Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Revista de Imprensa

Zlatan Ibrahimovic aos 40: “Para mim, sofrer é uma espécie de pequeno-almoço. Não é o dinheiro que te vai curar, é a adrenalina”

O carismático jogador sueco do AC Milan diz sempre o que pensa, mas nem sempre revela o que sente. Em entrevista ao inglês "The Guardian", Ibra abriu o coração e falou das dores dos 40 anos e dos erros cometidos no passado que, assegura, voltaria a cometer

Carlos Luís Ramalhão

Nicolò Campo/Getty

Partilhar

A entrevista do sueco abre com uma confissão: “Não é fácil. Todos os dias, quando acordo, tenho dores por todos os lados”. É Zlatan Ibrahimovic, ainda e sempre no seu estilo assertivo, mas juntando-lhe a inevitável pitada agridoce de quem tem 40 anos e continua a ser atleta de alta competição. A aparente melancolia é rapidamente dissipada.

O jogador do AC Milan prossegue: “Hoje de manhã senti dores em toda a parte, mas, enquanto eu tiver objetivos, enquanto sentir a adrenalina, continuo. Sei que estou a chegar a algo bom; algo em que tenho de trabalhar para manter-me no topo”.

Claro que Ibra sabe que um dia vai ser ex-jogador de futebol. Mas o carismático sueco promete que vai dar luta à tentação de pendurar as chuteiras: “Vou continuar a fazê-lo enquanto puder. Não quero arrepender-me e lamentá-lo anos depois”.

E não se pode dizer que Zlatan ande a arrastar-se pelos relvados italianos. O AC Milan não é o que era na década de 90, anda à procura de um futuro mais parecido com o seu passado. No último sábado, os milaneses perderam com a Fiorentina por 4-3. Dos três golos que marcaram, dois tiveram a assinatura de Zlatan, o outro resultou de uma assistência do sueco.

A lista de clubes que tiveram Ibrahimovic no plantel é extensa. Nos últimos anos, Zlatan jogou pelo Manchester United e mudou-se para Los Angeles, nos EUA, para dois anos no LA Galaxy. O ingresso na MLS poderia ter significado o princípio de uma bela reforma, só que não estamos a falar de um jogador qualquer. Ibra regressou ao AC Milan, clube pelo qual já tinha jogado, com um objetivo em mente: motivar os muitos jovens com quem partilha o balneário e que o veneram.

“Não tem a ver com contratos ou ser famoso. Não preciso disso. A única coisa que me mantém ativo é a adrenalina. (…) Ter mais dois seguidores não te vai curar. Ter mais dinheiro não te vai curar. Chamar a atenção não te vai curar. O que te vai curar é a adrenalina,” defende o talentoso Ibrahimovic, que prossegue: “Não tenho problemas com o sofrimento. Para mim, sofrer é uma espécie de pequeno-almoço. A maioria das pessoas não percebe o sofrimento porque a nova geração (…) tem de fazer pouco para conseguir crédito”.

Esta época, o AC Milan conseguiu chegar à Liga dos Campeões, competição que chegou a dominar. Os italianos partilham o grupo com Liverpool, Atlético de Madrid e FC Porto e não tem sido fácil. Os milaneses têm a equipa com a média de idades mais baixa da competição, mesmo que haja um quarentão no plantel. “É incrível. Eles fazem-me parecer jovem. Tem este efeito, como o [filme] Benjamin Button. Após seis meses aqui, vais ter cabelo escuro,” graceja Zlatan.

A Serie A é conhecida por manter jogadores veteranos no ativo mais tempo do que seria expectável.

A primeira passagem de Zlatan pelo AC Milan começou em 2010, um ano depois da reforma de um desses veteranos exemplares: Paolo Maldini, defesa histórico do futebol mundial, filho de Cesare Maldini, antigo jogador e selecionador italiano, retirou-se aos 41 anos. Hoje, Ibrahimovic joga com o filho de Paolo e neto de Cesare, Daniel Maldini.

“Não é fácil para o filho ser comparado com o pai, principalmente quando este teve a carreira que teve,” afirma Ibra. “[Daniel] é um grande talento, mas eu digo-lhe: ‘Faz o teu jogo, luta e vais ser tu a abrir caminho’. Estou feliz. Joguei contra o pai [pela Juventus e pelo Inter de Milão] e agora jogo com o filho. Talvez o Daniel venha a ter um filho,” diz Zlatan de sorriso aberto, que rapidamente se fecha. É o olhar feroz do sueco, que ainda está aí para as curvas.