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Portugal

Foi o contrário do que o selecionador tinha dito

Portugal ganhou por 1-0 ao Azerbaijão no primeiro de três jogos da fase de qualificação para o Mundial de 2022 que fará em seis dias. Mas fê-lo cruzando e cruzando a bola para área durante a primeira parte (quando surgiu o auto-golo) e trocando-a lenta e previsivelmente na segunda

Diogo Pombo

Emmanuele Ciancaglini/Quality Sport Images/Getty Images

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“Não basta fazer circulação, rodarmos a bola à direita, à esquerda, à direita e à esquerda e ficarmos com a boa sempre a 30 metros da baliza do adversário. Vamos ter que fazer isso bem, retirar os jogadores e, depois, com a nossa qualidade individual no um contra um ou para encontrar soluções dentro da área, tentar concretizar.”

Fernando Santos não é bruxo, foi é sábio a ligar os pontos óbvios; não se lhe descortinou uma bola de cristal, falou é em cima da experiência própria e das análises que lhe chegaram, quando disse isto e, que informação dramática, com os minutos cabidos numa mão se confirmou a postura dos azeris, compactados na própria metade do campo sem bola e quase todos, sempre, atrás dela. O exercício de coçar a cabeça era o que vinha depois.

Com tanta gente e respetivas pernas no caminho, que os portugueses fizessem a bola circular rápido entre pés, com jogadores dentro do bloco adversário e na largura, a variar os passes para não os limitarem a desenharem um “u” em torno do Azerbaijão e se condenarem ao ramerrame de terem a bola só por ter, longe da baliza. Com todos os presentes rendidos à inevitabilidade de a bola ser propriedade de uma equipa, Portugal foi optando por duas coisas também evidentes: manter André Silva e Ronaldo na área e tentar muitos cruzamentos na direção das suas cabeças.

Gerindo a bola sem estorva de maior até aos últimos 30 metros do campo, onde, só com Ronaldo de quando em vez a fugir um pouco da área se oferecer em apoio, ao primeiro toque, a seleção nacional insistiu, sobretudo, pela direita durante meia hora. Lá estava o pé esquerdo de Pedro Neto, colada à linha para beneficiar da dinâmica trazida por Bernardo Silva e João Cancelo do Manchester City - o lateral a jogar por dentro e o médio amicíssimo da bola a tocar-e-ir constantemente.

O jogador livre saído destra tríade era, quase sempre, o extremo do Wolves, que alternava o ocasional ir para cima de azeris com a opção primordial de cruzar a bola para a área. Fê-lo 13 vezes, metade dos cruzamentos que Portugal tinha ao intervalo, sem com isso lograr desposicionar, baralhar os apoios de pés ou incomodar os adversários.

O mais perigoso veio de remates à distância (Rúben Neves e Cancelo, este repetidamente) e de um passe picado por Ronaldo, no seguimento de um canto curto, recebido pelo peito de Domingos Duarte quase na pequena área, onde rematou sem acertar na baliza. Do lado esquerdo do ataque, devido à atração de Cristiano pela área, a relva era toda para a adolescência estreante de Nuno Mendes, onde uma das duas bolas que cruzou sobrou, na ressaca, para Rúben Neves a arremessar de volta para a área. O ricochete azarado (36’) entre os azeris Magomedaliev e Medvedev gerou o 1-0.

Jonathan Moscrop/Getty

A ladainha dos cruzamentos amainou na segunda parte. A seleção tentou ligar mais jogadas pelo centro, onde o desgarrado Azerbaijão deixava bastante espaço entre a linha defensiva e os médios. Bruno Fernandes teve 45 minutos para os explorar no passe, Bernardo Silva andou mais pelas costas de azeris do que ao largo deles, Rafa também entraria para espreitar pelas brechas do bloco adversário.

Mas, de forma reincidente, as posses de bola portuguesas eram lentas e previsíveis. Quem a tinha nos pés via, à frente, poucas opções de passe a movimentarem-se, tomavam-se decisões esperadas e, com o tempo, o Azerbaijão deixou de esperar sempre; arriscou projetar mais gente para a frente, deu um quê de arrojo a construir pela relva e chegou três vezes à área de Portugal.

"Perante uma floresta de pernas é muitas vezes difícil de encontrar o espaço certo para conseguirmos ser nós a criar as oportunidades. Elas muitas vezes surgem quando pressionamos e obrigamos o adversário a errar."

É pouco, de facto pouco fez por lá, só que a veleidade azeri cresceu proporcionalmente ao marasmo de Portugal no trato da bola e na reação às (mais) vezes em que a perdia, agora também a mais metros da baliza contrária. Houve uma receção orientada de Bernardo Silva pelo centro, para se livrar de um corpo e conduzir até rematar (67’) à entrada da área; haveria um remate do embalado Bruno Fernandes (77’), no final do único contra-ataque rápido da seleção, e pronto.

Haver uma transição ofensiva vertiginosa refletia a afronta na partida do Azerbaijão, feito apenas de azeris que jogam no próprio país. Não conseguindo a seleção ligar jogo com bola, com perigo e com critério, o adversário atreveu-se no marasmo que chegou para Portugal ganhar, e pronto, foi uma vitória no primeiro de três jogos em seis dias. Em treino de campo, haverá pouco ou quase nenhum tempo para consertar o que seja.

Em análise, na teoria, palestrando, mostrando e corrigindo com os jogadores é o que Fernando Santos presumivelmente fará, falando como o fez na antevisão. Ser ouvido é uma parte, a outra é a seleção jogar consoante as palavras do selecionador.