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O risco, como tudo, é relativo

Portugal teve mais bola, rematou e atacou mais vezes e teve mais iniciativa de jogo do que a Croácia, como quase todas as equipas que os vice-campeões do mundo defrontaram, este verão. Mas o jogo, que foi o 100º de Pepe na seleção, que ninguém resolveu na primeira parte (1-1) abrandou fatalmente na segunda, amolecendo ao ponto de parecer que duas seleções estava à espera de um prolongamento impossível

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Rebobinemos a cassete, só um pouco.

É 30 de junho e os portugueses que têm um fraquinho pela seleção, ou toda a gente nascida cá no burgo em quem o futebol tem um certo efeito, sente um quê de tristeza. Os uruguaios marcaram dois golos, um a mais que o de Pepe, seguem no Mundial, de lá arrancam Portugal e extraem de quem treina, ordena, dita a forma de jogar e escolhe os que jogam, a conclusão de que produziram e lutaram muito, mas perderam.

Uns dois meses adiante, com a fita reposta no presente, Fernando Santos faz uma convocatória e, a 6 de setembro, acha que “é a oportunidade certa para que” os jogadores que escolheu “mostrem as suas capacidades e qualidades”, arriscando. Porque o risco, diz-nos, é dele, “se não, não serve para nada”, forçando uma ligeira ânsia por ver como a seleção se iria atrever contra os vice-campeões deste mundo.

Em três palavras: de forma demorada.

Porque demorou até, no campo, contrariar o risco que, no papel, os nomes escondiam. A coexistência dois patológicos trincos, homens habituados a filtrarem tudo à frente da defesa, fazia com quem devia renunciar ao hábito e ser mais um oito (William Carvalho) se colasse ao seis designado (Rúben Neves). Estando em linha, isso ajudava à saída de bola de trás, a criar triângulos, mas encravava a circulação de bola à frente, na metade do campo croata, onde se mantinham em linha.

Alinhamento agravado, umas quantas vezes, pela tendência de Pizzi em querer tocar a bola e recuar. A seleção ficou, em várias jogadas, com os três médios a recusar as saudades de se afastarem uns dos outros, procurarem espaços entre as linhas croatas e colocarem a equipa a jeito para um passe vertical ser uma forma de tirar adversários de jogadas. Isto não era risco, sim a falta dele.

A seleção desencravava jogo atrás para o encravar, 50 metros à frente. Em campo croata, a bola pedia muito dos extremos e das suas invenções para lançarem João Cancelo ou Mário Rui, nas suas costas, encontrarem-se um ao outro ou cruzarem a bola que nunca chegaria a André Silva, solitário na área.

As diagonais de Bruma sem a bola deram-lhe um remate, na pequena área, logo no arranque. As de Bernardo, dançante com ela colada, fizeram o seu pé esquerdo dispará-la à baliza um par de vezes. Com os minutos, Portugal ia melhorando, usando mais rápido as bolas recuperadas, sacudindo a inércia de William em avançar para tocar a bola de costas - arriscando mais.

Até esse risco ser demasiado num passe de Mário Rui, em próprio meio campo, para a pior opção de passe que tinha, um rodeado Rúben Neves que se protegeu do primeiro croata, não evadiu o segundo, foi roubado e a bola trocou de pés três vezes para deixar Perisic fazer dela o 1-0.

Gualter Fatia

A melhoria constante da seleção travou, por uns momentos que duraram 15 minutos, retomando-a na cabeçada de Pepe, o naturalizado mais internacional da história, aproveitar um dos cantos que a seleção bateu, sempre, curto e para trás. No caso, foi Pizzi a cruzar a bola e os croatas a só olharem para ela e não verem o mais recente centenário por Portugal.

A seleção já acelerava, tocava os passes mais rápido, tinha gente a mexer-se e a atacar os espaços curtos, jogava com dinâmica e um livre de Rúben Neves, mais um remate de André Silva, sobrepunham os portugueses aos vice-campeões mundiais, que sobre dependiam do cérebro de Modric e das corridas de Perisic, previsíveis na forma como guardavam energias para as alturas em que pudessem contra-atacar em velocidade.

E surgiu um problema chamado intervalo.

Todos os presentes descansaram e não mais pareceram quererem dar-se ao cansaço. A Croácia que precisou de três prolongamentos na viagem até à final do Mundial e Portugal, que saiu vivo de dois para ser campeão da Europa, abrandaram a sua relação com a bola como se estivessem à espera de mais um.

O jogo abrandou e lento ficou. As seleções foram trocando posses de bola pachorrentas, numa colisão em que Portugal, muitas vezes, predominava pela calma geradora de rotações de corpo de William, dominador a um ritmo que o privilegia, à medida que os selecionadores iam trocando jogadores em série, fazendo disto não um encontro particular, mas um amigável.

Apenas nos derradeiros 10 minutos alguém acordou, e foram os portugueses, que resolveram acelerar as jogadas pelas alas. Um cruzamento rasteiro de Mário Rui foi desviado para o poste, por um croata, e André Silva desaproveitou um de João Cancelo, elevando-o para a bancada. Tudo enquanto Sérgio Oliveira e Gedson Fernandes se estreavam e poucas outras conclusões havia por tirar.

Além de três, talvez a principais - que não seria meia dúzia de treinos a fazer a seleção nacional jogar de forma distinta à vista no Campeonato do Mundo; que emparelhar Rúben Neves e William é bom até à linha do meio campo e ainda contraproducente para lá dessa fronteira; e, sobretudo, que a noção de arriscar de Fernando Santos, por enquanto, parece estar apenas na escolha dos nomes.