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Lugar aos novos

Era um particular daqueles que ninguém queria jogar, mas lá teve de ser: Portugal goleou Andorra, obviamente, por 7-0, num jogo que basicamente só serviu para estrear Paulinho (dois golos), Pedro Neto (um golo) e Domingos Duarte. Ah, e para Ronaldo chegar ao 102º golo pela seleção, depois de várias tentativas estranhamente mais desastradas do que o habitual

Mariana Cabral

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Então é assim: fique em casa, não saia à noite, não conviva com ninguém ao fim de semana, não mude de concelho e tão-pouco de país e, obviamente, não se meta em grandes aglomerados populacionais, muito menos sem máscara.

Isto é, a não ser que seja jogador de futebol de uma qualquer seleção da Europa.

Entre Malta-Liechtenstein, Eslovénia-Azerbaijão ou Luxemburgo-Áustria, difícil era apontar o mais entendiante entre os particulares (obrigatórios, por imposição da UEFA) desta quarta-feira. A nós calhou-nos na rifa o monotónico Portugal-Andorra, que até Fernando Santos fez questão de desdenhar previamente, lamentando a falta de descanso dos jogadores.

O engenheiro, obviamente hábil na planificação de toda e qualquer estrutura, tinha razão e ela ficou comprovada logo com os casos de Inglaterra e Holanda: Joe Gomez e Nathan Ake, respetivamente, jogadores do Liverpool e do City, lesionaram-se hoje nas seleções em mais uma demonstração da inutilidade dos amigáveis no meio de um calendário apertadíssimo de jogos e, claro está, de uma pandemia de covid-19.

Mas, hélas, como o dinheiro comanda o futebol, para citar Kroos, lá tivemos então, nós e eles, de gramar com Andorra (145º classificado do ranking mundial; Portugal é 5º), num particular que acabou por só ter à partida um motivo de interesse (depois passámos a ter dois, mas já lá vamos): dar lugar aos novos.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

E foi assim que Pedro Neto se tornou o primeiro jogador nascido em 2000 a atuar na seleção - e se o leitor se estiver a sentir velho depois desta frase, aqui vai mais uma acha para a fogueira: quando João Moutinho, hoje capitão (já que Ronaldo ficou no banco e Pepe em casa), se estreou pela seleção, frente ao Egito, Neto estava em casa a brincar (possivelmente com uma bola), uma vez que só tinha cinco - isso, 5 - anos.

Além de Neto, também Domingos Duarte e Paulinho jogaram pela primeira vez na seleção, num onze que primava pelas novidades: além dos jogadores já mencionados, havia Anthony, Nélson Semedo, Rúben Semedo, Mário Rui, Renato Sanches, Sérgio Oliveira e Trincão, dispostos no habitual 4-3-3, com Paulinho lá na frente, Neto pela esquerda e Domingos no centro da defesa.

Já Andorra, bom, nunca foi propriamente adversário digno desse nome antes e também não era hoje que iria ser, até porque o campeonato do país nem sequer está a decorrer, devido à pandemia: limitou-se a fechar lá atrás, entre um 5-3-2 e um 5-4-1, com um bloco muito baixo que obrigava Portugal a circular muito bem e de forma muito rápida a bola, tanto em largura como em profundidade.

Ora foi precisamente assim que, logo aos oito minutos, Semedo cruzou, Paulinho cabeceou ao segundo poste, Sérgio Oliveira amorteceu e Neto fuzilou Josep Gomes, para marcar um golo que certamente nunca mais esquecerá.

O 1-0 comprovava desde cedo o sentido único do jogo: houve um remate de longe de Renato, um cabeceamento de Oliveira e um desvio de Paulinho, o que mostrava que a única dúvida era saber quantos golos iria Portugal marcar.

O segundo deles, à meia-hora de jogo, foi novamente de um estreante: após mais um cruzamento de Semedo (quase um extremo no corredor direito), Paulinho antecipou-se ao central de Andorra e tocou a bola para dentro da baliza.

Ao intervalo, o 2-0 pecava claramente por escasso, já que tinha havido oportunidades para mais (Renato Sanches e Paulinho poderiam ter marcado o terceiro) e Andorra nem sequer saía do próprio meio-campo, deixando Anthony Lopes como simples espectador, num estádio da Luz que, desta vez, não teve adeptos a aplaudir.

Se a estreia - feliz, acrescente-se - de Neto, Paulinho e Domingos era então o único grande motivo de interesse deste jogo, houve outro a surgir no início da 2ª parte: Ronaldo, claro. O capitão, que ainda persegue o recorde de golos de Ali Daei, entrou precisamente para ver se marcava mais uns quantos, secundado por Bernardo Silva - saíram Neto e Sérgio Oliveira.

A busca do 102º golo de Cristiano - Ali Daei terminou a carreira internacional com 109 - passou então a animar a história de um jogo que ameaçava tornar-se morno: com o ímpeto habitual, Ronaldo não deixou que isso acontecesse.

Logo aos 47', cabeceou por cima da baliza - e ainda assustou os colegas, com uma queda feia de costas -; depois, não conseguiu desviar adequadamente um grande passe de Moutinho para a área; e, por fim, congratulou-se pelo menos com uma assistência para o golo de Renato Sanches, no 3-0.

Depois do terceiro, apareceu logo o quarto, aos 61', com um novo goleador a deixar a sua marca, dada a falta de pontaria de Ronaldo: Paulinho, de cabeça, bisou, após belíssimo cruzamento de Mário Rui.

O marcador ia aumentado, o tempo ia passando e Ronaldo ia-se enervando: rematou por cima, cabeceou por cima, reclamou um penálti, fez cara feia a um adversário e ainda viu Emili García roubar-lhe o golo, ao desviar a bola para a própria baliza.

Já com William, Félix, Jota e Danilo em campo, por troca com Renato, Paulinho, Trincão e Moutinho, Portugal já parecia mais próximo do onze que deve entrar em campo frente à França, no sábado, em jogo decisivo da Liga das Nações.

E o ritmo, de facto, aumentava, mas Ronaldo continuava estranhamente desastrado: sozinho na área, a bola apareceu-lhe nos pés, mas ele nem rematou, nem a segurou.

O capitão teria de esperar pelo minuto 85 para finalmente chegar onde todos esperavam que chegasse hoje: ao 102º golo pela seleção. De cabeça, ao segundo poste, após mais um cruzamento certeiro de Mário Rui.

O jogo já estava mais do que encerrado, mas ainda houve tempo para João Félix voltar a marcar na Luz: Bernardo cruzou, William desviou de cabeça para o colega e ficou feito o 7-0.

Portugal conseguiu assim a sua sexta vitória frente a Andorra, em seis jogos, num saldo de golos que diz tudo: 29 marcados, um sofrido. Mas há também que destacar que esta vitória de hoje, embora revestida da inutilidade que se sabe, foi a maior de sempre da seleção frente aos andorranos.

Espera-se que seja um bom prenúncio para sábado, frente a França, para a Liga das Nações. Aí sim, um jogo a sério.