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“Quando os italianos aplaudirem quem idolatram, vão estar a aplaudir o Miguel e o que ele fez pelos refugiados”: uma carta aberta a Ronaldo

O desafio está lançado: uma camisola com o número 7 foi enviada para Cristiano Ronaldo, para que a vista e publique uma fotografia nas redes sociais. Nas costas pode ler-se “Miguel”, o nome do português envolvido numa investigação em Itália devido ao resgate de pessoas no Mediterrâneo

Marta Gonçalves

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De Turim a Catânia são quase dois mil quilómetros. Nas duas cidades italianas contam-se histórias de portugueses que deixam marca: na primeira, Cristiano Ronaldo (nem será preciso explicar ao certo que faz ele) e na segunda, Miguel Duarte, que participou em missões de resgate e salvamento de pessoas no centro do Mediterrâneo e é agora arguido num processo por suspeita de ajuda à imigração ilegal e arrisca uma pena de 20 anos de prisão. Esta segunda-feira, o Conselho Português para os Refugiados pediu a ajuda de Cristiano para apoiar Miguel.

“Quando os italianos aplaudirem alguém que idolatram, também estarão a aplaudir o Miguel e o que ele fez pelos refugiados. Este é o momento para deixarmos claro que quem salva vidas não pode ser tratado como criminoso”, pode ler-se na carta aberta divulgada pelo Conselho Português para os Refugiados. O objetivo é que o capitão da seleção nacional vista uma camisola que lhe foi enviada com o nome de Miguel e que publique a fotografia nas redes sociais.“Veste a camisola, Ronaldo. Afinal, o melhor do mundo pode ajudar a fazer o mundo melhor.”

Com processo a desenrolar-se na Justiça italiana, o Conselho Português para os Refugiados decidiu “pedir ajuda a alguém que faz a diferença em Itália e no mundo”. Miguel Duarte tem 26 anos e embarcou no Iuventa, navio da organização governamental com o mesmo nome, como voluntário no resgate e salvamento de pessoas no centro do Mediterrâneo (primeiro como tradutor, depois como a pessoa que faz o primeiro contacto com os migrantes).

Tanto Miguel como mais nove tripulantes daquele navio humanitário são arguidos do processo e suspeitos do crime de auxílio à imigração ilegal, que pode ser condenado até 20 anos de prisão.

Em cerca de um ano de missões, o Iuventa resgatou 14 mil pessoas que tentavam chegar à Europa pelo mar. “Lançamos esta campanha porque acredita que, tendo em conta a actual situação no Mar Mediterrâneo, a ação de ONGs e dos seus colaboradores, é fundamental para salvar vidas e para garantir o acesso das pessoas com necessidades de protecção a um território seguro e a um sistema de asilo que permita acautelar os seus direitos”, explica Mónica Farinha, presidente do CPR, em comunicado. Ao mesmo tempo é também lançada a #vesteronaldo.

Até à publicação deste texto, não havia qualquer reação por parte do internacional português nas redes sociais.

“Quando alguma injustiça atinge um de nós, sentimo-nos todos injustiçados”: a carta na íntegra

“Carta aberta ao melhor do mundo,

Nos últimos anos, os italianos aprenderam a respeitar, a admirar e a aplaudir a camisola número 7. A tua camisola. Uma camisola que enche todos os portugueses de orgulho.

Nós somos mesmo assim: quando um português se destaca no mundo, é como se todos nós também nos destacássemos. Sentimo-nos como 11 milhões de melhores do mundo.

Por isso, quando alguma injustiça atinge um de nós, sentimo-nos todos injustiçados.

O Miguel Duarte é um aluno de doutoramento que trocou a tranquilidade da Azambuja pelas águas revoltas do Mediterrâneo Central. Enquanto membro da tripulação do navio Iuventa, num ano de operações, o Miguel ajudou a salvar a vida de 14 mil homens, mulheres e crianças. Os números seriam ainda maiores se a embarcação não tivesse sido arrestada pelas autoridades italianas.

Agora, Miguel e mais 9 tripulantes do Iuventa foram constituídos arguidos pelo Estado Italiano por suspeita de ajuda à imigração ilegal e arriscam uma pena de 20 anos de prisão e o pagamento de multas avultadas.

Às acusações, Miguel responde: “Quando vejo uma pessoa a morrer afogada, não pergunto se ela tem passaporte. Tiro-a da água.”

Caro Cristiano, a camisola que te enviámos com o famoso número 7 foi inspirada na história deste activista português e segue com um pedido: veste, literalmente, a camisola de Miguel.

Se depois pudesses publicar uma foto com a camisola vestida no teu Instagram, seria fantástico. Assim, quando os italianos aplaudirem alguém que idolatram, também estarão a aplaudir o Miguel e o que ele fez pelos refugiados.

Este é o momento para deixarmos claro que quem salva vidas não pode ser tratado como criminoso.

Veste a camisola, Ronaldo. Afinal, o melhor do mundo pode ajudar a fazer o mundo melhor.

#vesteronaldo.”

  • Miguel Duarte. “É a coisa mais simples do mundo: a pessoa está a afogar-se e salvamos. Não só é legal como é obrigatório”

    Sociedade

    Miguel Duarte nunca antes tinha feito trabalho humanitário. Em 2016, juntou-se a uma organização não governamental e foi para o Mediterrâneo: primeiro como tradutor, depois como a pessoa que faz o primeiro contacto com os migrantes. É arguido num processo em Itália e suspeito do crime de auxílio à imigração ilegal. Em entrevista ao Expresso, o voluntário de 26 anos diz que nunca foi abordado por traficantes e conta o que viu: “A verdade que custa saber é que há muita gente que morre e ninguém dá por isso e nem chegam a fazer parte das estatísticas”