Tribuna Expresso

Perfil

Portugal

2500 espectadores viram o Portugal-Espanha e 2511 viram Espanha jogar, até Portugal acordar

No regresso do público aos jogos da seleção, Portugal teve uma 1ª parte para esquecer frente à Espanha, mas reequilibrou o duelo na 2ª parte, criando oportunidades para marcar, tal como o adversário. Mas a sorte não se manifestou e o empate manteve-se até ao final (0-0)

Mariana Cabral

Octavio Passos

Partilhar

É certo que já vou um pouco atrasada, uma vez que o documentário já é do ano passado, mas só agora o descobri, por obra do acaso e do amor, conjuntamente: "This is football", da Amazon Prime, que recomendo vivamente a quem gosta de futebol, tem um episódio, o terceiro, chamado "Chance", que podemos traduzir por "sorte", "acaso" ou "fortuna", tanto faz.

Nele, Oliver Kahn, Roberto Di Matteo e Pierluigi Collina, entre outros, vão explicando a quem não vive do futebol que, muitas vezes, o jogo não é mais do que sorte e azar. Um remate à barra aqui, um cabeceamento ao poste ali, um penálti acolá. Por muito bem que se jogue, por mais ocasiões de golo que se crie, às vezes, simplesmente, não há razão que explique como é que a bola não entra dentro da baliza.

Para comprovar a teoria, o documentário recorre à final da Liga dos Campeões de 2012, quando o Bayern de Munique deu um banho de bola no Chelsea - de Di Matteo, precisamente, que hoje em dia já nem treina -, mas, sabe-se lá como, os ingleses venceram aquele jogo nos penáltis, depois de um empate a um golo no tempo regulamentar e no prolongamento. A certa altura, David Sumpter, professor de matemática aplicada na Universidade de Uppsala, na Suécia, explica que, em teoria, aquele jogo deveria ter sido do Bayern, porque, estatisticamente, os alemães tinham criado o suficiente para marcar três golos e o Chelsea, bom, o Chelsea ia defendendo como podia.

Isto tudo traz-nos, então, ao Portugal-Espanha desta quarta-feira, em Alvalade.

A minha avó sempre me disse que, quando não há nada de bom para dizer, mais vale não dizer nada, e a verdade é que, sobre a 1ª parte portuguesa frente aos espanhóis, o que se pode dizer é que foi bonito ver a seleção voltar a usar calções verdes, como manda a tradição, e como já não se via há muito tempo.

De resto, bom, de resto, praticamente só podemos dizer que ainda bem que Portugal não sofreu golos, perante uma Espanha que desde cedo dominou o jogo a seu bel-prazer.

Octavio Passos

Com muitas mudanças no onze inicial em relação ao último jogo frente à Suécia (vitória por 2-0, para a Liga das Nações,), Portugal teve sempre muitas dificuldades em responder ao que Espanha levou para o relvado de Alvalade. Na baliza, foi Rui Patrício e não Anthony Lopes a jogar; na defesa, saiu Rúben Dias e entrou Rúben Semedo, em estreia a titular (Pepe manteve-se e tornou-se o defesa mais internacional de sempre da seleção, suplantando Fernando Couto, com 111 internacionalizações); no meio-campo, Danilo e Bruno Fernandes deram lugar a Rúben Neves e a Renato Sanches; e, finalmente, no ataque, apenas Cristiano Ronaldo, claro, se manteve, com Trincão e André Silva a entrarem para os lugares que tinham sido de Bernardo Silva e João Félix.

Portugal apresentava-se num 4-3-3 aparentemente muito móvel, com André Silva na frente de ataque e Ronaldo e Trincão nas alas, mas aquele 4-3-3 (que, a defender, passou a ser um 4-4-2, com Renato a fechar pela esquerda e Trincão a fechar pela direita) raramente conseguiu contrariar o 4-3-3 espanhol, porque a seleção orientada por Luis Enrique tinha ideias mais claras sobre o que fazer com a bola e andou a suplantar a - pouca - pressão portuguesa sem grandes dificuldades, ligando verticalmente com Moreno e Rodrigo, principalmente, que, depois, por sua vez, ligavam com os médios para avançar no terreno, pelo meio, pela esquerda, pela direita.

Moreno, Olmo e Rodrigo bem tentaram, mas Rui Patrício foi a principal figura da primeira meia-hora, adiando o que ia parecendo inevitável, tal era o domínio espanhol na partida. A comprová-lo, o primeiro remate de Portugal: só aos 25', quando Renato Sanches atirou bem por cima da barra de Kepa. E pouco mais houve para ressalvar depois disso na primeira metade.

CARLOS COSTA

Na 2ª parte, Fernando Santos, que ia mostrando claros sinais de insatisfação com o que via, fez entrar Rúben Dias, Bernardo Silva e William Carvalho, para os lugares de Pepe, André Silva e João Moutinho, e a seleção conseguiu de facto melhorar, beneficiando também das mudanças no adversário: Rodrigo, Ceballos e Reguilón deram lugar a Merino, Campaña e Gayá.

O ritmo do jogo baixou claramente e, ao contrário do que sucedeu na 1ª parte, a seleção espanhola já permitia saídas bem mais perigosas da seleção portuguesa: aos 53', Ronaldo acertou na barra e, aos 67', em novo contra ataque, Renato Sanches fez exatamente o mesmo, após passe de trivela do capitão.

Do outro lado do campo, Adama Traoré, também ele estreante nestas andanças, arrancou pela direita e deu a Olmo, na área, a possibilidade de fazer o 1-0, mas Rui Patrício respondeu novamente da melhor forma, defendendo o remate do jogador do RB Leipzig.

Já com Félix no lugar de Ronaldo e Jota no lugar de Trincão, Portugal voltou a estar perto do golo, desta vez num canto: Renato cruzou, Semedo cabeceou e Félix, ao 2º poste, sozinho, não conseguiu desviar a bola para dentro da baliza.

Octavio Passos

No final, o empate ajustava-se, com uma seleção a ter estado bem melhor e quase sempre por cima, e outra a ter conseguido, mesmo assim, as melhores oportunidades de golo. Faltou, lá está, um pouco de "chance". De um lado ou de outro.

Domingo há mais, agora para a Liga das Nações. Em França, local de boas memórias para qualquer português.