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O Cristianismo faz hoje anos

O mito de Cristiano Ronaldo começou a 12 de janeiro de 2008, quando recebeu a primeira Bola de Ouro e esta é uma viagem ao passado pelas vozes de quem com ele coincidiu dentro de campo, como adversário: Pedro Mendes, Ricardo Rocha e Manuel Fernandes

Hugo Tavares da Silva

ANDREW YATES

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O meiinho, ou a rabia como se dizia antigamente, ditava as modas do balneário do Manchester United, e quando foi a vez de Ronaldo ir para o “pig in the middle”, como os dizem ingleses, a vida nao foi fácil. Ryan Giggs era o pior: queria colocá-lo à prova e chutava-lhe mísseis para os pés; Phil Neville recriminava-o com os olhos. Quando tocava a fava a Cristiano, as velhas raposas caprichavam e procuravam não errar. “Ele não gostava de defender, por isso tentávamos fazê-lo correr o máximo de tempo possível”, revelou em tempos Neville.

Era um dos truques que os rapazes de Alex Ferguson tinham para baixar a crista de quem entrava por ali dentro demasiado folgado. Afinal, este era um rapaz de 18 anos que chegara a Old Trafford logo com a mítica camisola 7, a tal que George Best e David Beckham glorificaram. A mentalidade de Ronaldo foi mudando, até que começou a receber bons passes. “Ganhou o respeito dos veteranos”, sentenciou o jornalista Guilleme Balagué num artigo para o “The Telegraph” (2015), em que desmontou a influência dos colegas e do treinador escocês na carreira do futebolista formado no Sporting.

Ronaldo entrou em Old Trafford em 2003, no ano perfeito e sem derrotas do Arsenal de Wenger, um ano antes da chegada do furacão-Mourinho ao finório bairro de Chelsea. O sucesso não foi instantâneo e foi necessário esperar até à quarta época para levantar o troféu da Premier League; pelo meio, Real Madrid e Barcelona andavam com as sobrancelhas levantadas e terão tentado contratá-lo, só que Ronaldo preferiu renovar com o United, em abril de 2007. No ano seguinte, explodiu, todo ele músculo num corpo antes frazino.
Em 2008, Cristiano encomendou a cadeira de aço-divino que lhe permitiria sentar-se na mesa das lendas da Premier League e começou a mudar o seu jogo. “É diferente. O Ronaldo deixou de fazer o que os adeptos normalmente gostam, dribles e coisas para o YouTube, e focou-se em finalizar”, diz ao Expresso Manuel Fernandes, que prefere a versão que mistura fantasia e golo, como naquela época. Ricardo Rocha, na altura no Tottenham, lembra-se do que via em campo. “Antes era um jogador diferente. Tinha muita irreverência, ia sempre para cima do adversário, fazia aqueles truques que os defesas não gostam. Recordo-me de um jogo em nossa casa em que o Cristiano estava a ser muito assobiado. Na segunda-parte tive uma pequena conversa com ele: ‘Epá, o pessoal aqui não gosta de ti, está tudo contra ti’. Ele riu-se e disse ‘eu gosto é disto, que me estejam a picar’ [risos]. Depois, aprendeu-se a controlar”. E foi então que começou a transformação, devidamente contextualizada por um colega.

O tomahawk

“O Ronaldo teve uma grande ajuda”, garante Luís Boa Morte, um homem que chegou ao Arsenal em 1997 e passou 14 épocas na Premier League (Fulham e West Ham). “O Gary Neville, que jogava atrás dele, insistiu sempre para ele ser um jogador mais direto e objetivo. Eu jogava do lado deles, eu ouvia o Neville dizer-lhe para não fazer muitos truques.” Enquanto uns faziam o “trabalho sujo” atrás, Cristiano tinha a “responsabilidade de fazer o trabalho bonito”, diz Boa Morte.

Cristiano era como um cavalo selvagem que acreditava poder fazer tudo em todo o lado, em relvas imaculadas ou em campos lamacentos. Os pés de lã, majestosos no trato da bola, desafinavam da potente sinfonia que era o futebol inglês e ele lá andava na linha, perto da fronteira do campo, mas com a liberdade para conhecer os territórios interiores. “Deixou de despender tanta energia a pegar a bola no meio-campo e sair a driblar”, relembra Ricardo Rocha. À vertigem, aos dribles furiosos e sublimes ao mesmo tempo, Cristiano juntou golos, muitos golos.

