Tribuna Expresso

Perfil

Portugal

O homem sem defeitos chumba a geometria

Fernando Santos surpreendeu ao desenhar um losango contra a Suíça, mas a forma geométrica já deve ser outra frente à Holanda, na final da Liga das Nações (domingo, 19h45, RTP1)

Mariana Cabral

TF-Images

Partilhar

“E não é que é mesmo um losango? *emoji a piscar o olho* Os tempos do curioso polvo Paul já lá vão, mas, quando o Portugal-Suíça começou, do alto da tribuna do Dragão, lembrei-me do ex-analista de Fernando Santos na seleção da Grécia. Na semana passada, na Tribuna Expresso, Rui Malheiro antecipava aquele que acreditava ser o melhor sistema para a seleção portuguesa na Liga das Nações: o 4-4-2 losango; não só porque permitia juntar mais talento em campo (os diamantes em bruto Bernardo-Bruno Fernandes-João Félix), mas também porque “tornaria muito mais fácil assumir o protagonismo do jogo e fomentar um modelo mais associativo”.

Só que, no futebol, como diz António Simões, “a única coisa sem defeitos é o golo” e Portugal só está na final da Liga das Nações à conta de um homem sem defeitos chamado Cristiano Ronaldo, que marcou o 86º, o 87º e o 88º golos no seu 157º jogo pela seleção, depois de uma exibição coletiva geometricamente repreensível. “Fiquei realmente surpreendido com o losango”, confessa à Tribuna Rui Malheiro, “mas a verdade é que não correu nada bem. Se há estrutura no futebol que exige treino, é esta, particularmente se o objetivo for ser protagonista com bola, ainda que não creio que o objetivo tenha sido esse. A equipa nunca se sentiu confortável e isso notou-se, tanto defensivamente como ofensivamente”, acrescenta.

No final do jogo, Fernando Santos disse que tinha feito dois treinos com o losango em mente, mas, antes disso, a maioria dos treinos focou-se no 4-4-2 clássico que tem sido habitual e, também, no 4-3-3. “Mais do que criar novas dinâmicas ofensivas, creio que o sistema foi escolhido devido a um objetivo defensivo, por ajuste de um ponto de vista estratégico em relação à forma como construía a Suíça”, explica Malheiro, acrescentando que a presença de Bernardo no corredor central pretendia condicionar Granit Xhaka, por quem a construção adversária normalmente se iniciava. Ofensivamente, o sistema possibilitou mais transições rápidas por parte dos avançados - Ronaldo e Félix - do que ataque posicional: Portugal terminou a 1ª parte com 44% de posse de bola e o final do jogo com 46%.

Gualter Fatia

Longe vão os tempos de um outro losango frequentemente utilizado por Fernando Santos, em 2006/07. “Na altura penso que o adotou pelo tipo de jogadores que tínhamos, para conseguir juntá-los quase todos em campo”, recorda à Tribuna Nuno Gomes, que partilhava a frente de ataque desse Benfica com Fabrizio Miccoli, enquanto os outros protagonistas variavam: “O Rui Costa era o 10, claro, o Petit normalmente ficava à frente da defesa, o Karagounis e o Katsouranis equilibravam e o Simão andava solto no ataque”. Para o ex-internacional português, qualquer sistema serve para a seleção nacional, porque “Portugal tem um naipe de jogadores de qualidade que se adaptam bem e que permitem ao mister ter muitas opções”, ainda que compreenda que o mais importante seja equilibrar a equipa. “Normalmente dizemos que o mister é um treinador defensivo, mas a verdade é que não sofrer golos deixa a equipa mais perto de ganhar, não é?”

