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Num dia mau, o Super-Homem também morre. Hoje não é esse dia

Esta é a história de um homem, de alguns anos, numerosos jogos e inúmeros golos, numa vida pública que já atravessou duas décadas. A terceira, que começa a 1 de janeiro, marca o início do inevitável fim. A Tribuna Expresso republica um artigo da Revista E por ocasião do 35.º aniversário de Cristiano Ronaldo

Pedro Candeias

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Ninguém sabe ao certo quantos golos marcou Edson Arantes do Nascimento, a quem também chamaram Edison, por um erro na certidão, e que toda a gente ficou a conhecer por Pelé — o ‘rei’ Pelé. Digamos que há uma confusão contabilística entre os que ele diz ter marcado e os que a Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation (RSSSF) e a International Federation of Football History & Statistics (IFFHS) certificaram: 1282, 767 e 541. Entre o primeiro e o último cálculo há 741 golos, a diferença é quase conceptual, como um delírio é de uma conta de somar.

Mas não é difícil eliminar um dos três números de Pelé: abanada a peneira, percebe-se que o ‘rei’ foi particularmente generoso consigo mesmo ao incluir jogos disputados pelo Sindicato dos Atletas, pelas Forças Armadas e pelo 6º Grupo de Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro. Ficam os números da RSSSF e da IFFHS — e a crítica tende a escolher a primeira, cuja lista de melhores marcadores contempla, ainda, dois figurões acima de Pelé.

Um deles é o caprichoso Romário, que garante ter feito 1002 golos, 77 destes antes de se tornar profissional e muitos outros em jogos de exibição, a categoria imediatamente a seguir à ocasional rabia com os amigos ao fim da tarde; a RSSSF credita-lhe 772 golos. O outro é o semidesconhecido Josef Bican (1913-2001), que marcou extraordinários 805 golos entre as duas grandes guerras mundiais.

Ora, Bican foi resgatado da obscuridade quando Cristiano Ronaldo chegou aos 700 golos, a 15 de outubro, na derrota de Portugal com a Ucrânia. Foi um acontecimento. Um dos dois melhores jogadores da história moderna — sendo Lionel Messi o outro — acabara de elevar a fasquia, outra vez, num desporto cada vez mais científico, estratégico e tático. Só que, na realidade, o golo 700 também não era bem o golo 700: o “Record” escreveu que era o 707, juntando, por exemplo, os obtidos no torneio olímpico de 2004; e outros jornais justificaram que era o golo 699, lembrando o ‘não-golo’ pelo Real Madrid diante da Real Sociedad, em 2011, que a “Marca” conferiu a Ronaldo mas que o árbitro, no seu relatório, atribuiu a Pepe.

Ainda assim, estes desvios não têm o nível de criatividade dos anteriores: contas mais ou menos bem feitas, Ronaldo andará entre os 728, 729 e os 736 golos, e é bastante provável que na sua ultracompetitiva cabeça esteja o número mágico de Bican. No cenário mais otimista, faltam-lhe 69 golos para lá chegar; a média é de 38,75 por época nas últimas quatro épocas, e neste exercício excluem-se os jogos por Portugal. Não é impossível. Na verdade, nada jamais pareceu impossível para este homem.

O GOLO

Josef Bican foi um poderoso avançado que percorria 100 metros em 10,8 segundos e chutava à baliza com os dois pés e com a cabeça; era alto e orgulhoso e bem parecido, imaculadamente penteado, nascido pobre e órfão de pai bastante cedo, com um apetite assumido pelo estrelato, que outros invejavam ao ponto de o insultarem. Em 2001, foi a vez de Bican se sentir insultado pela IFFHS, quando esta o homenageou esquecendo-se de somar os golos que ele marcara durante a II Guerra Mundial — Josef preferiu ficar no quarto de hotel com a mulher a beber chá do que ir receber o prémio.

As coincidências são notáveis, se pensarmos em tudo o que Cristiano Ronaldo ultrapassou para se transformar neste ícone. Filho de um futebolista amador atormentado pelo Ultramar, que o levou ao alcoolismo e à morte, e de uma mulher abandonada pelo pai, criada por freiras intolerantes e por uma madrasta violenta, Ronaldo sobreviveu à própria vontade da mãe. Dolores Aveiro, sem meios para sustentar outro bebé, decidiu-se por uma mezinha: bebeu cerveja preta fervida e correu até não poder mais para provocar o aborto.

Cristiano nasceu forte a 5 de fevereiro de 1985 como uma das maiores improbabilidades estatísticas deste desporto. Mal nutrido, mas com um cocktail genético abençoado, o rapaz cresceu saudável, alto, coordenado, rápido e explosivo, suportado pelas fibras musculares brancas herdadas de um antepassado cabo-verdiano que se revelariam nos seus sprints contínuos.

