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A sinusite, e a mortalidade, de Cristiano Ronaldo

No mesmo dia em que Lionel Messi admitiu que não será fácil manter o "duelo" com Cristiano Ronaldo "por muito mais tempo", o avançado português de 34 anos não ajudou a Juventus a qualificar-se para os quartos de final da Taça de Itália, numa goleada sobre a Udinese (4-0), devido a um "ataque de sinusite". Ou, por outras palavras, para Ronaldo ou Messi, o futuro é inexorável

Mariana Cabral

Nicolò Campo

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No dia em que Cristiano Ronaldo morrer, Cristiano Ronaldo não vai saber que vai morrer. A evidência, figurativa ou literal, mais do que chocante para o próprio, é cruel para todos os comuns mortais que o veem e que sentem a finitude, ainda que, tal como contou em crónica Gabriel García Márquez sobre o dia da morte de Santiago Nasar, não tenham modo de pressagiar o que a vida (ou a morte) lhes reserva.

Em 2011, então ainda com 26 anos, num documentário habilmente montado por uma marca, Ronaldo protagonizou um momento ímpar: na escuridão, ao contrário do que seria expectável, viu. O breu do campo em que estava assustaria qualquer nictófobo, mas Ronaldo limitou-se a aguardar que lhe cruzassem uma bola, atacou-a e marcou. Uma, duas, três vezes. Ao escuro, repita-se.

Nove anos depois, em Turim, o negrume foi mais denso: nem o Ronaldo de 34 anos (35 a pouco menos de um mês, a 5 de fevereiro) viu a bola nem nós o vimos a ele, por uma razão até demasiado ordinária para quem sabemos ser uma lenda do futebol: “um ataque de sinusite”.

Sem Ronaldo em campo para completar o seu 24º jogo em 2019/20 (e, quem sabe, o 17º golo), Dybala e Higuaín até produziram uma pequena maravilha associativa, aos 16 minutos, numa espécie de tango jogado que deu o 1-0, mas o interesse em ver o infinito campeão da Serie A a bater no 12º classificado, mesmo que numa mais periclitante eliminatória dos oitavos de final da Taça de Itália, rapidamente se desvaneceu.

Houve dois penáltis, aos 26’ e aos 61’, que Ronaldo não marcou, estando então lá para isso Dybala e Douglas Costa, e o argentino ainda haveria de bisar, marcando novamente aos 58’.

Daniele Badolato - Juventus FC

A vitória, sem história, do eterno vencedor italiano (até nas últimas cinco edições da Taça, a Juventus arrecadou quatro troféus) sobre a trivial Udinese só permitiu, afinal, vislumbrar uma espécie de penumbra em que o futebol em breve irá mergulhar, como vaticinou recentemente Lionel Messi, no mesmo dia em que recebeu a sua sexta Bola de Ouro, aos 32 anos (fará 33 a 24 de junho):

“Foi um ano grandioso. Mais do que ganhar ou perder, foi incrível viver as coisas por dentro. Há anos, quando recebi a minha primeira Bola de Ouro, vim com os meus irmãos, tinha 22 anos e era tudo impensável para mim. Hoje, 10 anos depois, toca-me receber a sexta, num momento totalmente diferente na minha vida pessoal, com a minha mulher e os nossos três filhos. Como dizia a minha mulher, nunca deixei de sonhar, de continuar a querer crescer, querer melhorar no dia-a-dia e desfrutar do futebol. Graças a Deus que faço o que amo. Espero que me restem ainda vários anos para o continuar a desfrutar. Estou consciente da idade que tenho e que estes momentos serão cada vez mais difíceis. Ainda tenho alguns anos, mas, neste momento, parece que o tempo passa cada vez mais rápido."

Na semana em que Paulo Gonçalves desapareceu a fazer aquilo de que mais gostava, está na altura de relembrar que o melhor é apreciarmos ao máximo o que temos, nomeadamente no que ao futebol diz respeito: há Dybala, sim, e Mbappé e Neymar e outros mais, mas não há nada como ver atentamente todos os (últimos) momentos das carreiras de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, contra o Parma ou contra o Granada, evitando os resumos que pouco mostram daquilo que é a genialidade de “um duelo que vai durar para sempre, porque aconteceu por muitos anos, e não será fácil manter o seu nível mais alto por muito mais tempo”, como confessou, esta quarta-feira, o argentino, ainda sem sinusites, mas em breve sujeito a outras maleitas aflitivas que irão, por fim, acabar com o que mais gostamos de ver.