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Ser conquistador: o roteiro da seleção portuguesa em 2019

A seleção portuguesa já sabe quem irá defrontar nas meias-finais da Liga das Nações e no apuramento para o Euro 2020. O analista Luís Cristóvão explica-nos o que devemos esperar de Portugal em 2019

LUÍS CRISTÓVÃO, ANALISTA E COMENTADOR DE FUTEBOL

É nossa, engenheiro? A seleção irá tentar conquistar a novíssima taça da Liga das Nações no verão de 2019

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Prepare-se para erguer as orgulhosas bandeiras e cantar novas vitórias. O calendário da Seleção nacional de futebol para 2019 está definido e não faltarão oportunidades para viver aventuras guerreiras, no caminho do apuramento para o Europeu 2020, ao mesmo tempo que junho marcará oportunidade para viver uma curta epopeia que poderá voltar a colocar Portugal nos píncaros da Europa, à custa do mundo novo da Liga das Nações. Fernando Santos está encartado para adaptar a letra do Conquistador dos Da Vinci para o futuro.

Candidato, mas não favorito, na formulação do selecionador nacional, Portugal não pode, é certo, abdicar de um estatuto que acabou por se integrar na definição do que tem vindo a ser feito ao longo dos últimos quatro anos.

Para mais quando, organizando a Final Four da Liga das Nações e partindo frente a equipas com um estatuto menor, ainda que em crescimento, como Suíça, Ucrânia e Sérvia, as probabilidades de vitória são claramente favoráveis aos lusos. Junte-se a promessa de regresso de Cristiano Ronaldo e está engatada a velocidade para um 2019 de sucessos.

SÓ EU SEI PORQUE DECIDO EM CASA

O primeiro semestre de 2019 trará quatro encontros da seleção nacional, todos eles em Portugal. Ao mesmo tempo, boa parte das grandes decisões do ano parecem, também, concentrar-se neste quarteto de encontros que definirá os humores dos adeptos portugueses. Primeira paragem, março marçagão, com um calendário atípico para as decisões de Europeus ou Mundiais. Portugal, o cabeça-de-série do grupo B, defronta, nas duas primeiras jornadas, os seus principais concorrentes. A história de Portugal frente a ucranianos e sérvios é curta, mas os dados recentes colocam todas as três seleções do lado dos vencedores. Para começar, vencedores, respetivamente, de grupos das divisões A, B e C da Liga das Nações, todas partem para este apuramento com presença no play off garantida.

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Liderada pelo histórico avançado Andriy Shevchenko, a Ucrânia volta a experimentar sensações positivas no futebol. É óbvio que a realidade política do país tem sido parte do problema do decréscimo dos resultados apresentados pelos ucranianos que, ainda assim, vão beneficiando da aposta do Shakhtar Donetsk em técnicos portugueses, como Paulo Fonseca ou Miguel Cardoso, que foi responsável pela formação do clube. Nas convocatórias dos últimos meses, foram catorze os jogadores do Shakhtar, ou formados no clube, a serem chamados para equipa ucraniana. As estrelas que lideram este renascimento têm, no entanto, origens mais diversificadas. O ucraniano-brasileiro Marlos é peça chave do meio-campo, que conta com Andriy Yarmolenko (entretanto lesionado) e Yehven Konoplyanka, dois dos embaixadores desta seleção em ligas de topo, para chegar ao golo.

O caso sérvio é uma história de convulsão permanente que não tem evitado, em vários momentos, sobrepor-se ao talento que aquele país continua a entregar ao futebol. A recente presença da Sérvia no mesmo grupo de Portugal, na fase de apuramento para o Euro 2016, foi também um momento negro para uma seleção que mistura combatividade com uma emotividade à flor da pele , o que acabou por a empurrar para fora dessa grande competição. Refeita para atacar o Mundial 2018, onde se ficou pela fase de grupos, a quantidade de grandes jogadores que apresenta impressiona e promete, sempre, concorrência elevada. Na Liga das Nações começou por baixo, na Divisão C, garantindo a promoção através da afirmação de vários jovens jogadores que são já o presente da equipa orientada por Mladen Krstajic. Exemplos? Aleksandar Mitrovic, finalizador nato, e o benfiquista Andrija Zivkovic, rei das assistências. A qualidade continua a ter tradução nos Balcãs.

