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Engenheiro, agora com bola. De preferência no meio-campo alheio

Depois de uma entrada pouco feliz na qualificação para o Euro-2020, Portugal vai tentar vencer a Liga das Nações, em casa. O primeiro jogo é com os suíços, esta quarta-feira

Mariana Cabral

Sergei Fadeichev

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Esteja no banco, durante os jogos, ou à secretária, em conferências de imprensa, a cara é sempre a mesma, e obriga-nos a desbobinar sinónimos: fechada, dura, séria, sisuda, carrancuda, obstinada e até embezerrada. Enfim, de poucos amigos. Fernando Santos não é tipo que ande por aí a esbanjar sorrisos à toa, o que lhe dá mais rugas na testa do que nas bochechas e faz dele uma espécie de antítese de Jürgen Klopp, com tudo o que isso acarreta para o jogo. Se a personalidade de um treinador não é, per se, definidora do que joga uma equipa, é, pelo menos, influenciadora, e isso leva-nos a Toni Nadal.

“A cara tem de estar sempre em máxima tensão, com um olhar voraz”, se não, “é impossível chegar ao mais alto nível do ténis ou de qualquer desporto”, escreveu recentemente no “El País” o tio e ex-treinador de uma ‘besta’ (é um elogio) do ténis chamada Rafael Nadal, baseando-se nas suas experiências práticas com os atletas e nos estudos teóricos do psicólogo Daniel Goleman para defender que, em qualquer modalidade, é imperativo ter uma expressão que meta medo para assustar os adversários.

O que Toni Nadal não explica é se, neste processo, também é necessário, bom, assustar-nos a nós próprios e, já agora, a bola. Olhando para o talento que abunda na convocatória portuguesa (mesmo sem André Silva, lesionado), é difícil explicar as prestações pouco inspiradas da seleção no início do apuramento para o Euro-2020, que terminaram com dois empates em casa: um sem golos, com a Ucrânia, e outro a um golo, com a Sérvia.

A seleção de Fernando Santos, não obstante todos os (muitos) feitos obtidos, nunca foi propriamente adepta de assumir descaradamente o jogo, mas agora é difícil justificar a escolha de outro caminho que não esse, mesmo sendo o engenheiro “um treinador de equilíbrios”, como diz ao Expresso o analista Rui Malheiro. “Admito que assumir o protagonismo do jogo não seja exatamente o que Fernando Santos sempre quer, mas penso que é imperativo fomentá-lo, independentemente de se jogar em 4-3-3 ou em 4-4-2.”

A razão é simples: “Tendo nós Cristiano Ronaldo, se não temos bola, ele terá muito mais dificuldades em influenciar o jogo. Ele perdeu fulgor e já não é um jogador de repetidas arrancadas; é um hábil definidor, na finalização. Ou seja, iremos beneficiar Ronaldo se tivermos bola para alimentá-lo”, explica Malheiro.

A posse

Das seleções que chegaram à fase final da Liga das Nações, Portugal até nem é a que tem menos posse de bola na prova: essa é a Inglaterra, por parca margem. Os ingleses têm, em média, 47,9% de posse, com Portugal a ter 48,6%, a Holanda 49,8% e a Suíça, surpreendentemente, 55,4%. O que os números do site “Who Scored” não nos dizem, neste caso, é onde se tem a bola — e isso faz toda a diferença.

“Tanto o Real Madrid como a Juventus são mais de ataque posicional do que de transições, o que beneficiou Ronaldo, claro. E depois há outra razão para que se assuma o ataque posicional, que é a quantidade e qualidade dos nossos médios”, acrescenta Rui Malheiro, que é defensor do 4-4-2 para a seleção, mas não o atual, de formato clássico, e sim o de losango. “Tornaria muito mais fácil assumir o protagonismo, porque permite fomentar um modelo mais associativo e ter mais talento junto em simultâneo”, justifica.

Quando chegou à seleção, Fernando Santos apostou no 4-3-3 como sistema preferencial, com Ronaldo a evoluir do corredor lateral para o central, mas os ajustes em redor do capitão levaram a equipa a variar para um 4-4-2 clássico, aquele que, muito provavelmente, será utilizado na quarta-feira frente à Suíça. Resta apenas saber com que protagonistas. “Na seleção, Bruno Fernandes praticamente não joga, e é inaceitável ser suplente depois da época que fez, diria que é mesmo inconcebível”, opina Malheiro, que antevê que o médio do Sporting vá jogar no corredor lateral esquerdo, ficando no meio Rúben Neves e William (ou Moutinho), e Bernardo Silva no corredor lateral direito.

“O Bernardo também seria outro a beneficiar de uma mudança para o losango, porque agora está fixo na direita, mas ajudaria muito mais a equipa no centro, com liberdade para ir a um ou outro corredor.”

Quem quer namorar com o finalizador?

Na frente, não há dúvida que haverá Ronaldo: só falta saber quem será o parceiro do capitão. André Silva é o par mais frequente, mas não está, pelo que restam os menos prováveis Gonçalo Guedes e Diogo Jota e os mais prováveis Dyego Sousa e João Félix. Se o avançado do Sporting de Braga já se estreou ao lado de Ronaldo, frente à Sérvia, sem grande sucesso, o jovem Félix ainda não teve a mesma oportunidade, depois de ter abandonado o último estágio precocemente devido a lesão. “Penso que se houvesse André Silva, seria ele o escolhido. Entre Dyego Sousa e João Félix, creio que jogará Félix, porque isso pode deixar Ronaldo livre para ser o finalizador e Félix o assistente, mais móvel”, aponta Malheiro, justificando novamente a escolha com os benefícios que isso trará a Ronaldo e, por arrasto, à equipa.

A criatividade da organização ofensiva será fulcral para levar de vencida a Suíça de Vladimir Petkovic, que já criou problemas a Portugal na qualificação para o Mundial-2018, quando venceu, em casa, por 2-0. Na altura, não havia Ronaldo, lesionado, o que levou Fernando Santos a optar pelo 4-3-3, com Eder na frente e Bernardo e Nani nas alas. A opção foi desfeita ao intervalo, com a entrada de André Silva e a passagem para o 4-4-2, mas nem o ajuste funcionou, e o engenheiro fez cara feia, particularmente às transições: “Uma equipa que é campeã da Europa tem de saber fazer faltas”, comentou.

Na segunda volta, já em Portugal, o resultado foi simétrico, a favor da nossa Seleção, que entrou de início com Ronaldo e André Silva na frente. “A Suíça difere conforme joga em casa ou fora, e provavelmente aparecerá na linha do que fez no apuramento para o Mundial. Será um adversário difícil, bem trabalhado do ponto de vista tático, que joga no erro do adversário. Normalmente, não quer ser dominante, tem um estilo mais cínico.

Percebendo as dificuldades de Portugal, irá apostar claramente num bloco baixo, com o sector defensivo e intermédio muito juntos, saindo para transições rápidas”, analisa Rui Malheiro. “O melhor para Portugal seria repetir o que aconteceu na vitória: tentar marcar cedo e assim beneficiar da obrigação dos suíços em assumir mais riscos e libertar espaços atrás.” Para deixá-los com cara feia. E arrancar um sorrisinho ao engenheiro.