As suas primeiras histórias prodigiosas já fazem parte do folclore; estas são apenas algumas, para contexto. Ronaldo corria com pesos nos tornozelos em ruas íngremes do Funchal e, depois, nos primeiros treinos pela seleção A, surpreendendo os consagrados Rui Costa e Figo. Ronaldo decidiu que iria levantar mais peso do que o fibroso André Cruz, em Alvalade, e começou a entrar à socapa no ginásio, a meio da noite, para ganhar músculo. Ronaldo olhou os irmãos Neville e Rio Ferdinand nos olhos e disse-lhes que podiam gozar à vontade com as roupas e o cabelo dele, porque um dia, um dia ele seria o melhor do mundo. Ronaldo quis ser um goleador e trabalhou diariamente com Mike Clegg para esculpir o corpo de Adónis e controlar novos instintos; uma vez completada a tarefa, com o português já em Madrid, o preparador abandonou o futebol por nunca mais ter encontrado alguém que o desafiasse assim. Ronaldo mudou a forma como se treinava no Manchester United e, depois dele, as ‘cuecas’ e as fintas e os truques passaram a ser aceites nos ‘meiinhos’.

Ronaldo não é um fenómeno ou um número, é uma determinada forma de estar na vida, uma forma de estar pouco portuguesa, na medida em que é über confiante, irreverente, por vezes arrogante e até insolente

Ronaldo, que um dia foi castigado pelo Sporting por roubar iogurtes e o lanche dos colegas, contratou cozinheiros, fisioterapeutas, rodeou-se de aparelhos de exercício e dos que lhe são próximos para criar o ambiente certo para explodir. Tudo meticulosamente estruturado no dia a dia, em que o treino pessoal começa antes e acaba depois do treino coletivo e ainda termina na piscina. Sem vícios. Sem gorduras. Sem álcool. E com o apoio incondicional da mãe, das irmãs e do irmão e do superagente Jorge Mendes, que jamais hesitam em defender publicamente o menino — literalmente — de ouro.

Então, nas duas primeiras décadas do século XXI, os golos foram-se sucedendo, seguindo-se os títulos coletivos, os prémios e os recordes individuais, os milhões de euros em salários, patrocínios e investimentos. Cristiano Ronaldo tem uma Supertaça de Portugal, três Premier League, uma Taça de Inglaterra, uma Supertaça de Inglaterra, duas Taças da Liga inglesas, quatro Mundiais de Clubes, cinco Ligas dos Campeões, duas Supertaças UEFA, duas La Liga, duas Supertaças de Espanha, uma Serie A, uma Supertaça de Itália, e um Europeu e uma Liga das Nações por Portugal, que capitaneia desde 6 de fevereiro de 2007. Tem uma fortuna avaliada em 439 milhões de euros, segundo a “Forbes”, e também tem um museu, um estranho busto no Funchal e milhões de seguidores nas redes sociais — onde gera dinheiro e dá dinheiro a ganhar a quem o patrocina. É praticamente invencível.

O TEMPO

Mas todos nós temos o nosso tempo contado. Até Ronaldo. No dia 5 de fevereiro de 2020, o avançado da Juventus fará 35 anos, e o corpo amassado recomenda um campeonato periférico, pouco intenso, embora com a projeção mediática suficiente para manter a ilusão de que tudo continua na mesma, enquanto os golos acontecem.

O ego importa, e muitos cruzaram o Atlântico, para os EUA, para prolongarem a carreira. Célebres trintões como David Beckham, Raúl, Wayne Rooney, David Villa, Schweinsteiger ou Ibrahimovic foram para lá à procura de um final digno. Nenhum deles, contudo, é como Ronaldo, um espécime cinzelado e aparentemente indestrutível saído da animação japonesa, que parece atrasar a idade manipulando a alimentação e o exercício físico, usando a tecnologia que lhe dá aquela pequena vantagem necessária para se manter à frente dos concorrentes — de todos menos de um, Messi, pequeno, rápido, esquerdino e de baixo perfil, o antagonista adequado para alimentar uma rivalidade quase eterna. Só que nem todo o gelo dos calotas polares, nem todas as posições do ioga e certamente nem todo o salmão do mundo o salvam da inevitabilidade do envelhecimento; num dia mau, o Super-Homem também morre. E como será estranho ver Cristiano jogar no lado mais fraco do planeta, é previsível vê-lo sair de cena enquanto estiver no topo — a não ser que alguma lesão muscular o faça desistir antes, o que seria anormal.

