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Portugal

Tudo começou em parte mais ou menos incerta: Riade, 30 anos depois, por Rui Santos

O jornalista e comentador escreve um ensaio sobre o primeiro grande momento do futebol português - a conquista do Mundial de 1989, na Arábia Saudita - e traça um paralelismo curioso entre esse dia e o dia em que Bruno Lage chegou à liderança do Benfica

Rui Santos

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1989-2019. 30 anos.
Riade foi a capital da revolução do futebol português, a expressão máxima de um trabalho que começou uns anos antes e, por isso, bem se pode dizer que Riade começou no eixo França-Checoslováquia, em ambientes tão distintos como a crua mas maravilhosa Bretanha, das ostras e dos frutos do mar e a sedutora Morávia-Silésia dos cristais, pois foi nos Europeus de sub-16 (1987-França) e de sub-18 (Checoslováquia-1988) que se tornou mais claro o processo de construção da seleção campeã do mundo em território saudita.

Tudo começou, aliás, em parte mais ou menos incerta quando, a partir de 1985, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) consentiu que se demolisse o edifício que dava cobertura a uma mentalidade pobrezinha a rodear os jogadores mais jovens. Não havia organização (ainda me lembro do ‘escândalo das idades’ quando levámos à UEFA uma equipa com uma média de idades superior àquela que os regulamentos estipulavam); não havia uma mentalidade ganhadora e o discurso era, depois das derrotas, invariavelmente “jogar para aprender”.

Mentalidade de país periférico, ainda a aprender a viver em democracia, agarrado no futebol aos seus atrasos infraestruturais, uma vez que ainda estava por chegar aos clubes a ‘era das academias e dos centros de treino”.
Este muro foi o mais difícil de derrubar. O muro de uma mentalidade que não nos deixava fazer crescer.

Eu tinha acompanhado a preparação da seleção que foi disputar o Mundial de Juniores no Japão, em 1979, sob a orientação de Peres Bandeira, e essa equipa tinha jogadores como Zé Beto e Justino, Alberto Bastos Lopes, Santana, Nascimento e Diamantino.

Eu via talento, já começava a perceber que na Europa - ainda com a União Soviética, RDA, Checoslováquia e Jugoslávia ‘agregadas’ a um ‘bloco de Leste’ muito forte - a maior parte dos países não muito distantes do nosso estava incomparavelmente mais adiantada em matéria de infraestruturas, com a França a liderar o processo de aposta no sector da Formação, apresentando Clairefontaine como o seu cartão de visita, cujo centro de estágio havia sido inaugurado em 1988 (com fundação em 1976) pelo então Presidente da República, François Miterrand.

Eu via talento — sempre vi talento no futebol português — mas via um grande atraso em dois domínios:
1. Parques desportivos desenquadrados da realidade europeia;

2. Mentalidade competitiva desadequada dos padrões europeus.
É bom lembrar que os pelados no futebol português só foram eliminados a meio da década de 80 e o chamado futebol juvenil foi muito vítima disso. Nós tínhamos o Estádio Nacional (com limitações) e os nossos principais clubes não estavam preparados para proporcionarem as melhores condições de treino aos jogadores mais jovens. Havia muita carolice, muita paixão, mas ninguém se dava ao incómodo de perguntar por que razão, havendo tão boa matéria-prima, as nossas seleções (de jovens) não conseguiam ser competitivas e lutar por troféus no espaço europeu?

Foi isso que mudou na década de oitenta e porque, para se desinstalarem vícios há muitos anos enraizados, é preciso luta, confronto e medidas que visem mitigar ou anular esses vícios, foi um tempo muito difícil, muito fraturante, com muitas incompreensões, bloqueios, com muita gente a olhar para o ‘fenómeno’ sem o entender.

Neste caso, não estavam em causa as ‘guerras’ pelo poder na arbitragem, sempre muito ativas no futebol cá do burgo, mas uma mudança essencial na construção de um jogador-tipo para o futebol português, mais preparado para dar respostas no espaço competitivo acima dos 20 anos.

Portugal foi campeão do Mundo em 1989 e campeão do Mundo em 1991 no escalão de sub-20 porque alguns anos antes haviam sido lançadas as sementes quando estes jogadores — e centenas de outros — tinham 14, 15, 16, 17, 18 anos e passaram a enquadrar-se em regimes de treino que os fizeram crescer dia a dia em estágios, em jogos, com muito contacto internacional.

Ainda há poucas horas ouvia o Bruno Lage a falar da importância do treino, a propósito do FC Porto-Benfica e da provável inclusão de muitos jovens no ‘onze’ do Benfica, como Rúben Dias, Ferro, João Félix (além de Florentino, que parece estar apto para estas ‘altas cavalarias’), e ele falava precisamente do número de horas passadas em treino, em competição (‘Youth League’, nomeadamente) — e isso é, de facto, essencial na formação de um atleta. Não há muita gente em Portugal a perceber isto e o Benfica está a tirar dividendos dessa política de investimento. Antecipar é preparar o futuro.

Quem antecipa acaba por recolher os dividendos dessa sementeira. É um processo complexo, mas é a fórmula mais sustentada para não ficar tão à mercê dos caprichos do mercado e do ‘canibalismo’ dos emblemas mais poderosos.
O Benfica percebeu isso. O Sporting percebe mas não quis saber. O FC Porto está mais virado para os mercados.

A selecção de Riade, com jogadores abaixo dos 20 anos, era a imagem da importância da equipa. João Pinto talvez se destacasse um pouco mais em relação a todos os outros, mas não havia ‘estrelas’. Eram todos pela equipa. Uma solidariedade extraordinária. Uma união que se sentia dentro do campo. Ver uma equipa de sub-20 comportar-se como uma equipa crescida, ao nível da coesão das grandes equipas europeias (descontando aquele ‘desligamento-de-interruptor’ no jogo com a Arábia Saudita), era algo estranho e muito invulgar. Em 1991, bicampeões mundiais.

O reforço da ideia de que aquilo que havia sido feito a partir dos meados da década de 80 dera frutos e tinha valido a pena. Com uma equipa porventura menos sólida mas com muito mais talento individual, com Figo, Rui Costa e ainda João Pinto à cabeça, mas também Peixe, Rui Bento, Jorge Costa e Capucho.
Foram imensos os contributos de muita gente antes de Riade (‘adR’), mas a emancipação do jogador português só começou verdadeiramente depois de Riade (‘ddR’) — e 30 anos depois é tempo para o futebol português e a própria FPF se orgulharem do trabalho que foi realizado há três decénios.

É necessário fechar este capítulo da reconciliação com a história. A revolução (de mentalidade competitiva) operada no futebol em Portugal passou pelas areias quentes do deserto saudita.

NOTA - Este Campeonato do Mundo foi também, como a cereja no topo do bolo, a prova da importância que a imprensa pode ter no desenvolvimento dos projetos, sobretudo quando estamos a falar de um projecto de matriz não comercial. E isso a FPF não deveria ter desvalorizado.