Tribuna Expresso

Perfil

Ronaldo

Há séculos que filósofos, cientistas e milionários buscam a imortalidade. Ronaldo é capaz de ser a resposta para todos eles (por Diogo Faro)

O nível de Cristiano é tão elevado que chega a ser abstracto, diz o humorista

Diogo Faro

MARIO CRUZ/EPA

Partilhar

Cento e um, aos trinta e seis que parecem vinte e cinco. Vou reformular para ficar mais claro. 101 golos, aos 36 anos que parecem 25. É o segundo jogador a marcar (mais de) 100 golos pela sua Selecção, e está a 8 de ser o primeiro. Eu não sei se isto não é um exagero e se não chega já de bater recordes como quem bebe copos de água.

Para o jogo de ontem, vinha de lesão, ninguém sabia bem se ele ia jogar ou não, e estava com 99 golos pela Selecção. E 99 já é o número que é. O Ronaldo marcou mais golos só pela Selecção do que eu marquei no total de todos os inter-turmas da minha vida, desde a primária ao 12.º, e isto contando com os primeiros anos em que as balizas eram mochilas - e se a bola passava um bocado por cima do “poste” era sempre golo na mesma.

Não quero comparar de maneira alguma as respectivas aptidões técnicas para o futebol, mas acho que o nível dele é tão elevado que chega a ser abstracto. E pior, ele é um ídolo para milhões de crianças, mas como está num patamar tão absurdo, pode até ser contraproducente. As crianças vão olhar e pensar: “pá, é demasiado, nem vale a pena tentar que nunca serei um décimo dele”. Compreensível. Eu pensaria assim se estivesse agora a preparar-me para o inter-turma do 7º ano. “Hmm, deixem estar, vou antes jogar ao bate-pé com as miúdas do 8ºC”.

Agora, se toda a qualidade futebolística do Ronaldo já está mais do que escamoteada, mesmo que não cesse nunca de nos surpreender, é a parte física que me deixa mais nervoso. É que são 36 anos no lombo e ainda anda nisto. Eu tenho amigos da mesma idade que sobem dois lanços de escada e ficam quase a ponto de chamar o INEM. Como é que se chega assim aos 36? E como é que ele vai ser aos 50? E aos 90? Obviamente vai perder forma, mas é fácil de especular que mesmo aos 90 ele ainda vai ser capaz de fazer parkour e escalada.

Poetas e filósofos há séculos que escrevem sobre a imortalidade, textos lindos mas sem resposta. Antigos cientistas procuravam a pedra filosofal e os contemporâneos a cura para a velhice, enquanto os bilionários investem boa parte das suas fortunas também nestas buscas para não envelhecerem, e até para nunca morrerem. Bem, comecem por investigar o Ronaldo. E se ele é mortal como todos nós, por favor que, quando morrer (se morrer, ainda não sabemos se é facto mortal), que dê mais um contributo ao mundo e doe o seu corpo à ciência. Se insistirem muito, também posso doar o meu, conservado numa calda de ceveja, marisco e bitoques.