Durante a carreira, Ronaldo parou pouco, muito menos do que a generalidade dos craques, e apenas em 2014 se insinuou algo que poderia correr terrivelmente mal. Foi no Mundial do Brasil: o médico da FPF Henrique Jones falou em “índices de suspeição lesional superiores aos anos anteriores”. Ronaldo estava sobrecarregado, o corpo queixou-se, os alarmes soaram. E o que sucedeu? Ronaldo reinventou-se novamente: perdeu massa muscular, apostou em espaços curtos e passou os seus melhores anos desportivos com o Real Madrid. Seis anos depois, será difícil Ronaldo sacar outro coelho da cartola, e a hora é de poupar esforços, escutar o corpo e escolher as batalhas: o Euro 2020 é a que merece ser travada. A seguir, logo se vê. Talvez continue na Juventus, talvez queira ir até ao Mundial 2022, ano em que cessa o contrato com a Vecchia Signora. Ou então...

O VAZIO

Há um antes e haverá um depois de Cristiano Ronaldo no futebol português, porque ele fez o impensável: bateu Eusébio da Silva Ferreira. Mais golos. Mais títulos internacionais. E aquele Euro 2016, em que simbolicamente se consumou a transformação do miúdo birrento e atrevido para o líder da seleção nacional — e, naquele contexto específico, do país. Ao sacudir a ansiedade de João Moutinho nos penáltis com a Polónia, Portugal percebeu que o homem tinha realmente um ascendente sobre todos os outros; era desnecessário criticá-lo, o melhor era aceitá-lo, com as infantilidades e tropeções do passado. No final, com as traças de Paris à sua volta, a mariposa agarrou em Fernando Santos e celebrou o golo de Eder como se fosse o seu e voou com uma coxa ligada: era o momento mais alto da Seleção e ele estava lá. Mas... e quando não estiver?

Depois dele, o vazio. Dificilmente um millennial terá memórias de Portugal sem Ronaldo. São 17 anos, a idade da adolescência, a vestir os múltiplos equipamentos da Seleção, sem e com a braçadeira de capitão, penteados de berloques, cristas, riscos ziguezagueantes, gel, mais gel, poucos músculos, muitos músculos, menos músculos, à esquerda, à direita e ao meio, uma barba duvidosa no queixo, alguns amuos e triunfos. Cristiano disputou o Euro 2004, o Mundial 2006, o Euro 2008, o Mundial 2010, o Euro 2012, o Mundial 2014, o Euro 2016, a Taça das Confederações de 2017, o Mundial 2018 e a Liga das Nações de 2019. No caminho, entre qualificações, fases finais e amigáveis, marcou 99 golos em 164 jogos; Pauleta tem 47 em 88, Eusébio 41 em 64. CR7 está a 10 golos do melhor marcador por seleções da história — o iraniano Ali Daei — e, claro, é bem possível que destrua outro recorde antes de abandonar a competição. Ora, estes registos vão cristalizar, pois nenhum dos jogadores convocados por Fernando Santos nesta última campanha aparece, sequer, no top 10. Ronaldo cruzou três gerações e secou-as a todas, implacavelmente, uma por uma, como um predador insaciável.

Obviamente, isto alimenta três teorias interligadas e ainda por provar. Teoria A: os colegas estão obcecados em jogar para o obcecado Ronaldo. Teo­ria B: a Seleção jogará muito melhor quando Ronaldo a deixar. Teoria C: Bernardo Silva, João Félix, Gonçalo Paciência e Bruno Fernandes irão cumprir, então, o que lhes está destinado mas que a omnipresença de Ronaldo tem travado.

A fase de grupos da Liga das Nações foi um teste de stresse, porque o avançado pediu escusa e não participou nos quatro jogos. A dúvida primordial, porém, subsistiu: dois empates, duas vitórias, cinco golos marcados e três sofridos; Bernardo Silva foi o líder temporário, as exibições convenceram q.b. E, quando Ronaldo regressou para a fase final da Liga das Nações, Portugal ganhou à Suíça (3-1) e à Holanda (1-0). Gonçalo Guedes disparou contra os holandeses. Cristiano fez um hat-trick com os suíços e acabaria a campanha de qualificação para o Euro 2020 com 11 golos, menos um do que Harry Kane.

A realidade é esta: Ronaldo não é um fenómeno ou um número, é uma determinada forma de estar na vida, uma forma de estar pouco portuguesa, na medida em que é über confiante, irreverente, por vezes arrogante e até insolente, sendo as faltas (in)justificadas nas cerimónias em que não é premiado os exemplos mais gritantes.

Este ano, enquanto Messi levantava a sexta Bola de Ouro perante a elite, Ronaldo não estava lá para ser aplaudido como o terceiro melhor do mundo. Caiu mal, mas ele tinha a desculpa protocolar perfeita: ia receber o galardão de melhor jogador da Serie A. O incansável Jorge Mendes também lá foi e disse que “Ronaldo era o melhor da história” e que o “mundo sabia isso”. Uma das irmãs disse mais ou menos o mesmo, o próprio Cristiano confessa ciclicamente que esse é o objetivo: tornar-se uma lenda. É este mantra repetido à exaustão que alimenta um fogo que recusa extinguir-se. Ronaldo construiu-se e conta a sua própria história. E uma história não se esquece. Messi certamente não a esquecerá.