Da complexidade do português: lembram-se daquela equipa que marcava pouco e sofria ainda menos? Pensem novamente
Portugal bateu a Sérvia, em Belgrado, num encontro em que marcou primeiro, com sorte, em que sofreu golos após erros individuais e fez os outros três pelo trio ofensivo: Guedes, Ronaldo e Bernardo, o melhor em campo
07.09.2019 às 22h00
Srdjan Stevanovic - UEFA
Partilhar
Por ocasião de um exame, lembro-me de uma sebenta cuidadosamente sublinhada por uma colega prestável e responsável da nossa turma. Embora não me recorde do autor - a colega chama-se Ana -, recordo-me do tema, que era interessante e que vou parafrasear: o que diferencia os portugueses dos espanhóis.
Nele, o ensaísta discorria sobre coisas geográficas, biográficas, filosóficas e sociológicas, que iam do sebastianismo às planícies alentejanas e paisagens serranas para justificar uma série de diferenças fundamentais entre nós e os outros. Eles, os fazedores, os enérgicos e futuristas. Nós, os melancólicos e os contempladores, espécie com um apetência especial para contornar regras. E aqui recupero uma passagem superior, aquela em que o escritor analisa o condutor português que faz sinais ao que circula em sentido contrário porque a polícia anda por ali. Chamemos-lhe solidariedade marota. Quem nunca?
Pois que nisto de ser português tem que se lhe diga e de há alguns anos que tenho andado a tentar formular a minha teoria, por achar a anterior relativamente desenxabida. E dou por mim a pensar se português não será também aquele que amanha a mala de viagem no último suspiro, apanha o último autocarro da carreira, pica o bilhete com os trocos a caírem-lhe dos bolsos e chega ao avião a pedir desculpa pelo atraso. Foi difícil, mas conseguiu e isso é que interessa.
Então, esse português é o mesmo português que espera por um milagre caído do céu sob a forma de um cruzamento fraquinho saia da direita em que a bola encontra os corpos desastrados de Dmitrovic e Milenkovic em suspensão e sobra para o goleador inadequado William Carvalho.
Assim se fez o 1-0 num jogo em que Portugal estava a jogar como se este encontro não fosse uma oportunidade decisiva de assegurar um lugar no Euro2020, bem, porque na realidade não era - existia, ainda, a possibilidade playoff, via Liga das Nações.
E o português de Portugal sabia disso e a primeira-parte, talvez por isso, foi um desatino completo, como já vimos outros noutros tempos; como se adversário não tivesse sido estudado, tantas as vezes que envergonhava os laterais Semedo e Guerreiro, com movimentos rápidos nas suas costas; como se o onze que jogara contra a Holanda na Liga das Nações se tivesse esquecido de como defender e de como procurar espaços; e como se Portugal não fosse o campeão da Europa em título e a Sérvia não tivesse sofrido cinco golos da Ucrânia recentemente.
Resumindo, nos primeiros 45 minutos, Portugal controlou alguns, mas descontrolou-se em vários, sobretudo defensivamente, apesar do meio-campo robusto formado por Danilo, William e Bruno Fernandes. Mas estava a ganhar pelo resultado do costume: 1-0.
Isso iria mudar.
Veio a segunda-parte e, também como tem sido normal, Portugal arrancou melhor, com Ronaldo e Raphael Guerreiro, e finalmente numa jogada individual de Guedes, héroi da Liga das Nações. Numa arrancada potente, desviou-se e chutou de pé esquerdo para o 2-0 que, aparentemente, iria sossegar o coração do engenheiro.
Só que com o sossego vem o adormecimento, e às tantas Milenkovic fez o seu primeiro golo pela Sérvia com Danilo apanhado a cochilar na marcação zonal. Um erro de principiante, ou apenas um português a ser português e à espera que aquele que é o menos português de todos entrasse, finalmente, em acção? Claro está, Ronaldo, fez o 3-1, mas ainda assim houve o 3-2, provocado por um disparate de Bruno Fernandes, e enfim o 4-2, por Bernardo Silva.
Foram momentos frenéticos e inseguros, um deleite para quem gosta de bola - suspeito que não tenha caído muito bem a Fernando Santos.
E assim chegamos ao grau último do português: a sua complexidade. Portugal era aquela equipa que marcava pouco e sofria ainda menos, e que fazia da sua capacidade de anular o adversário o seu mantra? Pensem novamente.
O Grupo B
1. Ucrânia, 13 pontos, 5 jogos
2. Portugal, 5 pontos, 3 jogos
3. Luxemburgo, 4 pontos, 4 jogos
4. Sérvia, 4 pontos, 4 jogos
5, Lituânia, 1 ponto, 4 jogos
Relacionados
-
Curso acelerado de poder de síntese, por Fernando Santos: erros e adormecimento
O engenheiro mal respirou na análise que fez ao jogo aos microfones da RTP, após a vitória de Portugal por 4-2, em Belgrado, diante da Sérvia
-
“Não podemos olhar para o lado e ignorar a mais valia da equipa da Sérvia”
Fernando Santos lançou, assim, o jogo de sábado contra a Sérvia
-
Últimos a chegar, primeiros a sair: há novidades na convocatória de Portugal
Ferro e Podence, grandes novidades de Fernando Santos para o duplo encontro da seleção nacional, não estão convocados para o jogo desta noite, contra a Sérvia
-
“Não estou assustado, Portugal não se assusta com nenhuma seleção”
Bernardo Silva e o jogo de sábado contra a Sérvia
-
Sérvia, esse adversário incógnito cheio de gente conhecida
A Sérvia irá estrear um novo selecionador precisamente contra Portugal no jogo deste sábado (19h45), pelo que é sempre complicado definir os caminhos que Fernando Santos tem de percorrer para derrotar o adversário
-
História, histórico e contexto: o Sérvia - Portugal desta noite
Como estão as contas do grupo? Quantas vezes já se defrontaram? E quem é o árbitro. Está tudo aqui