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“Eu e o Chalana éramos a melhor ala esquerda do país. Calei, caladinho o Eduardo Luís”: o França - Portugal de 84, por Álvaro

O primeiro encontro entre Portugal e França na fase final de um Europeu aconteceu em 1984, com vantagem para os franceses que passaram à final. Álvaro Magalhães recorda a estreia dos 'Patrícios' na competição e a boa figura que fizeram, apesar das guerras internas. E se achava que todas as histórias desta competição estava contadas, leia este testemunho do antigo defesa-esquerdo

Alexandra Simões de Abreu

Michel Barrault

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Faz 37 anos que Portugal garantiu o apuramento para o seu primeiro Europeu de futebol. Os ‘Patrícios’ ganharam à antiga União Soviética com um golo isolado de Jordão e sete meses depois estrearam-se no Euro’84, disputado em França, onde só caíram no prolongamento das meias finais, precisamente frente aos anfitriões.

Álvaro Magalhães recorda esse momento em que a seleção nacional de então encarou “olhos nos olhos” o jogo com os franceses, num cenário e ambiente completamente diferente daquele que vai ser vivido amanhã, às 19h45, no estádio da Luz. Álvaro não tem dúvidas “foi uma campanha boa”. “Quando nos apurámos para o Campeonato da Europa de 1984, naquele jogo contra a União Soviética no fantástico estádio da Luz, repleto de gente, a tarde estava muito chuvosa. Mas depois de garantirmos a qualificação, Portugal sentia-se diferente. Os jogadores e o povo português sentiam que estávamos no caminho certo. Tínhamos jogadores de nível mundial para chegarmos ao campeonato da Europa, em França, e conseguirmos bons resultados”, recorda.

Mas será que passava pela cabeça da seleção e dos portugueses chegar tão longe? “Claro que não. Portugal pensava sempre pequenino, normalmente pensava-se ‘vamos lá competir e seja o que Deus quiser’ ”, garante o antigo lateral esquerdo do Benfica.

Na altura, a seleção dos ‘Patrícios’ como ficou conhecida, era formada sobretudo por homens do Benfica e do FC do Porto e a rivalidade fazia-se sentir. Com nove jogadores do FCP e oito do Benfica, “houve alguma instabilidade, porque todos queriam jogar e havia quatro treinadores, quatro cabeças a pensar: o Fernando Cabrita, o José Augusto, o Toni e o António Morais”.

Este último era o único “representante” do FC Porto. Reza a história que houve um acordo de cavalheiros feito ainda em Lisboa, em que os quatro treinadores acederam dar o direito de desempate a Fernando Cabrita, “e bem”, diz Álvaro, por ser o mais velho. “O José Augusto também tinha grande peso e o António Morais tentava naturalmente puxar pelos jogadores do Porto. O Toni punha-se um bocadinho à parte, não queria confusões”, descreve, acrescentando que “é verdade que havia uma rivalidade muito grande entre os jogadores do norte e do sul, havia uma guerra nos treinos porque toda a gente queria jogar”, mas que isso “era normal.”

Embora faça questão de realçar que sempre se deu bem com todos, Álvaro não esconde que, na sua posição, houve um jogador do FC Porto, o Eduardo Luís, que “criou um zigue-zague”. “Eu sabia que ele andava ali a picar, a contestar com o António Morais, a ver se pegava. Mas como é que ele queria jogar se eu e o Chalana éramos a melhor ala esquerda do campeonato português, como se provou aliás no campeonato da Europa? Eu tive de calar o Eduardo Luís com trabalho dentro do campo, pronto, ficou caladinho. O Fernando Cabrita não foi na conversa e optou pelos melhores jogadores”.

Rivalidades à parte, vamos ao que interessa. O jogo jogado e o caminho até as meias-finais com a França que Portugal acabou por perder por 3-2, aos 119 minutos. “Quando empatámos com a Alemanha e depois fizemos um jogo de outro mundo contra a Espanha e a seguir ganhámos à Roménia, sabíamos que a França ia ser um adversário difícil, porque tinha jogadores de grande qualidade. Mas nós também tínhamos [qualidade], inclusivamente jogadores que tinham jogado esse ano contra o Platini, que estava na Juventus. Sentimos que tínhamos qualidade e capacidade para ganhar à França”, diz o agora treinador, realçando que “a prova disso é que não fomos uma equipa que pôs o autocarro lá atrás, não, nós jogamos olhos nos olhos, a atacar e a defender, sempre com espírito de ganharmos o jogo à França, ainda por cima em sua casa”.

