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Ronaldo

Apenas Cristiano Ronaldo pode ditar o fim de Cristiano Ronaldo. Mais ninguém (a crónica de um hat trick perfeito)

O mau jogo do português frente ao FC Porto transformou-se num caso: os jornais criticaram Ronaldo, um antigo presidente da Juventus criticou Ronaldo, escreveu-se sobre o fim de uma era e até se projetou um regresso ao Real Madrid. Acontece que na vida e na carreira de CR7 manda ele - e a resposta chegou com um hat trick perfeito (de cabeça, de pé direito e de pé esquerdo) diante do Cagliari

Pedro Candeias

ALBERTO PIZZOLI

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No mínimo, devemos a Cristiano Ronaldo o benefício da dúvida: se ele garante que ainda não está acabado, provavelmente temos de acreditar no que ele nos diz. Já aconteceu antes, pelo menos duas vezes, depois do Mundial2014 e a seguir ao Real Madrid, e em ambas ocasiões CR7 levantou-se como Lázaro e desatou a marcar golos como se nada se tivesse passado – como se não lhe tivéssemos assinado imprudentemente a certidão de óbito desportivo, ignorando as suas sucessivas ressurreições divinas e a sua mentalidade indestrutível. Não é só por fora que Ronaldo parece um cyborg; por dentro, há um cérebro androide imune a ansiedades e estados de alma prolongados. Em Madrid chamavam-lhe Máquina; não seremos nós a duvidar deles, que o querem de volta ao Real, uma reviravolta num guião que começou a ser reescrito após a eliminação da Juventus frente ao FC Porto.

Como Ronaldo jogou mal, assumiu-se que o português era o culpado, a crítica foi imperdoável, recordou-se o ordenado, fizeram-se contas ao rácio milhão por golo, disse-se que a contratação fora um erro colossal. Faz parte do jogo e Cristiano sabe disso porque também o joga assim: nos triunfos e nas derrotas, a virtude e o pecado são dele, ora porque resolve, ora porque se dissolve na mediania.

Acontece que, normalmente, Cristiano Ronaldo tem por hábito corresponder com golos e a vítima que lhe apareceu pela frente foi o Cagliari, a quem fez um hat-trick perfeito: de cabeça, num canto; de penálti, numa falta sofrida por ele; e de pé esquerdo, após um contra-ataque. Em menos de nada, Ronaldo pôs fora de jogo o adversário. A crónica do encontro estava feita aos 33 minutos: Cristiano Ronaldo estava afinal vivo e continuaria a demonstrá-lo até ao fim, com mais um remate perigoso e com um passe de trivela para Bonucci e alguns sprints vigorosos.

Ficou 3-1, porque Simeone reduziu.

Naturalmente que, a seguir, tenderemos todos para o exagero e os adjetivos vão suceder-se em cascata ; convém parar para pensar que isto é futebol, um desporto de onze contra onze e de múltiplas decisões individuais que influenciam um coletivo que joga num campo gigantesco. Toda a gente tem direito a um dia mau e Cristiano teve o seu. Mas isto não é ténis: a história de Ronaldo contra Messi nunca poderá ser escrita como a de Federer contra Nadal.