VALE MAIS UM JOGO AQUI: PARA ACABAR COM A MALAPATA DO DRAGÃO

Portugal defrontou a Suíça pela última vez a 10 de outubro de 2017, na segunda volta do apuramento para o Mundial 2018, e venceu por 2-0, vingando a derrota (0-2) da primeira volta

Portugal defrontou a Suíça pela última vez a 10 de outubro de 2017, na segunda volta do apuramento para o Mundial 2018, e venceu por 2-0, vingando a derrota (0-2) da primeira volta

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Estádio do Dragão, 5 de junho. Quase quinze anos depois, o mesmo palco para a abertura de uma grande competição em Portugal. As memórias não são as melhores, visto que, à época, a seleção grega deu os primeiros sinais de surpresa ao bater Portugal por 2-1. Mas muita água correu debaixo das pontes desde esse dia. Portugal receberá a Suíça, no primeiro encontro da Final Four da Liga das Nações, ciente das dificuldades de entrar em campo como favorito - e aqui não haverá muito espaço para discussões semânticas com o engenheiro Fernando Santos.

Com todas as equipas que atingem esta fase a chegarem 100% vitoriosas perante o seu público, o seguimento lógico que se espera da seleção de todos nós é uma vitória que lhe permita repetir presença no Dragão, para a final de 9 de junho, acabando de vez com a malapata que ainda paira na memória desde o Euro 2004.

A equipa suíça conseguiu, na última década, duas vitórias frente a Portugal. No Euro 2008, disputado em território helvético, Portugal já tinha o apuramento garantido para a fase seguinte quando defrontou a Suíça, perdendo por 2-0. O mesmo resultado, aliás, repetido na primeira jornada da fase de apuramento para o Mundial 2018, naquela que acabaria por ser a única derrota portuguesa da caminhada até à prova. Xherdan Shaqiri e Haris Seferovic compõem a dupla de jogadores que catapultou a Suíça para esta fase da prova, apresentando-se em Portugal com claras intenções de surpreender os lusos no momento da transição ofensiva. Por falar em vermo-nos gregos…

CUIDADO COM AS IMITAÇÕES

O selecionador da Suíça, Vladimir Petkovic, em amena cavaqueira com Fernandos Santos

O selecionador da Suíça, Vladimir Petkovic, em amena cavaqueira com Fernandos Santos

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O segundo semestre trará encontros com as outras duas seleções que formam o Grupo B da Fase de apuramento para o Euro 2020. Lituânia e Luxemburgo serão seleções de nível aproximado, ainda que a presença em divisões diferentes da Liga das Nações lhes tenha permitido estados de alma bem distantes. A Lituânia passou pela Divisão C a acumular derrotas e com a grande maioria dos seus jogadores a atuarem em equipas do próprio país, que dá muito mais importância ao basquetebol do que ao futebol, o nível é relativamente baixo. Cara conhecida para encontrar, no entanto, no banco, onde o cargo de selecionador é ocupado por Edgaras Jankauskas, que durante os seus tempos de jogador vestiu as camisolas do FC Porto e do SL Benfica.

Caso bem diferente o do Luxemburgo, que estando longe de ser uma seleção que possa aspirar a lutar por uma presença num Europeu, aponta para que esse dia esteja cada vez mais próximo. Na presente temporada, teve, pela primeira vez, uma equipa na fase de grupos da Liga Europa, e a recente presença de seleções jovens em fases finais também indica que há um trabalho de formação a dar resultados. A sua figura maior tem, aos 21 anos, todos os traços da história do futuro do futebol do país. Christopher Martins Pereira, descendente de cabo-verdianos, com passagem pela formação dos franceses do Lyon, é um bom protótipo do luxemburguês do presente. No última convocatória, dos vinte e quatro jogadores chamados, apenas oito continuam a jogar no Grão-Ducado, enquanto doze têm menos de 24 anos.

Por isso, todo o cuidado será pouco, num segundo semestre que trará, também, as viagens à Sérvia e à Ucrânia, onde em fases de apuramentos passadas os portugueses já perderam pontos. Não haverão oceanos de glória para atravessar, numa conquista que dependerá, sobretudo, de passagens aéreas para chegar a um Euro 2020, que também terá no avião o transporte preferencial. Com a fase de grupos dividida por doze países, o futuro campeão europeu será, sem dúvida, o mais viajado de sempre. Mas essa é uma aventura para ser contada lá mais para a frente. Para já, o roteiro de 2019 oferece-nos uma estrada de estrelas a conquistar.