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N'Golo bastou

Num jogo em que houve mais França do que Portugal, um golo de N'Golo Kanté bastou para os campeões mundiais afastarem os campeões europeus da final four da Liga das Nações

Mariana Cabral

Baptiste Fernandez

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Liga das Nações, Europeu, Mundial? Quem olhasse para o Portugal-França desta noite desconhecendo de que jogo se tratava provavelmente não saberia distinguir que prova estava em disputa e isso é, na verdade, um elogio a todos os envolvidos.

De um lado o campeão mundial; do outro, o campeão europeu e detentor da Liga das Nações. O resultado desta combinação: uma espécie de final. Não foi o último jogo da Liga das Nações (nem do Euro, nem do Mundial), mas era um jogo que todos sentiram como decisivo, porque o vencedor passava diretamente para a final four da Liga das Nações e porque cada um sabia bem do que precisava para tal: a França, de uma vitória ou de um golo que permitisse ganhar vantagem no confronto direto (já que em território francês o jogo terminou sem golos); Portugal, de um empate sem golos.

E foi precisamente essa teoria que se verificou na prática: Portugal sempre mais preocupado em não sofrer, a França sempre mais preocupada em marcar o golo que faria a diferença. E foi isso que fez a diferença.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O 0-0 no final da 1ª parte era elogioso para Portugal e, particularmente, para Rui Patrício, que negou duas ocasiões de golo a Coman e a Martial - e a trave ajudou na terceira tentativa, num livre estudado que foi parar à cabeça do avançado do Manchester United, já em cima da pequena área.

Os franceses não tinham Mbappé a dar profundidade pela esquerda (ficou na bancada, lesionado), mas tinham Griezmann solto pelo corredor central, a receber à frente do setor defensivo português, e nem a integração de Danilo e William no meio-campo impediu o ímpeto ofensivo adversário.

Pelo contrário, o meio-campo de Portugal, que também tinha Bruno Fernandes, pouco se aventurou na frente, baixando sempre muito fora do bloco francês para receber, o que limitava a quantidade de linhas de passe na frente e, consequentemente, a progressão vertical.

Bernardo Silva, pela direita, praticamente não recebeu a bola, já que Cancelo também esteve sempre muito retraído, parecendo mais um terceiro central do que um lateral, e cabia a Félix, pela esquerda, e a Ronaldo, que andava livre mas também se ia encostando bem mais à esquerda, a tarefa de levar a equipa para a frente.

Foi quase sempre por aí, pelo corredor lateral esquerdo, que Portugal foi tentando avançar, com Guerreiro a apoiar Félix e Ronaldo, mas as tentativas foram infrutíferas, com exceção para um remate perigoso de Ronaldo logo a abrir, após combinação com o lateral esquerdo luso.

Se a entrada para a 2ª parte poderia indiciar uma metade diferente - Ronaldo esteve perto do golo, num livre direto/cruzamento ao segundo poste -, o pendor da 1ª parte acabaria por se confirmar logo aos 53 minutos. Após combinação entre Rabiot e Griezmann, o médio da Juventus entrou na área, rematou e, desta vez, Rui Patrício não repetiu o brilhantismo anterior, defendendo a bola para a frente, onde apareceu, terrivelmente oportuno, N'Golo Kanté a desviar para o 1-0.

A desvantagem de Portugal mudava o desfecho esperado - era agora a França a estar com um pé nas meias-finais da Liga das Nações - e Fernando Santos reagiu imediatamente: saiu William e entrou em campo Diogo Jota, o excluído do tal quarteto - com Ronaldo, Félix e Bernardo - que o selecionador disse que não poderia jogar ao mesmo tempo.

Aí, passou a haver mais Portugal do que França e o empate esteve muito próximo: Guerreiro, com um remate de longe, obrigou Lloris a brilhar e, na sequência, após cruzamento de Bernardo, José Fonte acertou no poste.

Baptiste Fernandez

Depois, Fernando Santos voltou a mexer, fazendo entrar Moutinho e Trincão, para os lugares dos apagados Bruno e Bernardo, e a seleção voltou a criar perigo: um lance individual de Ronaldo acabou com um remate fortíssimo de Moutinho em direção à baliza, mas Lloris fez a defesa da noite, desviando uma bola que parecia endossada ao ângulo.

Nos últimos minutos, já com Paulinho também na frente, por troca com Félix, Portugal ia tentando aproximar-se da área pelos corredores laterais, numa altura em que, agora sim, Cancelo já subia pelo corredor direito, mas as ocasiões de perigo não iriam surgir.

Portugal era castigado pelo excesso de zelo da 1ª parte e perdia, assim, a oportunidade de voltar a disputar o troféu da Liga das Nações. A França somou 13 pontos - mais três do que os portugueses - e avançou na prova, com uma jornada ainda por disputar.

Portugal encerra a sua participação no grupo 3 na terça-feira, frente à Croácia, num jogo que só decidirá se serão os croatas ou os suecos a descer para a "2ª divisão" da Liga das Nações.