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Portugal

Cristiano escreveu o seu Teatro dos Sonhos

Portugal perdia aos 89' com a República da Irlanda quando Cristiano Ronaldo deu duas cabeçadas para a história

Hugo Tavares da Silva

Carlos Rodrigues

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Já o tínhamos cantarolado durante o Campeonato da Europa. Há duas coisas incontornáveis na vida: um jogo de futebol tem 90 minutos (e uns pozinhos) e Cristiano ainda está aqui. Nada mudou.

O supostamente inevitável encontro com a história do futebol mundial até começou com um penálti falhado, ou defendido por um miúdo, vá. Adiado o tal recorde, a exibição do avançado foi ficando cinzenta, cinzenta como as tardes desinteressantes de Manchester. As pernas já não obedecem como antes e a bola, menos vulnerável a feitiços, não cola à bota da mesma maneira. Mas, e apesar de tudo, a mentalidade e a ambição do rapaz de 36 anos mantêm-se intactas.

E assim vive, como o vento que leva para longe as nuvens.

Com a seleção em desvantagem, evidenciando-se um abafo total, salpicado pelo exagero dos cruzamentos e impotências, Cristiano entrou em ação. Quando faltava um minuto para os 90, um cruzamento com doçura de Gonçalo Guedes encontrou nas alturas o número 7, que empatou o jogo.

Mas isto não ficaria por aqui, já que o homem continua a acreditar na mudança de fados, ventos e resultados até que apaguem as luzes do estádio. Já com o relógio nos 90+6’ a sussurrar ao ouvido do árbitro para este apitar para o fim, a bola, depois do cruzamento de João Mário, flutuou, desviou-se do ruído e da floresta que usa chuteiras e impecáveis fardas, e quis beijar a cabeça de Cristiano, como as mães fazem, talvez dizendo-lhe: “Anda, conta-lhes porque vieste”.

E ele assim fez: 2-1. A camisola libertou-se do invejável torso cheio de músculos e o Estádio do Algarve, bêbado de alegria, testemunhava mais um momento histórico do futebolista que marcou pela primeira vez por Portugal em 2004, à Grécia, na estreia no Campeonato da Europa. Ao 180º jogo pela seleção nacional, Cristiano celebrou o 111º golo, deixando boquiaberto o recorde de Ali Daei (109).

Carlos Rodrigues

Sobre esta arte e o ofício de marcar tantos golos, o português falaria, no final do jogo, na “vontade de continuar a jogar futebol” e no prazer que lhe dá que os filhos o possam ver a meter bolas nas balizas dos homens normais. É tão simples. Não fez um grande jogo, pelo contrário, mas talvez por isto, por esta mentalidade, por esta capacidade para mudar um jogo de futebol, por acreditar, nunca seja substituído. Com ele por perto, a esperança aperalta-se de outra maneira.

Os cruzamentos e a boa notícia

Portugal entrou em campo com Bruno Fernandes e Bernardo Silva à frente de João Palhinha (boa exibição), o que fez os mais precipitados esfregarem as mãos e esperarem uma grande jogatana. Diogo Jota, ora pela esquerda ora por uma zona mais interior, foi a par de João Cancelo o jogador mais venenoso durante um bom período do jogo. Rafa era o outro que ia ocupando as zonas nas costas dos médios da República da Irlanda, tentando aproveitar os terrenos baldios.

O que era uma promessa de futebol ofensivo rapidamente se transformou num festival de bolas longas. Incompreensível, já que Bruno Fernandes e Bernardo Silva estavam ali no meio, prontos para resolver problemas e enigmas. Portugal foi jogando por fora, ou nas costas da defesa irlandesa, mas parecia só incomodar quando recuperava a bola no meio-campo adversário e podia correr uns metros à vontade. Quando a outra equipa está estacionada, preparada para defender, os portugueses raramente souberam provocar e descobrir espaços.

Falta criatividade, apesar de tantos jogadores criativos no relvado. Ou seja, temos um problema maior. Ainda assim, ter a canhota de Bernardo a tocar tantas vezes na bola, pelo campo inteiro e sobretudo pelo meio, é uma grande notícia para o futebol português.

Aos 15’, como já vimos, Cristiano Ronaldo falhou um penálti. Gavin Bazunu, de 19 anos, defendeu e tentou manipular os os livros da história que estão por vir. O rapaz está emprestado pelo Manchester City ao Portsmouth, o primeiro clube a quem Cristiano marcou em Inglaterra, quando aterrou em Old Trafford, em 2003. Segundo o Playmaker do “Zerozero”, o capitão falhou o sétimo penálti pela seleção, em 21 tentativas.

