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É uma espécie de magia

Portugal só precisa de um empate, esta noite, em Milão, perante a Itália (19h45, RTP1), para conseguir a qualificação para a final four da Liga das Nações. O analista Luís Cristovão explica como é que a seleção do ilusionista Fernando Santos chegou aqui - e o que se segue

LUÍS CRISTÓVÃO

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Podemos fazer tudo igual e esperar um resultado diferente? É o futebol um jogo onde os jogadores têm muito mais influência do que os treinadores? E um jogador, é sempre o mesmo, independentemente do momento em que é utilizado? Fernando Santos responderia a todas estas perguntas com um seco “sim”. Ilusionista encartado de muitas batalhas, encontrou na Liga das Nações uma passadeira vermelha para afirmar as suas capacidades mágicas, enquanto conquista muitos daqueles que o criticaram por se focar apenas no resultado. E o que o marcador nos diz é que está a ganhar.

O TREINADOR INVISÍVEL

Numa época em que a influência do treinador no trabalho apresentado por uma equipa dentro de campo é visto como um selo de qualidade imprescindível, a vida ficou mais complicada para os treinadores invisíveis. Fernando Santos, ainda assim, alcançou no comando da seleção nacional uma caracterização mais complexa. No fundo, entendia-se que o Engenheiro tornava pior uma equipa que poderia jogar muito melhor. Houve quem se sentisse tentado a não festejar o título europeu por isso mesmo. A estruturação da equipa a partir de um bloco demasiado baixo, apostando nas decisões individuais de Cristiano Ronaldo, Quaresma, Nani ou Renato Sanches soava a pouco para quem precisava de um modelo de treinador para ser feliz.

Conquistada a Europa e concretizada a passagem pelo Mundial em serviços quase mínimos, Fernando Santos mostrou que, do bem e do mal que a seleção joga, se poderá dizer ainda menos sobre o seu modelo de jogo do que a realidade nos quereria fazer pensar. Chega a Liga das Nações e o seu quadro competitivo que conjuga o fim dos amigáveis com a ideia de uma competição onde não é tão importante ganhar ou perder, e como que por magia, Portugal começou a jogar bem. Chamem-nos loucos, mas a perspetiva de ver a nossa seleção jogar já não é encarada como uma antecâmara para o sofrimento, sobretudo se uma hora antes do encontro percebemos que João Cancelo, Rúben Neves, William Carvalho e Bernardo Silva se voltam a encontrar no onze.

Porque é isso. Fernando Santos continua a somar resultados como um dos melhores treinadores da seleção - tem um título de campeão europeu e pode, em caso de pontuar frente à Itália, voltar a alcançar o apuramento para uma fase final de uma competição oficial antes da derradeira jornada, o que o colocará como o primeiro selecionador a fazê-lo por duas vezes -, ao mesmo tempo que vai afirmando a invisibilidade do seu modelo. Já o disse noutro lado - ganhar não é uma estratégia, é uma consequência. E Fernando Santos, mesmo quando parece não fazer nada de diferente, continua a saber exatamente o que está a fazer.

SE QUERES DANÇAR SEM CRISTIANO RONALDO, CHAMA O BERNARDO

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Está mais do que na hora de termos uma conversa sobre influenciadores. Olhemos para o contexto da seleção nacional como um exemplo do bem e do mal que pode sair desses potenciadores de tendências. Internacional A desde 2003, Cristiano Ronaldo soma pelo menos uma década como elemento central daquilo que a seleção rende ou não. Assim começou a ser ainda com Luiz Felipe Scolari, passando por Carlos Queiroz e Paulo Bento, chegando a Fernando Santos. Foi - e, diga-se, bem. Neste período, Portugal enfrentou uma falha geracional que deixou, boa parte do tempo, sobre os ombros de Cristiano Ronaldo a capacidade de se manter como uma equipa competitiva.

