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Da complexidade do português: lembram-se daquela equipa que marcava pouco e sofria ainda menos? Pensem novamente

Portugal bateu a Sérvia, em Belgrado, num encontro em que marcou primeiro, com sorte, em que sofreu golos após erros individuais e fez os outros três pelo trio ofensivo: Guedes, Ronaldo e Bernardo, o melhor em campo

Pedro Candeias

Srdjan Stevanovic - UEFA

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Por ocasião de um exame, lembro-me de uma sebenta cuidadosamente sublinhada por uma colega prestável e responsável da nossa turma. Embora não me recorde do autor - a colega chama-se Ana -, recordo-me do tema, que era interessante e que vou parafrasear: o que diferencia os portugueses dos espanhóis.

Nele, o ensaísta discorria sobre coisas geográficas, biográficas, filosóficas e sociológicas, que iam do sebastianismo às planícies alentejanas e paisagens serranas para justificar uma série de diferenças fundamentais entre nós e os outros. Eles, os fazedores, os enérgicos e futuristas. Nós, os melancólicos e os contempladores, espécie com um apetência especial para contornar regras. E aqui recupero uma passagem superior, aquela em que o escritor analisa o condutor português que faz sinais ao que circula em sentido contrário porque a polícia anda por ali. Chamemos-lhe solidariedade marota. Quem nunca?

Pois que nisto de ser português tem que se lhe diga e de há alguns anos que tenho andado a tentar formular a minha teoria, por achar a anterior relativamente desenxabida. E dou por mim a pensar se português não será também aquele que amanha a mala de viagem no último suspiro, apanha o último autocarro da carreira, pica o bilhete com os trocos a caírem-lhe dos bolsos e chega ao avião a pedir desculpa pelo atraso. Foi difícil, mas conseguiu e isso é que interessa.

Então, esse português é o mesmo português que espera por um milagre caído do céu sob a forma de um cruzamento fraquinho saia da direita em que a bola encontra os corpos desastrados de Dmitrovic e Milenkovic em suspensão e sobra para o goleador inadequado William Carvalho.

Assim se fez o 1-0 num jogo em que Portugal estava a jogar como se este encontro não fosse uma oportunidade decisiva de assegurar um lugar no Euro2020, bem, porque na realidade não era - existia, ainda, a possibilidade playoff, via Liga das Nações.

E o português de Portugal sabia disso e a primeira-parte, talvez por isso, foi um desatino completo, como já vimos outros noutros tempos; como se adversário não tivesse sido estudado, tantas as vezes que envergonhava os laterais Semedo e Guerreiro, com movimentos rápidos nas suas costas; como se o onze que jogara contra a Holanda na Liga das Nações se tivesse esquecido de como defender e de como procurar espaços; e como se Portugal não fosse o campeão da Europa em título e a Sérvia não tivesse sofrido cinco golos da Ucrânia recentemente.

Resumindo, nos primeiros 45 minutos, Portugal controlou alguns, mas descontrolou-se em vários, sobretudo defensivamente, apesar do meio-campo robusto formado por Danilo, William e Bruno Fernandes. Mas estava a ganhar pelo resultado do costume: 1-0.

Isso iria mudar.

Veio a segunda-parte e, também como tem sido normal, Portugal arrancou melhor, com Ronaldo e Raphael Guerreiro, e finalmente numa jogada individual de Guedes, héroi da Liga das Nações. Numa arrancada potente, desviou-se e chutou de pé esquerdo para o 2-0 que, aparentemente, iria sossegar o coração do engenheiro.

Só que com o sossego vem o adormecimento, e às tantas Milenkovic fez o seu primeiro golo pela Sérvia com Danilo apanhado a cochilar na marcação zonal. Um erro de principiante, ou apenas um português a ser português e à espera que aquele que é o menos português de todos entrasse, finalmente, em acção? Claro está, Ronaldo, fez o 3-1, mas ainda assim houve o 3-2, provocado por um disparate de Bruno Fernandes, e enfim o 4-2, por Bernardo Silva.

Foram momentos frenéticos e inseguros, um deleite para quem gosta de bola - suspeito que não tenha caído muito bem a Fernando Santos.

E assim chegamos ao grau último do português: a sua complexidade. Portugal era aquela equipa que marcava pouco e sofria ainda menos, e que fazia da sua capacidade de anular o adversário o seu mantra? Pensem novamente.

O Grupo B
1. Ucrânia, 13 pontos, 5 jogos
2. Portugal, 5 pontos, 3 jogos
3. Luxemburgo, 4 pontos, 4 jogos
4. Sérvia, 4 pontos, 4 jogos
5, Lituânia, 1 ponto, 4 jogos