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Portugal, precisamos de falar destas segundas partes

A seleção nacional empatou na Sérvia (2-2) depois de desperdiçar na 2.ª parte uma vantagem de dois golos que trazia após uns primeiros 45 minutos de grande qualidade. Tal como frente ao Azerbaijão, depois do intervalo a equipa partiu-se, desorganizou-se e nem os erros de arbitragem poderão maquilhar a realidade: Portugal tem muito mais qualidade que a Sérvia e desperdiçou dois pontos por erros (e atitude) próprios

Lídia Paralta Gomes

PEDJA MILOSAVLJEVIC/Getty

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Em Portugal não temos a tradição das intervenções, mas todos nós já vimos demasiados filmes e séries norte-americanas para sabermos o que é: uma série de amigos junta-se e, quando outro amigo com problemas aparece, tenta-se colocar juízo na sua cabeça, normalmente utilizando um discurso pré-preparado, pungente, que faça o indivíduo que anda por maus caminhos refletir sobre os seus erros e repensar o caminho que leva a sua vida.

Se tudo correr bem, fulano a quem se fez a intervenção percebe a dor dos amigos e decide mudar de comportamento.

Neste arranque de qualificação para o Mundial, e imagino que até já lá tenham chegado, a seleção nacional é o amigo com um problema. E esse problema chama-se segundas partes.

Sim, Portugal, precisamos de falar destas segundas partes. Contra o Azerbaijão, possivelmente a pior equipa do grupo, sem qualquer razão aparente ou sequer uma subida de nível do adversário, a seleção nacional perdeu-se num vazio de ideias, de desorganização, de falta de concentração e todos pensámos que poderia ser apenas síndrome de primeiro jogo, uma vez sem exemplo, um mau dia.

Mas contra a Sérvia, que não é exatamente o Azerbaijão, para mais a jogar em casa, aconteceu de novo. E aconteceu para mais depois de uma boa primeira parte de Portugal, a aproveitar bem a histórica dificuldade em defender da nação balcânica, como que alérgica à criação de grandes defesas desde os tempos de Vidic.

Com superioridade no meio-campo, Cristiano Ronaldo mais afeto à posição de avançado centro e Diogo Jota como uma espécie de vagabundo pelo ataque, Portugal marcou logo aos 11’, após um cruzamento largo de Bernardo Silva, que encontrou Diogo Jota ao segundo poste. O avançado do Liverpool ganhou o lance a Milenkovic e cabeceou para a baliza.

PEDJA MILOSAVLJEVIC/Getty

A seguir ao golo, Portugal não conseguiu dar sequência à boa entrada, mas tão-pouco a Sérvia conseguia organizar-se no ataque de forma a criar perigo - a seleção nacional parecia ter o jogo minimamente controlado.

E mais ficou quando aos 36’, numa fase de menos fulgor do jogo, apareceu o 2-0. Mais uma vez Bernardo Silva decisivo, a desequilibrar a Sérvia, a chamar a si vários adversários antes de deixar para Cédric, que com todo o espaço cruzou perfeito mais uma vez para a cabeça de Jota, que mais uma vez saiu-se melhor que o infinitamente mais alto Milenkovic - e entre os dois há praticamente 20 centímetros de diferença.

Com 2-0 no marcador, pedia-se apenas uma atitude análoga a Portugal para a 2.ª parte, mas as alterações do selecionador sérvio ao intervalo tiveram efeito imediato. Na primeira jogada após o apito do árbitro, Radonjic, acabado de entrar, cruzou para a área, com José Fonte e Danilo a não conseguirem travar o panzer Mitrovic.

E a partir daí Portugal partiu-se, desencontrou-se. Tal como na quarta-feira. E se o Azerbaijão nunca seria um problema para a baliza portuguesa, da Sérvia nunca se esperaria que não o fosse. Com mais bola depois da entrada de mais um elemento para o meio-campo, onde Portugal tinha tomado conta da ocorrência na 1.ª parte, os balcânicos colocaram a nu as dificuldades na transição defensiva da seleção nacional, o descontrolo tático e, porque não, a nossa falta de reação.

O lance do 2-2 é disto mesmo um verdadeiro fresco pintado no relvado do Marakana: um contra-ataque rápido que se seguiu a uma jogada de perigo de Portugal, que depois não teve capacidade ou atitude para recuperar no campo. Mais uma vez Radonjic na jogada, a fazer o último passe para a finalização com classe de Kostic, que há mais de quatro anos que não marcava um golo pela sua seleção.

Srdjan Stevanovic/Getty

Daí até final, foi sempre a Sérvia a equipa a criar mais perigo, principalmente no contra-ataque e nas bolas paradas e o empate é um castigo justo para Portugal, que tem infinitamente mais talento que o adversário e perdeu dois pontos por erros próprios e porque não soube controlar um jogo que chegou a ter na mão.

E por isso importa menos falar da arbitragem, ainda que o assunto também merecesse uma bela intervenção à FIFA. Com VAR e tecnologia da linha de golo, aquele lance de Ronaldo já nos descontos teria sido golo, claro. E se calhar o primeiro golo da Sérvia não teria sido validado. Que um jogo de qualificação para o Mundial não tenha disponíveis mecanismos que qualquer campeonato de meia-tigela já tem é de bradar aos céus. Mas que isso não nos desvie do essencial. E o essencial é que Portugal tem a obrigação de controlar este tipo de jogos.

Na próxima semana há jogo com o Luxemburgo, que este sábado foi ganhar à Irlanda. Jogar só meia parte não vai chegar.