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“Há milhares de trabalhadores em risco”. A um ano do Mundial, Amnistia Internacional acusa Catar de continuar a explorar migrantes

De acordo com os ativistas na defesa dos direitos humanos, os abusos cometidos pela organização do próximo Campeonato do Mundo são contínuos, apesar de ter havido alterações nas leis, no ano passado. A Amnistia Internacional alerta para as condições em que vivem e trabalham milhares de pessoas provenientes de outros países

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O Estádio Internacional de Khalifa, em Doha, é um dos que acolherão jogos do Mundial de 2022, no Catar

Matthew Ashton - AMA

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O regime do Catar tem despertado, ao longo dos anos, o interesse das mais variadas organizações promotoras dos direitos humanos. A acusação é quase sempre a mesma: o constante desrespeito pelos estrangeiros que escolhem o país para trabalhar e beneficiar de uma pequena fatia dos petrodólares de uma das mais ricas nações do mundo.

Com a organização do Mundial de futebol em 2022, a atenção redobrou e muitos dedos têm sido apontados ao governo do Catar, críticos por estar a promover uma tentativa de maquilhar os problemas através do desporto ('sportswashing').

Um novo relatório da Amnistia Internacional refere as reformas que foram introduzidas pelo Catar a um ano do Campeonato do Mundo. Por exemplo, os trabalhadores migrantes viram reduzidas as restrições à sua saída do país ou a mudanças de emprego sem a autorização da empresa que os contratou. A entidade, segundo o "The Guardian", diz que é pouco, muito pouco, e que nem sequer está a ser seguido.

A organização acusa as autoridades do país árabe de “complacência” na aplicação das leis e afirma que essa falta de empenho tem levado a situações graves da aplicação do sistema Kafala, um código violento, comparado ao esclavagismo, de controlo da vida dos migrantes, do qual fazem parte as restrições referidas no parágrafo anterior e que teriam, supostamente, sido atenuadas.

O novo relatório da Amnistia Internacional (AI), intitulado Reality Check 2021, cita uma trabalhadora migrante que diz ter sido ameaçada pelo empregador quanto quis mudar de trabalho, tendo sido informada de que teria de pagar mais de 1.400 euros por um certificado de “não objeção”, ou seria enviada para o país de origem. Aparentemente, as coisas tinham mudado, mas, diz a AI, num artigo do “The Guardian”, a queixa apresentada pela trabalhadora foi rejeitada pelas autoridades.

O jornal inglês refere que outras práticas, tais como a retenção de salários e benefícios para dificultar o abandono dos empregos por parte dos migrantes, são comuns. “A aparente complacência das autoridades está a deixar milhares de trabalhadores num risco contínuo de exploração por empregadores sem escrúpulos, com muitos a não poderem mudar de emprego e a verem parte dos seus salários roubada pelos patrões,” disse Mark Dummett, diretor da Amnistia Internacional.

Já em agosto, a AI tinha acusado o regime do Catar de não investigar de forma empenhada as mortes de milhares de trabalhadores migrantes ao longo da última década. Considerando a aproximação do Mundial, a organização pediu à FIFA que pressionasse o governo do país para que cumpra o programa de reformas anunciado e o faça antes do jogo inaugural do torneio, a 21 de novembro de 2022.