Nuno Gomes também recorda que, já no Benfica, Fernando Santos “era um treinador preocupado com o adversário e passava muito informação sobre isso”, pelo que compreende a adaptação da estrutura da seleção portuguesa “consoante a análise ao adversário seguinte”. Rui Malheiro, tendo trabalhado com Fernando Santos na seleção grega, afiança que o adversário “é sempre completamente dissecado até ao pormenor” e é, por isso, provável que Portugal vá novamente mudar de estrutura no domingo, “para se encaixar na Holanda”, que baseia o seu jogo num 4-3-3. “A principal preocupação será o equilíbrio defensivo da equipa, por mais ofensivos que possam ser os jogadores escolhidos para o onze. Acho que jogaremos em 4-3-3, com o meio-campo a ser reforçado com Bruno Fernandes e depois, provavelmente, um “baixinho”, ou Rúben Neves ou João Moutinho, e um “robusto”, ou Danilo ou William. Dois robustos juntos sinceramente não acredito, porque isso iria dar imagem de estar em marcha atrás”, antevê Malheiro. “Na direita, o Bernardo, com liberdade para ir para dentro; na esquerda, o Guedes, a surgir muitas vezes como segundo avançado, junto a Ronaldo, que fica na frente.”

O renascimento holandês

Depois de vencer a Inglaterra por 3-1, já no prolongamento, a seleção de Ronald Koeman - que “conhece muito bem os portugueses”, assegura Nuno Gomes, que também foi treinado por ele, no Benfica, em 2005/06 - chega a uma final europeia depois de ter passado os últimos anos em reflexão, já que não conseguiu qualificar-se para o Mundial 2018. Mas o futebol holandês está novamente a crescer - e mesmo antes do Mundial 2018, em março, até venceu Portugal, por 3-0, num amigável disputado em Genebra. “Tem sempre excelentes executantes e basta ver a campanha do Ajax na Champions para percebê-lo, com De Ligt a ser falado para a Bola de Ouro e De Jong a mostrar que é um craque”, afirma Nuno Gomes.

NurPhoto

Para Rui Malheiro, a Holanda é “o adversário mais complicado para a final”, mesmo tendo menos horas de descanso - Portugal jogou quarta-feira e a Holanda quinta-feira - e mesmo tendo jogado 120 minutos. “Tem uma grande capacidade para circular a bola, sempre a partir do cérebro do De Jong, que é um jogador incrível. É uma seleção que podia até ser mais agressiva em termos de posse de bola, mas tem tendência, pelas características das três unidades mais avançadas - Babel, Depay e Bergwijn -, em ir buscar muito a profundidade na fase de criação”, algo que será um problema para a seleção portuguesa, prevê. “Não jogando o Pepe, lesionado, joga o José Fonte com o Rúben Dias, e acredito que as costas da defesa portuguesa vão estar mais vulneráveis, mesmo que Fernando Santos opte por baixar as linhas um bocadinho mais, que é o que acho que vai acontecer”, explica.

Tal como fez com a Inglaterra, é provável que a Holanda pressione fortemente a construção portuguesa, mas Portugal também pode aproveitar alguns espaços deixados livres pelos holandeses. “Do nosso ponto de vista ofensivo, creio que os desequilíbrios poderão surgir a partir dos corredores laterais. Os dois centrais, Van Dijk e De Ligt, são extremamente fortes nos duelos (e nas bolas paradas ofensivas), pelo que as costas dos dois laterais, Blind e Dumfries, podem ser exploradas pelo Bernardo e pelo Guedes, e eles podem ser determinantes no jogo”, analisa Malheiro.

Depois, análises à parte, há também que contar com o fator que desequilibra qualquer geometria: Cristiano Ronaldo. “Acho que já nem há palavras para o que ele faz”, graceja Nuno Gomes. “É um orgulho para todos nós o Ronaldo ser português. É um exemplo e é a maior bandeira do nosso país”, sentencia o ex-colega de seleção, que só espera que domingo o desfecho da Liga das Nações não seja o mesmo do Euro 2004 (onde Portugal até venceu a Holanda, nas meias-finais). “Só quando o árbitro apitou para o final é que senti na pele a dor de perder em casa. Só espero que Portugal tenha aquela pontinha de sorte que nós não tivemos em 2004. E que o Cristiano esteja inspirado”.