Seb Daly

Perto da meia hora, quando a República da Irlanda já ia ensaiando algumas saídas em contra-ataque, encontrando o competente Adam Idah, do Norwich, que tanto oferecia correria no espaço como servia de referência, Diogo Jota cabeceou ao poste, depois de mais uma bela bola de Cancelo.

Matt Doherty, Jeff Hendrick e, claro, Seamus Coleman iam revelando qualidades e ousadias, tal como Aaron Connolly, um avançado que ora caía, levantava, caía, levantava, andava ali à bulha com os defesas de Portugal, tentando o que podia e não podia.

Havia poucas ideias, apesar de muita bola (64% ao intervalo), e isso foi permitindo à República da Irlanda ir ganhando outra carapaça à volta do orgulho, eles que até tentaram umas vezes sair a partir do guarda-redes, quem sabe homenageando o velhinho futebol escocês que inspirou tanta gente.

Antes do descanso, o golo dos visitantes chegou mesmo, após canto de Jamie McGrath: John Egan, que também assinou uma exibição interessante a nível defensivo, cabeceou para a baliza de Rui Patrício.

Carlos Rodrigues

A segunda parte trouxe André Silva como referência, o que soltou Cristiano Ronaldo, algo que nem sempre é positivo, pois a influência do craque vai sendo cada vez menor, mas o pior é que se afasta da zona onde é realmente importante: dentro da área. E, como já vimos, o killer comprová-lo-ia.

Os cruzamentos eram cromos repetidos, mas ninguém os trocava por nada. O braço no ar de Cristiano funciona quase como uma bebida fresca no deserto, é irresistível certamente. E depois, quando nada acontece, a linguagem corporal do capitão é de um desânimo atroz, que desanima e provavelmente condiciona quem está lá dentro. Mas ele, já se sabe, está mais comprometido com o ofício do golo do que com aparências ou sentimentos desavindos.

Fernando Santos, preocupado, ia mexendo. Nuno Mendes, o novo menino do PSG, entrou para supostamente dar corda ao corredor esquerdo, assim como João Mário entrou pelo apagado Bruno Fernandes, quem sabe para levar outro acerto e fineza para o último terço. Nos últimos 13 jogos pela seleção, o médio-avançado-super-homem-goleador do United só cumpriu os 90 minutos uma vez, conta também o Playmaker do “Zerozero”.

A toada do jogo mantinha-se, com uma ou outra oportunidade. Os cruzamentos sucediam-se e os irlandeses não estavam assim tão desconfortáveis.

A seguir entraram João Moutinho e Gonçalo Guedes. A República da Irlanda estava cada vez mais perto do miúdo da baliza, recuando, o pequeno milagre não parecia assim tão distante. Os cruzamentos sucediam-se, já escrevemos? Nuno Mendes parecia ansioso, Bernardo chegou a mandar um chutão que quase bateu no teto do céu. Há momentos em que pessoas certas da vida e do que fazem parecem perdidas, e este era um desses momentos.

Carlos Rodrigues

Quando o relógio anunciava uma verdadeira tragédia, pois o Qatar 2022 é tudo menos um dado adquirido, o tal rapaz que tem vontade de jogar futebol fez aquilo tudo que já contámos, os dois golos, tornando-se no maior goleador da história das seleções.

Cristiano fez mais: igualou Sergio Ramos como o jogador com mais internacionalizações em seleções europeias (180). O novo jogador do Manchester United, e isto soa sempre bem dizer e ouvir, como se fôssemos todos 20 anos mais novinhos, é também o melhor marcador dos Europeus (14), da Liga dos Campeões (134) e é ainda o pichichi dos pichichis do clube mais famoso do mundo inteiro e arredores (451), o Real Madrid, que já teve por lá gente como Raúl González, Alfredo di Stéfano, Carlos Santillana e Ferenc Puskás.

Com esta vitória, em que convém não esquecer as fragilidades no jogo e a oca criatividade para criar, Portugal vai liderando o Grupo A, com 10 pontos em quatro jogos. A Sérvia segue em segundo, com sete pontos e menos um jogo. Finalmente, o Luxemburgo bateu esta noite o Azerbaijão (2-1) e, com duas vitórias em três jogos, mantém-se na corrida pelo prémio final.