A ausência do atual jogador da Juventus das escolhas de Fernando Santos, num acordo tripartido entre treinador, jogador e presidente da Federação, abriu espaço no salão de bailes do onze nacional. E, para ocupar o lugar de estrela da companhia, Bernardo Silva levantou o braço e assumiu o comando. Tinha já deixado nota dessa capacidade no encontro com o Uruguai, sobretudo numa segunda parte atípica em que, ao ver-se em desvantagem, Portugal se foi transformando numa equipa de posse contra o muro sul-americano montado por Óscar Tabárez.

Mas se compararmos os dados do rendimento de Bernardo entre Mundial e Liga das Nações, o seu aparecimento em terrenos mais centrais acaba por potenciar o número de vezes que é chamado a tocar na bola, aumentando o número de passes, a capacidade de fazer assistências e de rematar. Ou seja, Bernardo influencia com decisões, em detrimento da influência com finalizações que caracterizava a equipa com Cristiano Ronaldo (e é neste jogo de realidades paralelas que o regresso de Cristiano será sempre bem-vindo à seleção). Assim, passa pela capacidade de decisão de Bernardo Silva - um Bernardo Silva à imagem de Pep Guardiola, também ele cada vez mais explorado em espaços centrais e, inclusive, mais recuados, no esquema de jogo do Manchester City - a melhoria global da seleção, dando imagem de uma equipa muito mais confortável na pele de quem assume o jogo.

CANCELO OU WILLIAM, QUAL O VERDADEIRO SEGREDO DE UM PIZZI PERFEITO?

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O aparecimento de Bernardo Silva no corredor central não implicou para Fernando Santos um afastamento da ideia de um meio-campo seguro. Mas, também aí, o Engenheiro continuou a pescar naquilo que os seus jogadores fazem nos respetivos clubes. Para enquadrar Bernardo Silva em terrenos interiores, chamou William Carvalho para perspetivar a sua utilização no Bétis (onde atua sempre com três elementos nas suas costas) a partir de zonas de terreno elevadas, com Rúben Neves a funcionar mais como pivô na aproximação aos centrais (aumentando posicionamento e recuperação com a mesma visão de passe à distância). Além disso, tem dado o corredor direito a João Cancelo, acabando o jogador da Juventus por encontrar enorme conforto nas suas ações ofensivas.

Neste crescimento da qualidade de jogo marca ainda presença Pizzi, que entre agosto e outubro viveu um momento de enorme expressividade das suas qualidades, na maneira como comandou o Benfica mas também na forma como se inseriu nesta ideia de jogo da seleção. A sua capacidade de entendimento para o hibridismo ao qual foi convidado, funcionando como válvula entre as subidas de Cancelo, as movimentações de Bernardo e a capacidade de posse de William, tornaram tudo e todos, à sua volta, melhor. Não é por estarmos, esta semana, de viagem para terras de Itália que nos convidamos a regressar à velha máxima de que Marco Bellini é que sabe. Para mais perante a baixa de rendimento do jogador ao serviço do Benfica nas últimas três semanas.

NÃO SEJAS MANCINI PARA MIM

Portugal só precisa de um empate para garantir o apuramento para o playoff, a Itália precisa de ganhar para manter esperanças nesse apuramento. Precisar só de um empate funciona, muitas vezes, como uma condenação à qualidade de jogo dos portugueses, ainda que o facto de ter duas partidas para o alcançar (a próxima, na terça-feira, em Guimarães, frente à Polónia) poder acabar por ser um incentivo à manutenção de uma atitude que se apresenta com vontade de assumir o jogo. No entanto, do outro lado há uma equipa que vive uma intensa procura de identidade que, a qualquer momento, poderá eclodir em resultados positivos.

Fernando Santos já chamou a atenção para o facto de a Itália não ter chamado seis dos jogadores que foram titulares no jogo do Estádio da Luz (quando Portugal venceu por 1-0, golo de André Silva). Defrontar a Itália será menos do que encarar o desconhecido, mas a qualidade dos jogadores e do treinador acabam por marcar o mesmo território de influência que sublinhamos neste artigo. Se Santos é ilusionista com currículo na seleção, Mancini também quer provar ter essa espécie de magia que, podendo não fazer treinadores que marcam estilo e época, acaba por marcar resultados. E aquilo que o marcador nos disser no final é o que fica para a conjugação do verbo ganhar, segundo Fernando Santos.