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Volta sempre ao lugar onde já foste feliz, para voltarmos todos a ser felizes

A seleção portuguesa voltou ao Dragão, precisamente onde tinha conquistado a 1ª edição da Liga das Nações, para, mais de um ano depois, voltar a vencer, agora no início da 2ª edição da prova, com uma exibição categórica frente a uma Croácia, vice-campeã mundial, mais débil do que o expectável (4-1)

Mariana Cabral

MIGUEL RIOPA

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Um ano, dois meses e 27 dias depois, Portugal voltou ao lugar onde já tinha sido feliz. A 9 de junho de 2019, a seleção conquistou a primeira edição da então novíssima Liga das Nações, perante a Holanda, precisamente no Dragão, mas, a 5 de setembro de 2020, quase tudo pareceu diferente de então.

Nesse dia, no estádio portista, eu e mais uns quantos milhares de portugueses vimos de perto o aquecimento (vale sempre a pena rever esta bonita pataleca) de uma seleção que, esta noite, não teve quaisquer espectadores nas bancadas - eu em teletrabalho e os adeptos em casa; bom, pensando melhor, talvez possamos apontar Cristiano Ronaldo, de fora devido a uma infeção no pé direito, como o único apoiante presente.

E se há algo de que o verdadeiro adepto gosta - bom, ou eu pelo menos gosto - é de chegar cedo ao estádio e ver o aquecimento dos principais intervenientes do jogo. Para notar coisas como esta: no aquecimento de hoje, João Cancelo andava ali com bolas fora da área, a repetir remates de longe à baliza - disse-o, a partir do estádio, o comentador Rui Malheiro, na RTP3, precisamente antes do jogo, o que me deixou a sorrir, aos 41 minutos, mesmo sentada no sofá de cá de casa.

É que foi precisamente um desses pontapés do lateral direito português - que protagonizou uma excelente exibição na 1ª parte -, a desatar, finalmente, um nulo que teimava, injustamente, em manter-se, apesar das inúmeras ocasiões de golo criadas por Portugal.

Mesmo sem Ronaldo, a seleção dominou completamente um jogo que, de facto, por vezes, ainda pareceu de pré-época, dado o calendário futebolístico atípico. Mas se houve equipa com qualidade, ritmo e nível de jogo, particularmente na 1ª parte, essa foi a portuguesa, esta noite disposta num 4-3-3: Anthony Lopes, a surpresa do onze, na baliza, provavelmente pelo andamento que já leva, em comparação com Rui Patrício; Cancelo, Pepe, Rúben Dias e Guerreiro na defesa; Danilo, Bruno Fernandes e Moutinho no meio-campo; Diogo Jota pela esquerda (à Ronaldo), Bernardo Silva pela direita (à Bernardo) e João Félix no meio.

Depois de um primeiro remate perigoso de Nikola Vlasic a ditar o que parecia que seria a postura da Croácia no jogo - um bloco médio/baixo, expectante, sem pressionar a defesa portuguesa, mas a disparar rapidamente na transição ofensiva assim que recuperava a bola no meio-campo adversário -, só deu mesmo Portugal, com a mobilidade dos jogadores da frente de ataque a desnortear os centrais Vida e Lovren e a ser fonte de criação de inúmeras oportunidades de golo.

Depois dos primeiros avisos, de fora da área, de Danilo e Bruno Fernandes, Portugal ia tentando furar o bloco mais recuado da Croácia - há que recordar que Modric e Rakitic não foram convocados, a pedido dos próprios - através de movimentos de rutura, não só dos extremos, mas também de Bruno Fernandes, aproveitando o espaço que era criado na linha defensiva adversária quando João Félix, a referência ofensiva de Portugal, baixava para vir em apoio.

A superioridade portuguesa no jogo era evidente, com os croatas a remeterem-se apenas ao próprio meio-campo, e a seleção só não marcou antes dos 41' por manifesta infelicidade e por evidente competência do guardião Livakovic: João Félix rematou ao poste; Guerreiro rematou contra o guarda-redes; Pepe cabeceou em direção a Livakovic - e fez o mesmo na recarga; Jota cabeceou ao poste, depois de cruzamento de Bruno Fernandes; Guerreiro rematou ao poste, com a bola depois a embater no calcanhar de Livakovic, que estava de costas, e a sair do campo...

MIGUEL RIOPA

À entrada para a 2ª parte, Portugal já poderia ter uma vantagem bem mais dilatada no marcador, tal a qualidade com que entrava em zonas de finalização, e a Croácia não demorou a mostrar que entrava com uma postura diferente da anterior, ao subir a equipa e procurar finalmente pressionar a construção portuguesa bem mais à frente.

Só que a tal mobilidade da linha atacante de Portugal sabia bem como explorar a débil linha defensiva da Croácia: numa jogada pelo corredor esquerdo, Jota baixou em apoio para jogar com Guerreiro, trazendo com ele o lateral adversário, Jedvaj, enquanto João Félix, pelo corredor central, também em apoio entre linhas, ia arrastando o defesa central, Lovren - o espaço criado entre ambos os adversários foi suficiente para Jota acelerar por ali fora, recebendo no espaço o passe de Guerreiro, e rematar, já dentro da área, para o 2-0.

Ainda não tinham passado 15' da 2ª parte e Portugal já aumentava a distância no marcador, de forma plenamente adequada para aquilo que vinha a criar em campo, algo que foi repetindo nos minutos seguintes, ainda que Zlatko Dalic tenha tentado dar novo ânimo à seleção croata, ao fazer entrar Brozovic e Perisic, para os lugares de Pasalic e Brekalo.

De qualquer modo, aos 70', foi novamente Portugal a marcar, agora por João Félix: depois de um remate forte, rasteiro, de fora da área, desta vez Livakovic ficou mal na figura, já que ainda tocou na bola, mas acabou por deixá-la passar para dentro da baliza.

Construída a (belíssima) goleada, Fernando Santos começou a mexer, pensando já no jogo de terça-feira, frente à Suécia: saíram Bernardo, Moutinho e Félix, para as entradas de Trincão - uma estreia -, Sérgio Oliveira e André Silva.

Já nos descontos, Cancelo manchou ligeiramente a sua exibição ao dominar mal uma bola na defesa, deixando-a para Perisic, o que permitiu ao croata aproveitar a falta de alinhamento entre Pepe e Rúben Dias para Bruno Petkovic fazer o 3-1.

Ainda assim, o resultado não foi final, porque na última jogada do jogo, na sequência de um canto, André Silva aproveitou para encostar uma bola perdida para o 4-1, esse sim, final.

Vitória justíssima, e de qualidade, de Portugal, que começa assim a 2ª edição da Liga das Nações tal e qual como terminou a 1ª: a ganhar - e bem. Mesmo sem Ronaldo e mesmo sem adeptos. A defesa do título prossegue na terça-feira, na Suécia (19h45, RTP1).