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Bola para eles, baliza para ninguém

O Espanha-Portugal teve a bola a circular a maior parte do tempo entre os pés de quem já se esperava e a seleção nacional passou, praticamente, uma hora sem ter capacidade para sair de trás ou jogar no meio-campo contrário. Ficou 0-0, houve só três remates nas balizas e Portugal acertou apenas um, já para lá dos 90', neste que foi o primeiro jogo de preparação para o Europeu

Diogo Pombo, enviado ao Euro 2020

Soccrates Images

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É curioso ler Fernando Manuel Fernandes da Costa Santos a matutar sobre fé, ele um confesso devoto, um homem religioso como o conhecemos, um feito profeta da crença em si próprio e nos tipos que escolheu para se futebolizarem pelo país, a dizer que “quando não ganhaste nada, apegas-te à vontade, à fé” por oposição à sabedoria que só os vencedores adquirem, por “já saberem o que têm de fazer para ganharem”.

A pergunta do “El País” tencionava aferir que pedaços de pensamento teria o selecionador quanto à hipótese de o êxito proporcionar mais tranquilidade. Foi logo a primeira questão na conversa que teve antes deste Espanha-Portugal, provavelmente teve-a bem antes de, na véspera do primeiro dos jogos de preparação pós-anúncio dos convocados, pré-arranque do Europeu, também ter dito que durante esta semana não deu “nenhum treino a pensar na forma” como jogam os vizinhos ibéricos, reféns de um vício que nutrem há já algum tempo.

Terem a bola e manejarem o jogo com uma posse abusiva, criem ou não perigo, sejam ou não capazes de movimentar os adversários para abrirem caminhos rumo à baliza, é com a bola que pretendem viver desde que Luís Aragonés juntou os pequenotes rumo à vitória, em 2008; agora, Luis Enrique mescla as novas gerações em redor de Busquets, o esparguete de elegância que resta dos tempos conquistadores que, aos 27’, interceta um passe desesperado de José Fonte e penteia a bola para trás, sem mirar antes, para outro espanhol a usufruir sem incómodos.

O defesa central português acabara de conduzir um pouco a bola para, talvez, atrair um adversário e explorar uma linha de passe, mas acabou a ser bastante pressionado e a seleção nacional a não agir, não mover peças, para alguém ser opção válida em passe curto; a bola amestrada por Busquets acabou a ser cruzada pela trivela de Morata e cabeceada, ao lado da baliza, por Ferrán Torres. Antes, aos 10’, o canhoto Sarabia tabelou com Thiago, picou a bola e Morata, sozinho na área, não acertou com o pé no alvo redondo.

Foram, de caras, as jogadas que deram os remates mais ameaçadores de golo até ao intervalo. Ambos da Espanha, a equipa que se espera mandona e o foi, acabou com 71% da bola - aos 15’, chegou a ser 80% - e mais do dobro dos passes feitos (396 contra 134), sintomas de formas de jogar e abordar o jogo e da postura de Portugal para contrariar o que era expectável - juntar duas linhas de quatro em campo próprio, deixar João Félix atento a Busquets e libertar Ronaldo de tarefas sem bola para, depois, ser opção para a receber.

Mas, pedindo a Renato Sanches e a Diogo Jota, os jogadores das alas no quarteto alinhado a meio-campo, que bloqueassem passes ao meio e os condicionassem para fora, onde depois teriam de acompanhar os laterais espanhóis, a seleção nunca teve gente por quem filtrar primeiros e segundos passes após recuperar bolas. O que mais notório ficou pela reação coordenada, agressiva e rápida que o adversário conseguiu montar durante 45 minutos, assim que perdia a bola.

David Ramos/Getty

Sempre que tentava construir a partir da área, a seleção virava um acumular de tentativas longas, sempre com os centrais a decidirem levantar passes aéreos na direção de Ronaldo ou Jota. De costas voltadas para a baliza, raramente reclamaram uma bola.

De perigoso, apenas um contra-ataque em que Renato tentou isolar Cristiano, o passe foi desviado por Gayà e o guarda-redes Unai Simon, não querendo arriscar agarrar a bola, pontapeou-a contra o corpo do capitão português. O susto foi menor do que o bruá surpreso dos cerca de 15 mil adeptos presentes no estádio. Jogando assim, seria mesmo necessária fé, a tal vontade, para continuar sem soluções na saída de bola que dessem capacidade à equipa para tornear a pressão alta espanhola.

O quarto de hora inicial da segunda parte ameaçou prolongar esta arrelia, os espanhóis roubaram mais bolas, mais à frente no campo, forçaram erros nos centrais portugueses, condicionaram mais as saídas de Portugal e Morata acertou o primeiro remate do jogo nas balizas (50’), antes de Sarabia não aproveitar (58’) um desarme de Marcos Llorente a Pepe perto da linha de fundo, quando o central se deixou cair ao ganhar a frente ao adversário.

Depois, a partir dos 60’, deu-se corda à roda vida das substituições, também disse Fernando Santos que tudo serviria para “perceber o que vamos poder fazer nos vários momentos do jogo” e do banco tirou Pedro Gonçalves (estreia), Bruno Fernandes e William para a seleção melhor num certo momento - em organização ofensiva, sobretudo, dentro da metade do campo espanhola e com os adversários mais contidos do que pressionantes.

JAVIER SORIANO/Getty

De frutuoso, contudo, nada além de uma fuga de Ronaldo para perto da lateral direita, para onde Nélson Semedo rasgou um passe, o capitão recebeu, acelerou para cima de um adversário e cruzou a bola para Diogo Jota a dividir com Llorente. Em paralelo com o rebaixamento das linhas da Espanha, cada vez menos capaz, com os minutos, de montar cercos para atacar os passes dos centrais, Portugal conseguia juntar os seus viciados em viver com bola e colocar os adversário a correrem atrás dela.

Mas, já perto do fim, um daqueles livres manhosos e curvados para a área de Koke virou remate por ninguém tocar na bola. E Rui Patrício teve de se atirar à relva para impedir o temível. E, já nos descontos, um falha de abordagem de José Fonte deixou Morata a correr pradaria fora. Aí, o guarda-redes português viu a bola embater com estrondo na barra. Foi o segundo remate no alvo da Espanha e o único de Portugal apareceria na jogada seguinte, tímido e saído da cabeça de William.

Se Fernando Santos queria averiguar momentos e auscultar o que, coletivamente, quer a equipa a fazer, então viu um bloco compacto sem a bola, organizado em campo próprio e capaz de impedir o adversário de jogar por dentro. Se pretendia perceber o que já sai na construção e criação de jogo, viu dificuldades.

Mas também verá que faltam almas como a de Rúben Dias e o acerto que tem nos pés para filtrar passes limpos; a de Bernardo Silva, com outra capacidade para guardar e dar a bola e voltar a tocá-la; ou os benefícios da projeção atacante que João Cancelo pode dar a uma ala.

E a bola sorrirá sempre a Portugal quantos mais forem os jogadores em campo que fazem vida de tocar-lhe o máximo possível.