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O cabaz, espécie em vias de extinção no Luxemburgo

Portugal foi ao Luxemburgo ganhar por 1-3, mas errou muito e jogou pouco face às condições que tem e o adversário, talvez, nunca terá, apesar de já as ter bem melhores do que até há bem pouco tempo, quando uma viagem destas equivalia a aguardar por uma goleada. Agora, dá direito a pressão alta e a tentar a sair a jogar curto, desde trás

Diogo Pombo

JOHN THYS/Getty

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Pablo Aimar tem nada que ver com o Luxemburgo-Portugal, ele estará lá no burgo dele, do outro lado do charco, no conforto de casa de onde, por estes dias, muito fala para entrevistas em que polvilha pausas de pensamento como em campo pausava o jogo, entre as quais esta: “não encarem tanto os jogadores como peças de xadrez, deixem-nos descobrir até onde chegam com as condições que têm, porque um jogo exige-lhes muitas coisas, mas como as descobrem? Só se jogarem”.

Agora que as chuteiras estão arrumadas o contexto de Aimar é mais específico, dedica-se aos jovens e a nutri-los nas seleções argentinas, de um trecho apanhado nas redes sociais não se descortina o teor da conversa, mas o provável é que sobre miúdos se falava. Voltando ao Luxemburgo-Portugal, e mesmo não encaixando já nessa categoria, a verdade é que há Renato Sanches (23), Bernardo Silva (26), Diogo Jota (24) e João Félix (21) a gravitarem em torno de quem já conhece bem os anos trinta da vida.

Mais do que a idade, não é assim tão comum ver em campo na seleção nacional, ao mesmo tempo e de início, quem melhor trato dá à bola e perfil tem para com ela se associar aos outros, tê-los aos quatro e a Rúben Neves a coincidirem é deixá-los descobrir o que podem fazer ofensivamente por Portugal. O grande problema veio dos luxemburgueses, também dados a descobrirem o que podem fazer com as condições que hoje já tem.

Eles não são como os antecessores - os quase oprimidos por goleadas, encolhimentos, blocos baixos e parco atrevimento para tentarem melhor - e pressionam a saída de bola de Portugal, têm a equipa avançado no campo sem bola, a primeira linha coordenada e agressivamente a tentar condicionar a saída dos centrais. Da outra área, querem sair com passes curtos e chamativos dos jogadores portugueses para, vistos os espaços, acelerarem a bola pela relva para um dos médios.

O Luxemburgo joga como nunca o tentara, pelo menos, contra Portugal, da ousadia coletiva emergem o canhoto driblador que há em Vincent Thill (do Nacional da Madeira), o critério simples de Christopher Pereira e as receções de costas para baliza de Gerson Rodrigues, são nomes que soam a familiar e dão às jogadas um fim com o qual a tradição de confrontos estava pouco, ou nada, familiarizada - chega quase sempre à área portuguesa e faz a sua parte para a seleção de ter qualquer jogo interior durante 45 minutos.

O primeiro remate surge tarde e apenas de livre, por Ronaldo (24’), pouco depois Renato Sanches replica-o de bola corrida à entrada da área e parecia ser uma reação, mas foram momentos desgarrados antes de Gerson Rodrigues, na segunda bola vinda de um canto, desviar outro cruzamento (30’) e o Luxemburgo ter o 1-0 pelo qual estava a jogar.

E Portugal a ver, sem ter soluções para evitar a saída que o adversário condicionava para começar em José Fonte, sem benefícios práticas de ter Renato Sanches sempre a ir buscar e pedir bola no pé perto de Rúben Neves, deixando um vazio de opções entre linhas onde Bernardo Silva apenas começou a aparecer mais vezes após o golo, farejando por espaços que a seleção ia preterindo para, numa e outra jogada, ser previsível ao atacar pelas alas, fora do bloco adversário.

Nos 15 minutos seguintes ao despertador tocar, Renato Sanches e Bernardo Silva inventaram espaços (um a fintar a simular, o outro a esperar pelo passes nos espaços onde antes não aparecia) para dispararem bombas que extraíram grandes paradas de Anthony Moris. A segundos do intervalo, outra ressaca de canto acabou em Pedro Neto (substituiu o lesionado João Félix), que devolveu a bola para a testa de Diogo Jota rematar o 1-1.

Alexander Scheuber/Getty

Ter sido o terceiro golo de cabeça em dois jogos para os 178 centímetros com morada atual em Liverpool reflete, além da aptidão de Jota, a frequente opção pelo cruzamento que se nota na seleção durante muitos períodos como forma para chegar à área dos outros. De onde Ronaldo se afastou para roubar uma bola a meio-campo, com a qual arrancou para passar a Cancelo e do lateral receber o cruzamento (50’) com que fez o 1-2. Está a seis dos 109 golos de Ali Daei.

Cristiano manteve esse afastamento da área em bastantes posses de bola de Portugal, fugiu dos centrais e mostrou mais os pés para tabelar e ser mais uma hipótese de passe ao centro, onde Bernardo e Jota também já se acercavam. A bola ganhou tempo de vida na seleção, os jogadores já corriam menos que ela e o acumular dos segundos encostava o Luxemburgo atrás.

Com o Luxemburgo comprimido e o mais avançado dos adversários já pouco longe do mais recuado quando não defendiam, durante uns 20 minutos Portugal facilitou a própria vida nos momentos em que perdia a bola e havia que reagir. E houve um raide de Nuno Mendes, que rematou já na área (52’) para outra paradas das grandes de Moris; e outro desvio de cabeça de Jota, este contra a barra (59’).

Mas, aos 77’, quando Ronaldo, acampado atrás dos defesas, foi presentado com um passe sem olhar de Christoper Pereira e não ultrapassou o guarda-redes no remate e na recarga, já a seleção era feita de fogachos atacantes deste tipo ou de contra-ataques tentados.

Durante uns 15 minutos chegou a ser uma perda constante de bolas em campo próprio, uma equipa que sucumbia aos cercos imediatos do Luxemburgo quando perdia a bola.

Nem depois de Palhinha desviar o 3-1 num canto (80’) apareceu um controlo prático, ou sequer aparente da seleção. Apenas surgiria após Maxime Chanot ser expulso (86’) e aparecerem os naturais espaços para guardar a propriedade do que só existe um exemplar em campo.

O Luxemburgo não criou uma oportunidade flagrante na segunda parte, apenas teve vários remates tentados. Capaz foi, porém, de condicionar muito a seleção com a sua forma de jogar durante hora e meia, mostrando uma evolução coletiva que fez Portugal errar muito e jogar pouco face às condições que tem e os luxemburgueses não têm. Provavelmente, nunca as virão a ter, mesmo que já as tenham bem melhores do que a pegada de goleadas passadas quase instituíram como ser regra esperar um cabaz de golos marcados nestes jogos.