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Bateram leve, levemente e a vingança não é prato que se sirva assim

Portugal foi a França e saiu de lá ainda na liderança do Grupo 3 da Liga das Nações. Foi competente, controlado, talvez um bocadinho controlado demais, sobretudo na primeira-parte, mas do outro lado estava um ex-papão que por acaso é campeão mundial e que provavelmente queria vingar uma derrota histórica. "Na realidade" - roubando descaradamente um tique linguístico a Fernando Santos - não foi nada mau e podia ter sido pior

Pedro Candeias

FRANCK FIFE

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O França - Portugal estava amarrado a um simbolismo que se revelou indesatável, apesar das tentativas esforçadas dos selecionadores das duas equipas em resolver o nó: este jogo nunca seria apenas mais um da Liga das Nações, mas sim um tira-teimas, entre os campeões do mundo e da Europa em exercício, precisamente o terreno onde quatro anos antes o segundo derrotara o primeiro, na casa deste, para conquistar o Velho Continente.

Do lado francês, foram sugeridas palavras fortes, como ajuste de contas ou vingança, rapidamente dispensadas por Lloris (o capitão) e Deschamps (o treinador) - mas a ideia estava lá plantada. Do lado português, as históricas comemorações de Paris naquela noite mágica de 2016 foram recordadas, e o pragmático Fernando Santos elogiou o “poderosíssimo” adversário, exigindo “um nível alto” aos seus jogadores - a saudade germinava.

Mas nestas coisas, como em tantas outras coisas, a memória importa e é por isso que a França entrou a respeitar Portugal e Portugal sem temer a França; depois de 2016, tudo mudou para melhor para as “quinas”.

Vejamos: a seleção portuguesa controlou quase integralmente a francesa a primeira-parte no Stade de France, algo provavelmente impensável anos atrás. Com um meio-campo reforçado com Danilo, William e Bruno Fernandes, com Bernardo Silva e João Félix nas alas e Ronaldo lá à frente - embora este desenho tenha sido bastante maleável -, Portugal revelou-se seguro, impedindo que a bola chegasse a Mbappé ou a Griezmann em lugares perigosos.

Os caminhos foram tapados eficazmente, com constantes mudanças de posição a exigirem boas articulações que se foram prolongando no tempo; e na construção a equipa não esteve particularmente obcecada em encontrar Cristiano Ronaldo, optando por uma circulação de bola paciente à procura de espaços por onde pudesse entrar na defesa francesa.

O que não aconteceu muito, é verdade - zero remates à baliza, embora tenha colecionado lances relativamente perigosos -, e foi este o pecado português, pois houve momentos em que pareceu possível arriscar mais perante a estranha apatia dos franceses. Tal não se veio verificar. Com jogadores atrevidos e criativos como João Félix, Portugal teria feito mais se assim o quisesse e disso mesmo se queixou Fernando Santos no final: quando lhe perguntaram se tinha gostado do jogo, respondeu mais ou menos.

Certamente que terá gostado mais da primeira e menos da segunda-parte. Porque a França subiu as linhas, apertou William Carvalho e Bruno Fernandes e Portugal deixou de conseguir jogar nos dois meios-campos e confinou-se ao seu. Enquanto foi capaz. Nesses instantes, valeu Pepe, um animal competitivo singular, e também Rui Patrício, que defendeu com a luva esquerda um amorti de Mbappé, depois de este ultrapassar Danilo em velocidade.

Por outro lado, Griezmann soltou-se das marcações e tentou passar em profundidade para o anémico Giroud que raramente se viu em campo desde o instante em que Rúben Dias lhe abriu a cabeça com um cotovelo, nos minutos iniciais.

O jogo, depois, partiu-se por causa do cansaço e da consequente desconcentração, inevitável num contexto destes, e a cena descontrolou-se: houve lances perigosos de ambos os lados, primeiro dos franceses e a seguir dos portugueses. Anulou-se, bem, um golo a Pepe por fora-de-jogo (73’) e Ronaldo disparou para uma defesa competente de Lloris (90’), já com Trincão, Jota, Moutinho, Cancelo e Renato Sanches em campo.

Independentemente disso, acabou como começou, zero a zero, e Portugal mantém a liderança do Grupo 3 com os mesmos pontos (sete) da França, mas com a diferença de golos a seu favor. “Na realidade” - roubando descaradamente um tique linguístico a Fernando Santos - podia ser bem pior. E a seguir vem a Suécia, a quem um certo e determinado capitão tomou o gosto de fazer golos.