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Fernando Santos: "Na teoria é tudo muito bonito, mas não conta para nada, não dá pontos. O que temos de fazer é conhecer o adversário"

Na longuíssima conferência de imprensa de antevisão ao jogo de quarta-feira, contra o Azerbaijão (19h45, RTP1), que marca o arranque da qualificação rumo ao Mundial de 2022, o selecionador nacional lembrou a peculiaridade desta janela de jogos de março, do adversário que haverá para desmontar, da lesão que o fez dispensar Raphaël Guerreiro. E respondeu, claro, a perguntas sobre Cristiano Ronaldo

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Jonathan Moscrop/Getty

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Ser campeão do Mundo é um sonho?

"Não é sonho. Sonhar é importante, mas o fundamental é acreditar que o sonho é possível de concretizar. Se só sonharmos, depois podemos acordar com um pesadelo. Sempre afirmámos desde o início que Portugal tem capacidade, qualidade e organização para lutar por qualquer prova em que participe nas fases finais.

Desde sempre disse aos jogadores que temos de chegar às fases finais e, depois, lutar pelo objetivo. Já o fizemos no Campeonato da Europa e da Liga das Nações, mas para isso temos de lá estar, se dermos como adquirido que vamos lá estar quando ainda nem jogámos a fase de apuramento, é um erro tremendo.

Vamos ter agora três jogos, um cenário completamente distinto do normal, costumamos jogar dois em cada janela, o que ao nível do treino e da disponibilidade física dos jogadores é completamente diferente, ainda ontem [segunda-feira] falei sobre isso com os jogadores. Normalmente, março é uma janela de jogos particulares, para preparar uma grande competição, esta não só não é assim, como encerra logo três jogos de apuramento para o Campeonato do Mundo e num grupo que só tem oito jogos, com cinco equipas. Cada jogo é uma final e temos de os encarar como tal.

Reconhecemos a condição de favorito, mas, se não estivermos totalmente focados nem respeitarmos o adversário, se em campo não pusermos todas as nossas mais-valias e qualidades, podemos ter problemas. Na teoria é tudo muito bonito, mas não conta para nada, não dá pontos. Tenho confiança absoluta nos jogadores e na disponibilidade que têm tido ao longo destes seis anos."

O jogo com o Azerbaijão

"Iremos aprofundar um pouco o que é a equipa do Azerbaijão, não vamos mudar a nossa estratégia e as nossas dinâmicas, nem fazia sentido, não vamos ter oportunidade para treinar nestes 10 dias e alterar o que fosse seria um erro crasso, não haveria identificação.

Cada um destes jogadores vem de clubes muito vários, não se pode alterar muitas coisas dentro das nossas dinâmicas. O que temos de fazer é conhecer o adversário, saber que nos vai naturalmente criar dificuldades, que, fruto do posicionamento da sua equipa e da nossa equipa, vai jogar praticamente em 35 ou 40 metros e temos de encontrar as dinâmicas certas para resolver as questões que nos irá colocar, além das situações de contra-ataque.

O treinador desta equipa [Di Biasi] era o selecionador da Albânia quando cheguei aqui à seleção e foram dois confrontos muito ricos - na Albânia, ganhámos por 0-1 já no fim e ele normalmente monta bem as equipas para o contra-ataque. Vamos mostrar aos jogadores um bocadinho da equipa do Azerbaijão para eles terem noção."

Ausência de Pepe

"Não podemos, nem devemos pensar nisso. Todos sabemos da qualidade do Pepe e do que tem representado ao nível da seleção, mas o Pepe não esteve em algumas ocasiões e a equipa respondeu bem. Se não estivesse o Rúben [Dias] também perguntariam se fazia falta.

Todos os jogadores fazem falta, mas a partir de um determinado momento só fazem falta os que cá estão."

O cansaço

"A normalidade é que, nesta fase da época, a maioria dos jogadores já vem com 40 ou 50 jogos atrás, com grande stress de Liga dos Campeões, por exemplo, e no passado esta janela de março sempre foi de jogos particulares em que o treinador aproveitava para, aí sim, ter alguma planificação de futuro. Neste caso, não podemos fazer isso, ainda para mais quando vamos ter três jogos oficiais. Todos sabemos que vamos ter muito cuidado com os jogadores para os ter bem fisica e mentalmente. Não vale a pena chorar ou lamentar, porque a verdade é esta e eles sabem, alguns nunca tiveram a oportunidade de estarem numa fase final."

Rui Silva e Raphaël Guerreiro não treinaram

"O Rui teve um traumatismo ligeiro no domingo, penso que estará em condições. O Raphaël vai ficar de fora, tínhamos a convicção que, com esta lesão - que já tem cerca de três semanas -, podia chegar à seleção e eventualmente não estar pronto para o primeiro jogo, mas que poderia evoluir favoravelmente para poder participar e ajudar a equipa.

Mas, depois da análise feita, chegámos à conclusão que dificilmente chegaria às condições ideais para defender as cores de Portugal, portanto hoje [terça-feira] o jogador irá regressar a Dortmund. Está fora destes três jogos e, neste momento, não o irei substituir."

