Tribuna Expresso

Perfil

Portugal

Diagnóstico: sem pesadelo, sem azia, mas também sem ser bonitinho

Portugal sofreu um golo em 45 minutos contra 11 croatas e outro nos 40 minutos que jogou já só frente a 10 adversários. A seleção jogou quase uma parte com mais um jogador em campo, marcou três golos, mas foi sempre lenta nas transições defensivas e a reagir às perdas de bola. Acabou por marcar nos descontos - Rúben Dias bisou - e recuperar o resultado (2-3), mas não resgatou a qualidade de jogo e, no final, ouviu das boas de Fernando Santos, o diagnosticador da seleção

Diogo Pombo

Pixsell/MB Media

Partilhar

Fossem os paralelismos uma certeza e ele médico, nalgum universo paralelo, Fernando Santos seria então o médico dos médicos no que toca ao diagnóstico de um paciente que lhe aparecesse à frente. Entrar-lhe-ia pelo consultório, alô doutor, e nem precisar de o perscrutar, de ir ao estetoscópio ou de pedir raio-x, ecografias, eletrocardiogramas ou exames vários. Bastar-lhe-ia observá-lo durante hora e meia.

Porque, no seu ‘eu’ de selecionador, Fernando Santos é a personificação de uma mira infalível e a cada encontro feito pela seleção, logo minutos depois de terminar ou na conferência de imprensa pós-jogo, já com tempo para matutar, identifica tudo o que bom, mau ou assim-assim aconteceu e na derrota aniquilante contra a França voltou a prová-lo.

Parafraseando-o, Portugal foi tímido e empurrado para trás porque concedeu muito espaço sem bola e, quanto a tinha, a timidez retirou-lhe capacidade para a circular rápido e progredir no campo. Transplantando isto para a Croácia, onde nem um feijão havia pelo qual jogar, a seleção entrou no jogo e durante muito tempo da primeira parte pareceu ter ouvido o diagnóstico.

Com bola, os jogadores mais próximos estavam e cada posse não era uma rede de passes esperançosos e arriscados como o foram contra a França. A presença irrequieta de Moutinho ligava muitos passes verticais com poucos toques e um pouco por toda a parte, fazia por circular a bola rapidamente e, sobretudo, com Jota ou Félix, mais o lateral do respetivo lado.

Depois, o atacante que sobrava ia farejar ao centro, mantinha-se no quintal de Ronaldo, aqui com arraiais um pouco mais assentes na área, onde deve estar por ser dos melhores finalizadores, rematadores e arranjadores de espaço que o futebol verá, em vez de dali fugir em qualquer jogada só para tocar banalmente na bola em sítios inofensivos do campo. Ainda o fez, mas não tantas vezes.

Tricotando e tabelando jogadas ao primeiro toque, Rúben Dias quase desviou um cruzamento, a cabeça de Ronaldo raspou uma bola curvada e Jota tabelou artisticamente com o capitão para receber na área e lhe bloquearem o remate por um triz.

Só que isto era apenas a parte boa no yin-yang.

Pixsell/MB Media

A má apareceu logo no relvado, um batatal que travava a bola e a fazia saltitar. "Os jogadores até pediram para se regar antes do jogo", disse e diagnosticou Fernando Santos, no final. Depois, também na pressa que Portugal teve em forçar jogadas rápidas. E nas bolas perdidas no segundo terço do campo, onde houve várias e em cada uma a seleção era lenta a reagir e corrigir posicionamentos, a Croácia acabava sempre as transições rápidas com um remate.

Na que lhe deu o 1-0, Mário Rui concentrou-se apenas no adversário que tinha à frente, foi atraído, Rúben Semedo não encurtou o espaço e Pasalic recebeu um passe nessa terra de ninguém. Cruzou para Kovacic, que marcou na recarga à palmada para a frente de Rui Patrício.

