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O carteiro voltou, os rapazes de Manchester prometem e Cristiano sorri

Portugal venceu Israel (4-0) no último jogo particular antes do Campeonato da Europa, que arranca na sexta-feira, com um Itália-Turquia. Bruno Fernandes (2), Cristiano e Cancelo marcaram os golos

Hugo Tavares da Silva

Carlos Rodrigues

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Em tempos em que há urgência para tudo, os que levam mais segundos a desempenhar o seu ofício são incompreendidos. Estar calmo não é ser apático, preferir o ralenti à vertigem vai revelando os homens esclarecidos. A lentidão é, quando há boa vontade, elegante. William Carvalho, futebolista do Real Betis Balompié, não teve um ano fácil e regressou esta noite à titularidade da seleção nacional contra Israel (4-0). Apesar da pouca exigência do rival, o médio mostrou que está pronto para ser uma peça fundamental no Campeonato da Europa. Bruno Fernandes e João Cancelo foram os homens do jogo.

Mas afrontemos novamente a urgência. “Há não muito tempo, ser lento era uma virtude. Não falo de ser preguiçoso ou indolente, mas sim de fazer as coisas lentamente, eficientemente mas dando-lhes o tempo necessário. Mexer-se, caminhar, despedir-se com cortês lentidão remarcava a dignidade das pessoas. Conferia um ar respeitável. Elegante até”, escreveu Arturo Pérez-Reverte na “Teoria da Lentidão”.

É isso que explica a bola ir ter tantas vezes com William Carvalho, domador de relógios e vontades. É o homem que tem as chaves, em quem todos confiam para cuidar da bolinha e decidir caminhos e fados. Falhou alguns passes, tentou e foi afinando algumas bolas por cima da defesa israelita, mas era o carteiro preferido do bairro de Alvalade, um estádio vazio que viu o 104º de Cristiano Ronaldo, que está apenas a cinco golos do iraniano Ali Daei.

Atentando agora contra os treinadores que dizem que as táticas a que recorrem os jornalistas são meros números de telefone, começamos por revelar que Portugal se apresentou num 4-2-3-1, com Bruno Fernandes mais perto dos homens da frente, Diogo Jota (que teve duas bolas de golo nos primeiros 25 minutos), Cristiano e Bernardo Silva. Rúben Neves, discreto, fechava o meio-campo com William, mais participativo no jogo. Atrás estavam João Cancelo, jogatana bela e chip de quem só sabe competir no limite, Rúben Dias, Pepe e Nuno Mendes, o rapaz do Sporting que se apresentou a bom nível, munido de várias opções para jogar com os colegas, sendo que fica por saber como responderá no papel defensivo perante rivais como França e Alemanha, o segundo e terceiro jogos do Grupo F do Europeu. Na baliza estava o guarda-redes do Granada, Rui Silva, que gozou uma noite sossegada.

Não foi preciso mais do que meio minuto para Cristiano Ronaldo dar notícias. O remate, já bem dentro da área e com tudo para ser feliz, saiu frouxo, o capitão não bateu bem na bola. Cedo mostrou frustração, parece estar a viver algo que talvez nunca tenha sentido: a confiança de ferro que nunca deixava o pé tremer está em parte incerta. Ou, quem sabe, será como num Mundial em que prometeu o ketchup...

O jogo ia apresentando pouco ritmo, seria sempre assim. Uma equipa talvez já só pense em férias, a outra quer chegar bem ao Europeu, pelo que nem sempre se mete o pé como aconteceria num jogo a sério, ou talvez haja menos disponibilidade para esvaziar ainda mais o tanque. Mas Portugal recuperava quase sempre a bola com facilidade.

Cancelo e Bernardo, uma sociedade aprimorada em Manchester, iam criando algumas jogadas pela direita. Mas Portugal ia afunilando as peças sem ser muito ágil na zona central, muito menos no que toca a criatividade para descobrir espaços, daí talvez a insistência no passe nas costas da defesa, até porque Israel subia a defesa, sabendo porventura que a velocidade já não abunda no ataque lusitano. Israel estava em 5-4-1. Nuno Mendes, uma ou outra vez, colocou a bola diretamente no avançado, uma bola tensa junto à relva, que permite abanar a estrutura dos adversários.