Nessa época, em que o United conquistou o campeonato e a Champions, o avançado português foi uma maquina goleador que manteve quase intacta a amizade com o drible. Os puristas dizem que nunca mais houve um Ronaldo assim. Um desses golos aconteceu diante dos olhos do incrédulo Pedro Mendes, sentado no banco em Old Trafford, numa noite fria de janeiro. “Talvez tenha sido dos melhores livres que alguém marcou contra nós. Talvez o melhor. Foi fantástico. Houve espanto. Um livre daqueles tão perto da baliza não é fácil. O David James ficou sem reação. Foi incrível. Aquilo sobe e desce, entra no ângulo; a distância que está da baliza e a velocidade que a bola leva… não está ao alcance de qualquer um”, descreve Mendes, então médio do Portsmouth. Era o tomahawk, um livre direto com assinatura de autor.

“Aquele livre reflete como ele estava a chegar a um nível brilhante”, garante Miguel Delaney, jornalista do ‘The Independent’. “Penso que foi a primeira época em que passou de extremo para um avançado dominador. Era brilhante a correr desde trás e a marcar, mas também era perigoso dentro da área.”

Para dar músculo à tese, Delaney resgata à memória um desabafo de Sam Allardyce, na altura o treinador do Bolton. Quando questionado sobre se as exibições de Ronaldo deixavam cicatrizes nos seus jogadores, Allardyce não foi meiguinho: “Cicatrizes? Vamos precisar da merda de um cirurgião plástico depois disto”.

Pedro Mendes, que antes passara pelo Tottenham, destaca algo diferente em Cristiano, para além dos números. “O mais importante é o peso que ele tem na equipa. Podes ter números interessantes e não teres a preponderância que outro tem com menos números. Juntou estatística à preponderância. Tem mudado de clube e mantém isso. E a ausência dele também se nota... e de que maneira [risos].” Obviamente, Mendes refere-se ao Real Madrid, mas este artigo não é sobre uma obra acabada, mas de um trabalho em progresso.

Resistir

Ronaldo ganhou carapaça. Resistiu ao jogo da rabia, às provocações dos colegas, que lhe diziam que ele só estava a aquecer a camisola 7 para o regresso de Beckham, e também ao famoso temperamento de Alex Ferguson; aquele futebol transformou-o. “É um campeonato muito rápido. Não temos um minuto para descansar. Pensas que estás tranquilo e lá vem a bola novamente. É duro”, explica Ricardo Rocha.

O Manchester United acabou por celebrar o título de campeão nacional com 27 vitórias em 38 jogos. O Chelsea ficou apenas a dois pontos e Cristiano foi o melhor marcador da competição com 31 golos. Na Liga dos Campeões, que escapava ao United desde aquela noite especial de 1999 contra o Bayern Munique, as coisas estavam bem encaminhadas. Depois de ganhar o Grupo F, deixou pelo caminho Lyon, Roma e Barcelona. O português tinha finalmente a oportunidade de escrever a sua história no Luzhniki Stadium, em Moscovo.

O rival era o Chelsea de Avram Grant. Aos 26 minutos, o português voou sobre Essien, a sua sombra cresceu como a de um gigante e cabeceou para a baliza de Petr Čech, celebrando o oitavo golo, a melhor marca naquela edição do torneio. Depois, Frank Lampard empatou antes do intervalo, o prolongamento manteve o mistério, Cristiano até falhou na decisão dos penáltis e Edwin van Der Sar garantiu o final feliz. Mas a marca já lá estava e no final de 2008 contaram-se 46 golos (pelo Manchester United e pela seleção), muitos truques, troféus e medalhas coletivas, distinções individuais (melhor do mundo para a FIFA e a Bota de Ouro).

O melhor veio depois: a 12 de janeiro de 2009, Ronaldo recebeu a primeira de cinco Bolas de Ouro e pediu à mãe e aos irmãos que se soltassem os fogos na Madeira. Nesse instante, há precisamente 10 anos, nasceu o Cristianismo.