Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Ronaldo

O regresso ao futuro de Ronaldo, outra vez

O português é o mesmo homem, mas longe está de ser o mesmo jogador que, há 12 anos, saiu do Manchester United. Na segunda estreia pelo clube, Cristiano foi logo titular e fez dois golos com três toques na bola pelo meio da vitória (4-1) contra o Newcastle em que assentou arraiais na área, já não a ir buscar, correr, driblar e criar o que o próprio embrulha depois em golo. A primeira amostra do Ronaldo retornado ao clube inglês indicou por onde ainda pode ser incrivelmente aproveitado: a finalizar o que outros criem para ele

Diogo Pombo

Ash Donelon/Getty

Partilhar

Simplesmente fá-lo, outra vez, outra vez e outra vez, o mural de ocasião é gigante e estendeu-se parede abaixo de um edifício cimentado ao lado de Old Trafford. A mensagem junta os trapos do slogan da empresa que patrocina o retorno com os do seu atleta-bandeira, a interesseirice comercial veste o casaco da esperteza, ali o aproveitamento da ocasião é tão aceitável quanto expectável e o mural só não cobre o estádio por esse ser pertença não declarada da marca que tem contrato com o Manchester United ser a que rivaliza com a que há mais de uma década se eleva com Cristiano Ronaldo.

O português era o mamute da atenção na sala do futebol neste sábado, o dia da estreia anunciada do retornado ao lugar que o propagou rumo à grandeza. O rapaz fugido à pobreza na Madeira, e das histórias incomuns de ética de trabalho, da busca constante pelo auto-melhoramento, estava de volta ao sítio onde chegou borbulhado, com os dentes tortos e inglês macarrónico, aos 18 anos.

Voltou imaculado nas feições, com o corpo esculpido com cuidado exímio, 551 golos volvidos e distribuídos entre Real Madrid e Juventus para, com 36 anos, do cume do seu estatuto, ter escolhido onde, como e quando regressar ao United para completar esta espécie de conto das fadas dos ricos, milionário nos seus contornos, em que um futebolista mais perto de ser quarentão do que sentir o cheiro dos seus vintes no ar.

Quem hoje o treina e antigamente jogou com ele dá-lhe o prazer de ter uma segunda estreia a titular e há sorrisos por todo o lado. De Ronaldo, aqui e ali enquanto aquece os músculos; de Alex Ferguson, o saudoso treinador sinónimo de United que está na bancada a gozar a sua reforma e a vê-lo; de todos ou quase todos os adeptos que deixam Old Trafford a tostes para verem este regresso de um futebolista que, mais do que crescer até mais não, mudou.

O Cristiano das fintas-mil e dos esguios ziguezagueares com a bola já lá vai, a idade é um posto e o que o português aprendeu a ocupar coaduna-se ao inexorável avançado daquilo a que alma alguma é capaz de fugir. A idade roubou-lhe coisas e ele, com o tempo, focou-se em aprimorar outras que há muito saberia serem as que mais resistiriam ao passar do tempo.

Mas o primeiro vislumbre de Ronaldo contra o Newcastle, aos 11', é com uma bola que recebe à entrada da área e usa para enraizar dois adversários na relva com uma simulação, arrancando depois com uma bicicleta até a rematar, com um ângulo pouco simpático, à rede lateral da baliza. Vê-se um quê de espetáculo, roça o inofensivo, mas soa a apoteoso — o público em Old Trafford rejubila, espalmando o entusiasmo nas mãos.

Ash Donelon/Getty

O Cristiano que aplaudem é o mesmo homem e outro jogador. O português consegue desafiar os castigos do tempo sobre o corpo humano, deturpa o que é razoável esperar do rendimento de futebolistas com a sua idade, mas, para não lhe chamar um avançado, fiquemo-nos pela evidência de ser cada vez mais (e não é de agora) um finalizador do que outros criem. Antes, o português ia buscar, corria, driblava e criava o que o próprio embrulhava depois em golo. Hoje, tem de ser a ponta da espada em que outros agarrem no punho.

No que ele ainda é um excelso e sublime futebolista pode ser tema de discussão, embora nunca se deva duvidar de que é na área que tem de aproveitar os anos que lhe restam. Antes de o pé esquerdo de Mason Greenwood bater na bola, aos 45'+2, já Ronaldo se enfiava no DeLorean e regressava ao futuro. Woodman, o guarda-redes do Newcastle, não agarrou a desejo do português e Ronaldo marcou a um metro da baliza, num gesto fácil como tudo.

Em 2003, o adolescente com madeixas mal amanhadas no cabelo marcara o primeiro golo quando curvou um livre lateral, mestiço entre o cruzamento e o remate, no qual ninguém tocara na bola. Neste 2021, bastou ao adulto atacar o espaço onde ninguém mais apareceu para se voltar a estrear com um golo ao primeiro toque. Ronaldo simplesmente a fazê-lo, outra vez e outra vez.

Quando um fulminante contra-ataque é acelerado pelo Newcastle para Miguel Almirón despedaçar a transição defensiva em modo cada um por si do United e assistir Javier Manquillo, o empate deixa outra fragrância no ar. De repente, o jogo punha-se a jeito de glorificar ainda mais um certo português com queda para vincar as unhas a cada oportunidade de escritura de outra estória dentro da sua história.

Era óbvio que o United ia cair em cima do adversário e com a urgência de uma equipa habituada a confiar, com bola, na inspiração momentânea dos talentosos que tem, haveria de surgir o tipo vidrado em decidir jogos. Quando a equipa congeminou uma jogada entrecotada com passes, desde trás, e o Newcastle achou por bem abrir um canal na meia esquerda para Ronaldo arrancar numa desmarcação vertical e ser servido.

Ash Donelon/Getty

Foram dois toques para receber e rematar outro golo, aos 62', o segundo feito de três pequenas carícias à bola em hora e meia de aparição no cume dos processos do United. O português que se voltou a estrear de mangas compridas em tarde soalheira continuou a colar interações a um, dois toques, quase sempre nas redondezas da área, a participar sem ser protagonista, mais a esperar pelos outros do que a puxar por esses outros com atos isolados longe da área.

As horas de festa anunciada cumpriram-se, ainda mais, com o valente golo de Bruno Fernandes ao pontapé, de fora da área (80'), e com o chuto curvado de Lindgard já dentro desse retângulo onde estava Cristiano a ver, no final de uma jogada feita com a boniteza de tabelas e simulações (90'+2). Quando o Ronaldo se estreou da primeira vez, também o United marcara quatro golos.

Outra vez, e outra vez, e outra vez, os ingleses não ganharam por causa de Cristiano Ronaldo, mas fizeram-no com ele e ele fê-lo de novo, deu razão aquele slogan adaptado na fachada do prédio vizinho de Old Trafford, um lema de empresa que sobreviverá até bem depois de o português achar que basta de desafiar o tempo no futebol, mas que, enquanto quiser perdurar, encaixará no futebolista que insiste mais do que persiste.

O português é uma auto antítese do que já foi e continua a distinguir-se por sempre arranjar forma de ir para uma versão dele próprio que, sendo melhor ou não, continua, simplesmente, a ser excecionalmente relevante para a equipa em que jogar. Queira essa equipa adaptar-se ao que Ronaldo tem e saiba como fazê-lo com os outros jogadores que tem.