ricardinho.