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Imunes às derrotas

Sem Ronaldo, houve 'Jotaldo': Portugal dominou e venceu a Suécia, em Alvalade, com dois golos de Diogo Jota e um de Bernardo Silva - com assistência de Jota, o substituto de Ronaldo, precisamente, e o homem do jogo

Mariana Cabral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Antes de irmos àquele assunto - porque mesmo quando ele não está, ele está sempre presente -, vamos a outro mais premente: lembra-se da última vez que a seleção perdeu um jogo? Eu, ignorante me confesso, já não lembrava. Felizmente, em tempos de internet, há o Zerozero está sempre disponível para ajudar: Ucrânia 2-1 Portugal, jogo de qualificação para o Euro 2020 (agora em 2021), a... 14 de outubro de 2019. Ou seja, já lá vai precisamente um ano desde que a seleção perdeu pela última vez.

É certo que, desde então, se meteu a pandemia, mas nem Lituânia, nem Luxemburgo, nem Croácia, nem Suécia, nem Espanha, nem França, que bem tentaram, conseguiram ultrapassar a equipa de Fernando Santos.

Isto, com ele ou sem ele. Ele, claro está, é Cristiano Ronaldo, o homem de quem mais se falou esta semana (e se fala sempre, na verdade), depois de ter testado positivo para a covid-19 e de ter ficado, obviamente, afastado do jogo desta noite, frente à Suécia.

Covid à parte, porque de epidemiologia percebo pouco, a ausência do capitão frente aos suecos seria sempre uma preocupação para Fernando Santos, dado que Ronaldo marcou 7 dos seus 101 golos portugueses precisamente frente à Suécia, incluindo os dois que deram a vitória a Portugal em Solna, no mês passado, na 1ª volta do grupo 3 da Liga das Nações.

Ainda assim, mesmo com os painéis de fundo "descarregue a aplicação Stayaway covid" bem presentes em Alvalade, durante 90 minutos ninguém teve razões para se lembrar nem da covid, nem de Ronaldo, nem da covid de Ronaldo.

Carlos Rodrigues

Sem o goleador máximo da seleção, Fernando Santos enveredou pelo mesmo caminho que já tinha indicado frente à Croácia, em setembro, e que tinha funcionado às mil maravilhas (vitória por 4-1): João Félix como "referência" na frente de ataque, Diogo Jota pela esquerda (no lugar habitualmente por Ronaldo) e Bernardo Silva pela direita. Mais atrás, novamente Bruno Fernandes e Danilo no trio de meio-campo, agora com William, desta vez a ocupar a posição que tinha sido de Moutinho frente aos croatas. Na defesa, Patrício na baliza, com o quarteto habitual (ainda que Semedo tenha sido titular frente à França) à frente dele: Cancelo, Pepe, Rúben Dias e Guerreiro.

A entrada acalorada do público que voltou a Alvalade - cinco mil adeptos, com tambores à mistura -, combinou bem com o início do jogo: a Suécia - hoje sem o criativo Forsberg, por lesão - foi a primeira entrar com perigo na área portuguesa, mas Danilo interrompeu o ímpeto alheio e, do outro lado campo, imediatamente depois, foi Diogo Jota a estar perto do primeiro golo, com um remate que passou ao lado da baliza de Olsen.

Pouco depois, mais perigo ainda: numa rápida variação de jogo para a direita, William encontrou Cancelo sozinho e o lateral direito português cruzou para o segundo poste, onde apareceu, precisamente, William, a cabecear contra o poste sueco.

A mentalidade ofensiva de Portugal logo nos primeiros minutos contrastava claramente com as cautelas vistas contra a França e a seleção ia tirando proveito da fluidez da frente de ataque, com Jota, Félix e Bernardo a aproveitarem o muito espaço dado pelos suecos, montados no habitual 4-4-2.

Depois de um primeiro aviso de Lustig, que falhou a baliza quando a bola lhe foi parar aos pés, num canto, foi mesmo Portugal a chegar ao golo. Aos 21 minutos, depois de uma pressão forte da seleção, que obrigou os suecos a construir de forma atabalhoada com uma bola bombeada para a frente, Bruno Fernandes recuperou a posse e transitou rapidamente para Jota, que entrou na área e ofereceu o golo a Bernardo Silva.

A vantagem portuguesa era justa, pelo maior ímpeto ofensivo da seleção, mas os suecos nem por isso deixaram de criar perigo, até porque precisavam mesmo de chegar mais à frente: ocupam o último lugar do grupo 3 e estão em risco de baixar para a divisão inferior da Liga das Nações. Aos 35', depois de um passe de Lustig, Berg recebeu na área, livrou-se de Pepe e rematou com estrondo ao poste de Rui Patrício.

Portugal ia baixando de rendimento, ao ter menos bola do que no início do jogo, mas mesmo assim conseguiu chegar ao 2-0, num timing perfeito para acabar com as esperanças suecas, mesmo antes do intervalo. João Cancelo, aproveitando a subida do setor defensivo sueco, passou/cruzou para a desmarcação de rutura de Diogo Jota, entre o lateral e o central adversário, e o jogador do Liverpool marcou o 2-0.

Com a vantagem perfeitamente confortável para Portugal, a 2ª parte foi sempre como Fernando Santos gosta: controlada. Os suecos, inicialmente, chegaram-se mais à frente, mas a seleção respondeu a aproveitar os espaços deixados mais atrás: em contra ataque, Bruno Fernandes isolou João Félix, mas o avançado, frente a Olsen, rematou por cima.

De qualquer modo, o terceiro golo chegaria: depois de um grande passe de William, foi novamente o novo goleador da seleção, Diogo Jota, a receber pela esquerda, a conduzir para a área e a demonstrar a sua eficácia.

Com o 3-0, e já com Podence e André Silva nos lugares de Bernardo e Félix, pouco mais houve para ver, além de um remate de Bruno Fernandes, para defesa de Olsen, e de um cabeceamento de Isak, para (grande) defesa de Rui Patrício.

Os três pontos permitem a Portugal manter a liderança do grupo 3 da Liga das Nações, com 10 pontos, em igualdade com a França, assim como garantir a manutenção na principal divisão da prova, a A. Portugal, atual detentor do troféu da competição, é, aliás, juntamente com a Geórgia (esta na Liga C, ou seja, na "3ª Divisão" da Liga das Nações), das poucas seleções que nunca perderam na prova: 7 vitórias, 3 empates, 18 golos marcados e apenas 5 sofridos.

Daqui a um mês, a 14 de novembro, Portugal volta a entrar em campo, no penúltimo jogo do grupo, contra a França. Provavelmente, já com Ronaldo de volta.