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Portugal no Euro2020: com orgulho e sem jeito

Portugal bateu o Luxemburgo (2-0) no jogo decisivo em que a maior qualidade dos jogadores da Seleção ficou evidente apenas num lance, o do primeiro golo, num passe de Bernardo Silva para Bruno Fernandes. Talvez tenha sido esse o único momento digno de uma equipa campeã da Europa, que precisa de jogar mais e melhor se quiser ter chances de revalidar o título no Euro2020. Porque ir de empate em empate até ao triunfo final como em 2016 é como o relâmpago que cai no mesmo lugar duas vezes: não vai acontecer

Pedro Candeias

Cristiano chegou ao golo número 99 pela Seleção no triunfo de Portugal diante do Luxemburgo

Soccrates Images

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Podia começar o texto pelo Gerson Rodrigues, que nasceu no Pragal, ou pelo Leandro Barreiro, que nasceu luxemburguês filho de angolanos, para reafirmar o que já se sabe: o Luxemburgo tem muito sangue português e o futebol luxemburguês tem, nele, muito de Portugal.

Portanto, vamos a Dirk Carlson.

Dirk nasceu em Portland, Oregon, na Califórnia dos US of A há coisa de 21 anos e joga como defesa-esquerdo pelo Luxemburgo e pelo Karlsruher, na segunda divisão alemã. Como era inevitável, Dirk apanhou pelo caminho vários portugueses, um deles Manuel Correia, que o treinou no Titus Pétange e que o qualificou, um dia, como um “miúdo que leva tudo muito a peito”.

Pois, foi exatamente no próprio peito que Carlson bateu quando, na primeira-parte, impôs o físico a Pizzi, fazendo-o cair na linha lateral: dentro dele, bate um coração luxemburguês e ele iria levar muito a sério o Luxemburgo - Portugal, apesar do que se dizia da diferença de valores, dos rankings FIFA e UEFA, ou até do facto de o adversário ser campeão da Europa e ter dois jogadores entre os melhores do planeta, Ronaldo e Bernardo.

Para mal de Portugal, Dirk Carlson não seria o único luxemburguês valente e orgulhoso: Gerson Rodrigues, Deville e Thill também mostraram futebol suficiente para pôr em perigo várias vezes a baliza de Rui Patrício; aliás, mostraram futebol suficiente para chegar ao final da primeira-parte com outro resultado que não a derrota parcial.

Ao intervalo, o golo de Bruno Fernandes, nascido do génio de Bernardo Silva, que isolou o colega com um passe tipo-Tom Brady, disfarçava uma exibição pobre, sofrida e desgarrada, que tornaria irrelevante qualquer discussão sobre o estado do relvado.

Sim, a relva parecia ter sido fresada para cultivo de batata, mas o Luxemburgo, nas ocasiões em que se chegou a Patrício, fê-lo de forma apoiada e com uma ou outra triangulação. O que faltava a Portugal era jogar melhor futebol, provavelmente mudar a cabeça dos jogadores e a estratégia também, algo que conseguiu fazer nos segundos 45 minutos. Não muito, mas q.b. para manter à margem as surpresas indesejadas, pois a Sérvia teimava em derrotar a Ucrânia, complicando, então, a qualificação.

Mas, na verdade, o jogo português manteve-se mais ou menos o mesmo, inexplicavelmente perro e desconexo e com passes errados, mas, ainda assim, arranjando espaços para alguns remates enquadrados e outros nem tanto assim, que puseram a estatística do lado de cá. Não por acaso, o 2-0, de Ronaldo, que assim chegou ao 99.º por Portugal, é o resultado de uma carambola estranhíssima, em que a bola sai de Jota para bater em, pelo menos, dois pontos do corpo do guarda-redes, sobrando para um encosto facílimo.

Dirão os resultadistas que isso não interessa, que a qualificação está feita. O problema é que o Luxemburgo - Portugal não foi um ato isolado, mas uma sucessão de momentos bons e outros constrangedores, num caminho ziguezagueante que começou com dois empates comprometedores neste grupo fácil. Uma equipa com Bernardo, Ronaldo, Félix, Patrício, Ricardo, William, Danilo, Pepe ou Bruno Fernandes tem, necessariamente, de subir o nível.

Seja como for, parabéns.