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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Suíça, a equipa-surpresa que é uma caixinha de surpresas

O treinador Blessing Lumueno descreve o que Portugal poderá encontrar esta quarta-feira diante da Suíça, treinada pelo imprevisível Petkovic e que tem em Xhaka, Shaqiri e Seferovic as suas estrelas

Blessing Lumueno

Valeriano Di Domenico - UEFA

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Para muitas pessoas, a Suíça é a grande surpresa desta fase final da Liga das Nações por não pertencer ao grupo de seleções europeias que estão mais vezes presentes nas fases decisivas das provas da UEFA. Por esse fator, e por não não terem seguido de forma assídua a carreira da equipa treinada por Vladimir Petkovic, poder-se-ia pensar que a equipa helvética é o parente pobre desta competição, que vai jogar num bloco baixo, com as linhas recuadas, e apostar na transição ofensiva.

Bom, para mim a grande surpresa será a Suíça apresentar-se nesse registo defensivo. Isto tendo em conta que, nos últimos jogos que fez contra equipas com alguma qualidade individual (dois contra a Bélgica, um contra a Dinamarca), a conceção de jogo esteve muito acima da maior parte das equipas europeias. As indicações que o seu treinador deu também me parecem ir nesse sentido, tendo ele dito que a sua equipa não vinha para o Porto de férias, e que até eram favoritos a vencer o jogo contra Portugal. Por isso, creio que os comportamentos serão mais agressivos do que defensivos, no ataque e na defesa.

Aqui ficam algumas ideias daquilo que poderá surpreender Portugal no jogo desta quarta-feira:

Guarda-redes

É nele que tudo começa. O ataque posicional da equipa tem grande participação dele na criação de superioridades, na gestão da bola, e no iniciar ou reiniciar dos ataques. Yann Sommer escolhe, prioritariamente, entre as três linhas de passe mais próximas e só depois começa a procurar passes mais longos. Tem alguma dificuldade nas saídas, e na abordagem aos lances de bola parada (cantos, livres, etc).

Defesa

É pelos defesas que a construção tem seguimento. É uma equipa que procura fazer a bola circular sem saltar etapas: do guarda-redes para os defesas, dos defesas para os médios, dos médios para os avançados. Procuram o passe curto, o colega mais próximo, jogadores entre linhas, mas não descuram as desmarcações de profundidade e as bolas mais longas para criar dúvida ao adversário. Por vezes, fazem-no apenas para obrigar o adversário a recuar as linhas.

Os defesas dão tão mais largura quanto mais próximos estiverem do seu guarda-redes, e quanto mais pressão tiverem perto de si. Mesmo estando bastante perto do meio-campo ofensivo, não têm problema nenhum em recomeçar o ataque colocando a bola no guarda-redes. Quando a equipa entra no meio-campo ofensivo, aproximam-se todos do lado da bola para com mais homens conseguirem parar os contra-ataques adversários.

Individualmente, Manuel Akanji, central do Dortmund, é o líder da linha defensiva, e em organização defensiva, na pressão, caso o adversário opte por jogar longo, lidera a disputa da primeira bola ou garante a segunda Mas, na generalidade, são defesas que têm dificuldade em parar os contra-ataques por força de más abordagens individuais, que não utilizam as referências mais adequadas para defender a baliza nas situações perto da sua área, e são também eles que, em conjunto com o resto da equipa, não garantem grande fiabilidade nos lances de bola parada defensiva.

Meio-campo

O meio campo é o domínio de Xhaka: o médio do Arsenal é a expressão de todo o jogo ofensivo suíço. Desde a gestão dos ritmos de jogo até a definição, nada se faz sem que a bola passe pelos pés deste médio. Aproxima-se dos defesas, oferece coberturas aos jogadores mais adiantados, aparece para finalizar em remates de fora da área; É o maestro da equipa a jogar em posições mais recuadas. Constrói e equilibra, mas também cria e finaliza.

Um dos laterais (habitualmente Mbabu) posiciona-se como médio para receber em largura, um pouco como faz Keizer no Sporting, e é Denis Zakaria, médio do Borussia M’gladbach, que acompanha Xhaka nos equilíbrios da equipa. Isto permite libertar Freuler, médio da Atalanta, para ocupar zonas mais adiantadas do campo, entre linhas ou em largura. As linhas de passe, normalmente estão bem definidas entre os elementos do meio campo, mas nenhum deles fica preso à posição, e há algumas trocas posicionais e movimentos de ruptura trabalhados.

Quando a equipa pressiona o posicionamento aproxima-se de um 1x4x4x2, ou de um 1x4x2x3x1. Com o recuo do lateral para compor a linha defensiva e dos jogadores mais adiantados para ajudar a equipa a recuperar a bola, o meio-campo transforma-se em função da zona e da situação. Por vezes, Shaqiri aparece como avançado, noutras vezes, junta-se aos médios para criar uma zona de pressão com cinco homens. Nesse momento, orientam a pressão para fechar um lado do campo e obrigam muitas vezes o adversário a jogar longo.

E quando a primeira linha de pressão é ultrapassada os médios têm mais dificuldade em reagir. Parece-me que se continuam a comportar como se estivessem em zonas adiantadas, e por isso facilmente são batidos. Têm, também, muita dificuldade em parar os contra-ataques do adversário por más abordagens individuais e por falta de algum detalhe nas referências colectivas.

Ataque

Shaqiri e Seferovic deverão liderar os ataques, na definição e na finalização. A pedir no pé, e a pedir no espaço. Não só quando a bola está mais perto deles, mas também quando um dos três defesas se encontra em posse.

Há movimentos de profundidade trabalhados para obrigar a equipa adversária a recuar, e depois de instalados no meio campo adversário há uma dinâmica muito própria que liberta os três homens da frente para se movimentarem entre linhas, e através de combinações, ou cruzamentos, conseguirem penetrar na área adversária.

Por outro lado, sabem bem como pressionar os defesas adversários e o guarda-redes. Trancam as linhas de passe mais próximas e desincentivam o jogo curto. Quando perdem a bola, têm mais dificuldade em organizar-se para defender.

Creio que Petkovic irá pedir à sua equipa para pressionar alto, e com bola irá colocar dificuldade em ataque posicional. Mas posso estar errado e a abordagem ser totalmente diferente - é que o treinador suiço foi alterando regularmente os comportamentos colectivos, o sistema de jogo, a sua forma de abordar os jogos e os jogadores no onze inicial.