O jogo ser em Turim

"Os problemas têm uma coisa boa: obrigam-nos a criar soluções. Se ficássemos com os problemas não íamos jogar. O que nos compete é criar soluções, viemos para Turim e pronto, seria dar um tiro no pé se fosse falar com os meus jogadores e dissesse 'ah, isto vai ser muito difícil porque o Pepe não está e o Manel não vem'. Em vez de ficar limpa, a cabeça deles ficava completamente cheia.

Tinham logo um álibi para o jogo e depois diziam que não tinham conseguido por causa destes problemas todos. Isso não existe. É com estes jogadores que vamos ganhar estes três jogos."

O desafio contra o Azerbaijão

"Nós próprios. O nível de concentração e paixão que pusermos em campo, porque qualidade temos, isso não há questão. Como temos mostrado ao longo destes seis anos, manter sempre a nossa identidade e sempre com a atenção de que o adversário nos pode causar dificuldades.

Depois, derrubar a muralha que nos será colocada. Seguramente que a equipa do Azerbaijão vai jogar com uma linha baixa, procurando limitar os espaços, com muita gente na sua zona frontal para nos condicionar a capacidade de criar condições e dificilmente teremos situações de contra-ataque [ofensivos].

No confronto com equipas de nível mais perto do nosso, há sempre esses espaços, porque procuram jogar em ataque posicional e em subir as suas linhas e isso liberta espaços nas costas. Aqui não haverá tanto essa oportunidade, vamos encontrar um muro mais fixo, há que ter imaginação e boa circulação de bola com o objetivo claro de haver finalização.

Não basta fazer circulação, rodarmos a bola à direita, à esquerda, à direita e à esquerda e ficarmos com a boa sempre a 30 metros da baliza do adversário. Vamos ter que fazer isso bem, retirar os jogadores e, depois, com a nossa qualidade individual no um contra um ou para encontrar soluções dentro da área, tentar concretizar. Sempre com a atenção de não sermos surpreendidos no contra-ataque.

Vamos, seguramente, ter de jogar dentro do meio-campo adversário e sabendo que há muito espaço nas costas, é importante estarmos muito concentrados na transição ataque-defesa, para reagirmos rápido. Porque, muitas vezes, estes jogos ganham-se assim: obrigando o adversário a cometer erros.

Perante uma floresta de pernas é muitas vezes difícil de encontrar o espaço certo para conseguirmos ser nós a criar as oportunidades. Elas muitas vezes surgem quando pressionamos e obrigamos o adversário a errar. Ou através das bolas paradas. Se estivermos totalmente focados, não tenho dúvidas que Portugal irá vencer. Em primeiro lugar, teremos de ser nós a eliminar o grau de dificuldade."

O apuramento para o Mundial

"Não vamos chegar à fase final do Campeonato do Mundo porque já lá chegámos muitas vezes, isso não conta para nada. O que temos de pensar é que temos de lá estar e para lá estar temos de ir jogo a jogo e chegar ao primeiro lugar, que nos dá o apuramento direto."

A Liga das Nações não valeu? Quando não conseguimos lá chegar à fase final, perante o campeão do Mundo, parece que tinha caído o Carmo e a Trindade. O apuramento para a Liga das Nações reúne as 16 melhores equipas da Europa. Esta é a sétima fase de qualificação que faço [entre Grécia e Portugal] e sempre marquei como objetivo estar presente na fase final."

Nuno Mendes vai estrear-se já?

"Amanhã [quarta-feira] darei a equipa aos jogadores e logo vocês verão. Qualquer jogador que está aqui não tem nada a ver com a idade ou ser a primeira vez. Confio em qualquer jogador que está aqui, portanto, qualquer um estará apto para jogar amanhã."

(depois, as perguntas dos jornalistas italianos.)

A pergunta sobre Ronaldo: conversou com ele sobre a Juventus?

"Fui pela primeira vez treinador do Ronaldo em 2003, quando ele tinha 18 anos, sempre conversámos muitas vezes como amigos, neste caso entre treinador e jogador, se ele precisar de conversar comigo sobre esse assunto, direi aquilo que penso. Não me compete responder aqui."

Mais Cristiano e mais Juventus

"Desde muito novo que o Ronaldo representa a seleção nacional, sempre com a mesma paixão e alegria e isso sente-se sempre que cá vem, na forma como interagem com todos. Aproxima-se sempre dos outros porque adora estar aqui e não tenho dúvida que, em termos mentais, estará fortíssimo.

Receção excelente, condições de trabalho fantásticas, o centro de treinos da Juventus é ótimo para trabalhar, é como se estivéssemos em casa. Quero agradecer à Juventus e a todo o seu staff por esta oportunidade e aos responsáveis da FPF. Até tive oportunidade de encontrar um médico que trabalhou comigo na Grécia."

"Se tudo correr bem, sei que o Cristiano tem sempre essa ambição de conquistar títulos. O único título que lhe faltará na carreira é um Campeonato do Mundo, de resto, já conseguiu tudo ao nível de clubes e na seleção já conquistou duas grandes provas. Mas não é só ele - todos os meus jogadores estão empenhadíssimos em lutar para vencer.

Mas todos sabem que têm de começar por ganhar o jogo de amanhã, caso contrário, não terão essa oportunidade."