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Uma vitória sintética

Portugal marcou mais, Portugal ganhou. É assim que se explica a vitória lusa na Lituânia, depois de um jogo pouco conseguido em que a seleção foi para o intervalo empatada. Depois apareceu o homem do costume a resolver: Cristiano Ronaldo marcou quatro - e William um, a acabar - e Portugal venceu (5-1)

Mariana Cabral

INTS KALNINS

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Sintético para aqui, sintético para ali: nos últimos dias, depois da vitória de Portugal sobre a Sérvia, falou-se mais no sintético em que a seleção ia jogar na Lituânia do que da seleção adversária propriamente dita. A razão é simples: a Lituânia é muito mais fraca do que Portugal.

Só que, chegados aos 62 minutos de jogo em Vilnius, apenas o mais cético dos portugueses - que é como quem diz Fernando Santos - acreditaria que o resultado que se via no marcador - 1-1 - pudesse ser possível. Vai daí, o menos cético dos portugueses - que é como quem diz Cristiano Ronaldo - tratou de corrigir a questão, da forma menos Ronaldo possível: com um remate esquisito, meio torto e atabalhoado, que foi aos trambolhões para as mãos de Ernestas Setkus, mas que o guarda-redes da Lituânia não soube segurar, deixando a bola ressaltar para o próprio ombro e marcando uma espécie de autogolo, que na verdade não o foi, porque a génese foi um remate de Ronaldo.

Serve este preâmbulo para dizer que a exibição da seleção portuguesa, esta noite, no sintético de Vilnius, foi precisamente isto mesmo que também foi este golo de Ronaldo às duas tabelas: pouco efetiva, atabalhoada e instável, mas, enfim, vitoriosa.

Tem sido assim, aliás, a maioria dos jogos da seleção na era Fernando Santos: queixamo-nos das exibições, desconfiamos dos onzes, maldizemos as dinâmicas ofensivas (ou a falta delas), chegamos a exasperar-nos com a falta de espetáculo, mas a verdade é que, pé ante pé, Portugal vai somando vitórias atrás de vitórias, nas mais variadas competições, por essa Europa fora.

E se pensa que essas vitórias têm uma enorme influência do melhor marcador português... tem razão, claro. Ao contrário do que indica o resultado, que cheira a goleada, Portugal teve muitas dificuldades em superar a Lituânia e só o conseguiu com a enorme eficácia de Ronaldo, que marca quase tudo o que lhe passa pelos pés, e, já agora, com as ótimas assistências de Bernardo Silva, que tem sido o parceiro perfeito para o capitão português, ainda que, no papel, o parceiro da frente de ataque tenha sido João Félix - Gonçalo Guedes, desta vez, ficou no banco, tal como Semedo (lesionado) e Danilo, que deram lugar a Cancelo e Rúben Neves.

Na verdade, João Félix jogou mais encostado à esquerda do que propriamente ao centro, mas foi por esse corredor que, logo a abrir o jogo, o avançado do Atlético de Madrid combinou com Ronaldo, cruzou para a área e viu a bola embater no braço de Palionis.

O penálti, marcado por Ronaldo, dava vantagem à seleção e parecia que iríamos ter uma noite tranquila de qualificação. Parecia. Ronaldo voltou a tentar o golo de longe, por duas vezes, mas a bola não foi às redes e, paulatinamente, a Lituânia, sempre muito fechada atrás, foi saindo nas transições ofensivas.

Aos 28 minutos, num canto, os lituanos fizeram uso provavelmente do único aspeto em que são superiores aos portugueses: a altura. A marcação homem a homem de João Félix a Andriuskevicius não funcionou e o lituano cabeceou para o surpreendente 1-1.

É justo dizer que, até então, Rui Patrício não tinha feito nenhuma defesa, bem ao contrário de Setkus, mas, ainda assim, o jogo não estava favorável a Portugal, que parecia convencido que iria ganhar, mesmo sem ter de fazer muito por isso - houve remates perigosos, mas a criação de oportunidades de golo claras escasseou.

Na 2ª parte, houve mais remates de longe a incomodar Setkus, mas o clique no ataque só se deu quando Bruno Fernandes foi substituído por Rafa, aos 56 minutos. O jogador do Benfica ficou à esquerda, Bernardo à direita, Ronaldo e Félix por dentro e William e Neves mais atrás, ou seja, Portugal passou a ter mais gente junto à área lituana.

Aos 62', Ronaldo fez o 2-1, no tal lance caricato já descrito, e, a partir de então, não houve mais Lituânia. Aos 65', Ronaldo corresponde da melhor maneira a um cruzamento perfeito de Bernardo e, aos 76', mais do mesmo: passe de Bernardo, remate de Ronaldo, golo.

Sem estar a um nível particularmente transcendente, Ronaldo marcou quatro e já tem 93 na seleção - só Ali Daei, do Irão, tem uma marca superior, com 109. Ficou arrumado o jogo para Portugal, e, mesmo a acabar, em mais um lance atabalhoado na sequência de um canto, William desviou para o 5-1.

Foi, como já se percebeu, uma vitória sintética de Portugal: marcou e pouco mais. Como disse Fernando Santos após o jogo, numa frase que emendou a tempo: "Uma vitória justa da melhor equip... dos melhores jogadores".