É necessário variar o jogo, sim senhor, mas a bola tem de ser jogada com mais velocidade para retirar os adversários das posições. Ou seja, a bola não goza do estatuto dos homens que descreveu Pérez-Reverte (ainda que uma posse de bola enfadonha possa servir para atrair e enganar o rival). Nunca se viu uma bola a suar, certo?, disse à Tribuna em tempos o treinador dos sub-21 da Dinamarca. Quando se vê os centrais com os braços abertos nunca é bom sinal: faltam linhas de passe, gente a mostrar-se ou próximos. Falta mobilidade, movimentos agressivos no espaço (seja para receber a bola ou arrastar o adversário) ou o posicionamento certo, e às vezes a fineza com a bola para o ritmo dos pases sair e começar a fluir. A bola tem de andar, mais do que todos.

Carlos Rodrigues

Do outro lado eram Zahavi e Soloman, este que nos últimos dois anos foi treinado por Luís Castro no Shakhtar, eram os homens de Israel mais perigosos. Pouco depois da meia hora, uma jogada do segundo serviu o primeiro que só não encostou com facilidade porque Rúben Dias fez um corte chave.

A superioridade era notória, mesmo sem grandes rasgos criativos, e o golo chegou com naturalidade, pouco antes do intervalo. João Cancelo surgiu pela direita, cruzou para trás e Bruno Fernandes rematou cruzado. Foi o terceiro golo pela seleção do médio do Manchester United. Logo a seguir foi a vez de Cristiano Ronaldo molhar a sopa: Bruno Fernandes e Jota magicaram o desenho, o número 7 da seleção bateu na bola com a canhota e celebrou com um impropério, como que dizendo aos que não confiam nele para estarem sossegadinhos.

A segunda parte trouxe muitas, muitas substituições e alguns ensaios por parte de Fernando Santos. André Silva foi o primeiro a entrar, dando alguma referência ao ataque de Portugal, ainda que a mobilidade dos homens da frente se mantivesse. Danilo entrou para central e Moutinho mostrou-se finalmente, mas parece estar fora dela. Viu-se a espaços mais toques na bola, mais paciência, a pressão do outro lado também não era muita, cada vez mais desligada e desgarrada.

Bernardo, que parecia algo desgastado embora tenha inventado algumas correrias com o seu toque de bola genial, falhou um golo isolado, tentou picar por cima de Marciano, mas desta vez Marciano foi marciano e negou a festa.

Depois de mais um tiro de longe, agora de André Silva, entraram Pedro Gonçalves, Gonçalo Guedes e Renato Sanches. Claro, quem ainda pode tentar convencer Fernando Santos mostra aqui e ali mais disponibilidade para meter o pé ou estar mais ativo. As mudanças do selecionador português, admitiu o próprio, tornaram a equipa mais permeavél, por isso Israel chegou mais vezes perto da área de Portugal.

Quando Rui Silva assinou finalmente uma defesa, a 10 minutos do fim, Portugal decidiu fechar o marcador: João Cancelo, finge que cruza, puxa para dentro e remata com a canhota, golaço, 3-0; Bruno Fernandes, que recebeu depois de uma confusão ali na linha da grande área, escolhe para onde quer como se estivesse a bater um penálti e fez um golaço (quarto pela seleção), não há Marciano que lhes valha. Foram porventura as duas exibições mais importantes, juntamente com as boas notícias chamadas William Carvalho e Nuno Mendes, que ainda assim deverá ver Raphael Guerreiro ser titular em Budapeste.

Acabaram-se os ensaios, os testes e os enigmas. A partir de agora será a sério, no Grupo F, contra a França, atual campeã do mundo, Alemanha, tetra campeã mundial e três vezes europeia (mais três vezes finalista e noutras duas vezes ficou-se pelas meias) e a Hungria, que já não é a seleção mágica dos anos 50, muito longe disso, mas basta puxar a fita atrás até 2016 para lembrar como os magiares representaram um enorme problema.