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Aquele gostinho especial pelo sofrimento

Durante largos minutos neste segundo jogo da Seleção Nacional na Liga das Nações, Portugal ofereceu à Polónia algum do melhor futebol da era Fernando Santos, mas a 20 minutos do fim abanou e sofreu até ao apito final. Mas nada torna a vitória por 3-2 menos justa, vitória essa que nos coloca a um pequeno passo de confirmar o 1.º lugar do grupo. O que para quem gosta de sofrer até são contas muito agradáveis

Lídia Paralta Gomes

PressFocus/MB Media

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É tão português quanto o galo de Barcelos, o fado ou o bacalhau com todos. Falo daquele nosso gostinho especial pelo sofrimento, tradição com séculos e séculos de portugalidade em cima. Não sei bem se o buscamos ou se o atraímos, só sei que às vezes os partos não têm de ser tão complicados.

Veja-se este Polónia-Portugal, o segundo jogo da Seleção Nacional na Liga das Nações.

Portugal começou a perder, agigantou-se, reagindo com algum do melhor futebol da era Fernando Santos. Empatou, marcou outro e depois mais outro, para nos últimos 20 minutos recuar e acabar por sofrer um 3-2 que abriu de novo um jogo que, minutos antes, parecia absolutamente dominado.

Só pode ser uma qualquer atração pelo sofrimento, pelas coisas difíceis, pelos altos e baixos dos eletrocardiogramas. Aquele golo aos 77’ do homem com nome impronunciável, mas que com um simples copiar e colar podemos aqui escrever, Blaszczykowski assim se escreve, acabou por de alguma forma tornar mais suja uma vitória que devia ter sido mais límpida que água saída da nascente, tal foi o domínio de Portugal na 1.ª parte e início da 2.ª.

Depois de sofrer um golo contra a corrente do jogo aos 19’, com Piatek a aproveitar a hesitação de Rui Patrício num canto, Portugal reagiu como uma equipa adulta: sem nunca perder a calma, sem nunca abdicar do talento dos seus jogadores para se atirar para a frente sem critério, o coletivo envolveu-se nas arrancadas e mudanças de velocidade de João Cancelo, no pêndulo de William Carvalho, na capacidade de Bernardo Silva em encontrar espaços onde eles parecem não existir com aquele drible curto que é tão lindo.

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Foi assim, numa jogada de gritante simplicidade para quem tem talento e sabe, que Portugal chegou ao empate, à passagem da meia-hora. Em poucos toques e sempre em progressão, a bola foi de Bernardo a Cancelo, de Cancelo a Pizzi, com Pizzi a cruzar para a área onde André Silva já estava sozinho.

Com o empate já feito, a Seleção Nacional continuou a ser uma equipa de boas trocas, de soluções simples e com facilidade de chegar à baliza. Ainda assim, acabaria por ser numa jogada de futebol direto que o segundo golo surgiu, num passe longo de Ruben Neves ainda antes do meio-campo, um daqueles passes tão perfeitos que quase não evitamos uma lágrima no olho e que foi parar redondinho a Rafa. O extremo do Benfica retribuiu a beleza do passe de Neves com uma receção a condizer, com um toque que deixou desde logo Fabianski fora da jogada e Glik deu uma ajuda, ao fazer um corte que levou a bola à baliza.

Tudo muito certo até aqui. Portugal jogava bem, muito bem até e a reviravolta era mais que justa, até porque a Polónia, que nos primeiros minutos ainda mostrou vontade de jogar de forma mais apoiada, rapidamente se voltou para o jogo direto ou, neste caso, o vulgo chutão para a frente.

No arranque para a 2.ª parte, Portugal não mudou de cara nem de personalidade e aos 52’ Bernardo, após mais uma troca precisa, pegou na bola, fletiu para o centro e rematou com o seu mágico pé esquerdo. Fabianski, que não viu a bola partir, acabou por ser mal-batido.

Soccrates Images/Getty

O 3-1 parecia mais que seguro, não só pelo que Portugal jogava, mas também por aquilo que a Polónia não parecia conseguir jogar. Mas tudo pode mudar num jogo de futebol e tudo mudou quando do banco saltaram, ao mesmo tempo, Blaszczykowski e Grosicki. E perante o arrefecimento da intensidade portuguesa, a Polónia começou por ameaçar, aos 75’, com um cabeamento de Bednarek, para logo confirmar aos 77’ que tudo estava em aberto.

Aproveitando um erro do assistente, que não viu a bola conduzida por Grosicki sair pela linha lateral, e um erro de Pepe, que não conseguiu limpar a jogada, o homem de nome impronunciável encheu o pé e fez o 3-2, numa altura em que Portugal tremia muito.

Mas tal como na 1.ª parte, em que a Seleção Nacional reagiu com muita maturidade e calma ao golo sofrido, o aproximar do perigo, do caos após o que parecia ser um jogo controlado, acabou por ser o alerta para que as tropas se reagrupassem. Houve ainda um par de minutos de semi-pânico, mas já com Renato Sanches e Danilo em campo, o meio-campo voltou a ser de Portugal e a bola já raramente saiu dos pés dos nossos jogadores.

E a verdade é que nos últimos minutos Renato até podia ter aumentado a vantagem de Portugal por duas vezes, terminando assim mais cedo um nervosismo que, apesar de tudo, só acabou mesmo no apito final.

Como é de nosso apanágio, aliás.

Mais ou menos sofrido, o certo é que Portugal está com 6 pontos na Liga das Nações e até pode garantir o 1.º lugar do grupo caso Itália e Polónia empatem no próximo fim de semana. O que, para quem tem um gostinho especial pelo sofrimento, não são más contas.