Houve outros sustos menos assustadores, mas semelhantes na forma, porque a pressa em querer trocar a bola rápido e com poucos toques fazia errar alguns, como o anormalmente letárgico Bruno Fernandes ou o insistente João Félix em atrair mais e mais quem o pressionava de perto, dando demasiados toques na bola - e continuando a interferir nas jogadas à esquerda, junto à linha, longe do centro do campo onde nasceu para ser um perigo iminente para os outros.

Ainda nem tempo havia, na segunda parte, para ver se Portugal ia corrigir estas falências, quando Marco Rog fez uma falta a uns 30 metros da própria baliza, viu o segundo amarelo que o expulso e deixou um livre para Cristiano bater a bola com a pancada seca que a faz subir e descer com os tremeliques habituais. Livakovic desviou-a para a frente e Rúben Semedo fez da recarga um passe para o lado, onde Rúben Dias fez o 1-1.

A seleção - já num 4-4-2 assumido - teria 40 minutos com mais um jogador em campo, para onde Trincão entrou ao intervalo e se tornou num foco de critério tabelador, para fazer a equipa progredir com ele. Fernando Santos identificou-lhe, no fim, a capacidade de ser reboque e elogiou-o. E contaram-se oito até Rúben Dias, à distância, lançar um passe longo para Diogo Jota o receber nas costas de um central, na área, com a ajuda de um toque da bola na mão que o árbitro não viu (nem havia VAR para ver por ele), para passar a João Félix que fez o 1-2.

A seleção já era certeira e rápida a trocar a bola, ligava jogadas a alargar a linha defensiva adversária e recuperou o resultado - porém, sem resgatar a qualidade do seu jogo.

Pixsell/MB Media

Mesmo com vantagem no número de corpos em campo, esses locomoviam-se lenta e tardiamente quando a equipa não tinha a bola e, sobretudo, ao perdê-la, porque continuava a ficar sem ela por culpa própria e a deixar que a Croácia a acelerasse por fora e filtrá-la para dentro quando se acercava da área. O 2-2 surgiu assim: com meia equipa portuguesa a recuar a passo, a outra metade apenas a manter a posição na área, Vlacic a captar o cruzamento e a atrasar um passe para Kovacic rematar.

A partir daí houve fases más de Portugal, demasiadas. Durante uns 10/15 minutos, a Croácia teve a bola e trocou-a quase à vontade, os 35 anos de Luka Modric a influenciarem e perfumarem mais as jogadas do que quando havia os mesmos números em cada equipa. Diz muito do indomável médio do Real Madrid, diz ainda mais da passividade que a seleção apresentou, sem bola, até contra 10 jogadores.

O inevitável recuo dos croatas aconteceu, encavalitaram-se na área e formaram duas linhas coladas à baliza. O último quarto de hora teve a bola com Portugal e a genica de Moutinho a tentar dar-lhe ritmo com Bernardo Silva ao centro, a ir e vir sem vivalma com quem combinar porque Ronaldo, Paulinho, Sérgio Oliveira e até Trincão encostados entre a maralha adversária, dando-se pouco a combinações entre linhas e apenas esperando por tentativas lançadas para a área.

A “tentar, a tentar e a tentar”, diagnosticaria o selecionador quando tudo acabou. Uma dessas tentativas, num canto, fez Livakovic largar a bola e Rúben Dias aproveitar o erro para bisar e salvar o resultado para Portugal, salve-se isso, “a única coisa boa foi a vitória”, reconheceria também no fim, agastado pela exibição assim-assim, a falar em atitude, intensidade e mentalidade que o desagradaram neste jogo e no anterior.

Foi tempo de mais um diagnóstico acertado e assertivo de Fernando Santos e, por tanto ser assim, não é altura para o parafrasear, mas para o citar: “Voltámos a não ter nenhuma intensidade no jogo na primeira parte, o campo era difícil, a bola parava muito e tal, mas temos que nos adaptar à realidade das coisas. Porque os jogos não se ganham só bonitinho, só bonitinho ninguém ganha a ninguém”.