“O Eriksson regressou ao Benfica rico e sem personalidade. Já não era pobre, sabe como é o dinheiro: doutores há muitos, médicos poucos”

Na primeira parte da entrevista, Álvaro Magalhães conta como foi entrar no balneário dos 'minhocas', na Luz, que ficava mesmo em frente ao dos 'cobras' - e o que isso significava para quem lá andava. E também percorre uma galeria de treinadores que foi apanhando no Benfica e noutros clubes, revela atos eleitorais questionáveis em tempos idos - e critica alguns colegas no caso Saltillo

Os franceses foram os primeiros a marcar, com um golo de Jean-François Domergue, aos 25 minutos, na transformação de um livre direto. Foi preciso meia hora para Portugal ganhar nova esperança, com um cabeceamento de Rui Jordão que permitiu o empate.

Fim do tempo regulamentar, veio o prolongamento.

“Eles só nos venceram após prolongamento porque aí é que nos faltou uma experiência maior, às vezes é preciso aquela frieza nos momentos finais. Mas a ambição era tanta, nós sentíamos que estávamos a jogar bem e que podíamos ganhar à França que andávamos sempre a atacar, a defender...Faltou-nos ali um bocadinho de sorte também”, diz Álvaro, recordando que “o Nené quando entra [aos 62 minutos] tem duas oportunidades flagrantes na boca da baliza e o guarda redes, o Barts, é que faz duas defesas fantásticas. Podíamos ter matado ali o jogo. No prolongamento estávamos a jogar com uma equipa de ataque, Jordão, Nené, Fernando Gomes, com um Chalana fantástico”.

A verdade é que Portugal entrou muito bem no prolongamento com um bis de Jordão logo aos 98 minutos. Mas não durou muito. “O golo de empate surge de uma falta de concentração, a bola anda ali dentro da área, com muita gente lá dentro, toca numa perna, toca na outra e vai para o Domergue que acaba por fazer o golo do empate”

Até que a um minuto do fim vem o balde água fria, atirado por Platini. “Se um dos nossos jogadores tivesse feito uma falta no meio campo, acabava a jogada ali e tínhamos ido para as grandes penalidades. Mas houve jogadores que já tinham cartões amarelos e não queriam levar mais nenhum. Acabou por ser um contra-ataque que terminou com um golo do Platini e com a partida”.

Apesar da tristeza que todos sentiram, Álvaro Magalhães considera que Portugal deixou uma boa imagem ao obrigar a França a sofrer muito nos meias-finais e diz que essa foi a rampa de lançamento os campeonatos do mundo e da Europa que se seguiram.

Olhando agora para as duas seleções, de Portugal e de França, que se defrontam amanhã, às 19h45, no estádio do Benfica, para a Liga das Nações, considera que a única diferença de hoje para o seu tempo são as condições de trabalho. “Não se podem comparar as seleções de agora com as de há quase 40 anos. As condições de trabalho melhoraram muito. Continuam a ser duas seleções muito fortes e se nós não fizemos mais na altura, foi porque muitos daqueles jogadores já estavam em final de carreira”. Mas chama a atenção para o facto de Fernando Santos “ter à sua disposição um grupo melhor do que o teve quando foi campeão da Europa em 2016. Tem jogadores com mais qualidade, com outras características. Neste momento tem mais opções e de mais qualidade do que tinha se calhar quando ganhou em França há quatro anos”.

Em conclusão, diz que a nossa seleção tem grandes hipóteses de vencer amanhã, porque “está muito forte em todos o aspectos, não só dentro de campo”. “Tenho de realçar a equipa técnica liderada por Fernando Santos, é fantástica. Não é preciso ter muitos na equipa técnica, mas poucos e bons. Eles são justos para todos os jogadores, há um bom equilíbrio dentro e fora do campo. O presidente da federação e a sua estrutura também dá as melhores condições aos jogadores, não falta nada à seleção, que é preparada com tempo e horas e boa organização, coisa que não havia há 40 anos”, remata.

No fim de contas a maior das diferenças que se vai sentir entre o jogo de amanhã e o das meias finais de 1984, é a banda sonora. Sem a vibração de um estádio cheio de espectadores a festa nunca será a mesma.