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Portugal

Brilhantes diamantes

Portugal venceu o Catar por 3-1 num encontro de preparação que teve a sua melhor fase quando a seleção nacional foi capaz de estabilizar um meio-campo em losango com João Mário, Otávio (que se estreou e a marcar), Moutinho e Rúben Neves. Segue-se o Azerbaijão, agora a doer, na terça-feira

Lídia Paralta Gomes

Zsolt Czegledi/EPA

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Sem Cristiano Ronaldo e com um particular a meio de uma janela de encontros de qualificação para o Mundial que parece incompreensivelmente cheia de ação, a seleção nacional teve como que um salvo-conduto para experimentar algo novo. Frente ao Catar, Fernando Santos chamou Otávio para a estreia absoluta por Portugal e mais 10 jogadores que não tinham sido titulares frente à República da Irlanda e desenhou as coisas de forma diferente: André Silva e Guedes lá à frente e um meio-campo com Rúben Neves, João Moutinho, o luso-brasileiro e João Mário numa espécie de diamante.

E no início não correu nada bem.

Com os jogadores talvez confundidos nos respetivos papéis, a linha média permitiu que o Catar ganhasse bolas e fizesse aquilo que, a bem da verdade, parece ser a única coisa que consegue fazer: partir em transições rápidas à procura de surpreender o adversário. E quase o conseguiu fazer, primeiro aos 4’, depois aos 9’, com Almoez a enviar uma bola ao poste após uma boa movimentação em poucos toques pela esquerda, a aproveitar uma perda de bola da equipa portuguesa.

Aos poucos, a coisa estabilizou. João Mário fixou-se mais na frente, no vértice dianteiro do losango, Otávio teve espaço para avançar e criar o jogo interior que tanta falta faz a Portugal e Moutinho foi o habitual pêndulo, o homem dos equilíbrios. A partir dos 20 minutos de jogo, Portugal já era uma máquina mais organizada e dois golos de rajada como que confirmaram que, finalmente, cada um estava a fazer o que devia, na posição que devia.

Aos 23’, João Mário apareceu pela esquerda e tal como há três dias no Algarve fez o cruzamento perfeito que André Silva só teve de diligentemente levar até à baliza com uma cabeçada bem medida. Estava praticamente sozinho o avançado do RB Leipzig e não teve contemplações. Há mais de um ano que não marcava pela seleção.

E logo a seguir, um belíssimo desenho do ataque de Portugal, com Otávio a combinar com um João Mário que serviu como uma espécie de pivô, dirigindo a bola novamente para a esquerda onde Guedes estava sozinho. Saiu mais um cruzamento e Otávio, não sendo exatamente um latagão, saltou com a vontade que só uma estreia traz para fazer mais um golo de cabeça.

PAULO NOVAIS/LUSA

De repente, aos 25’, o jogo parecia resolvido, porque Portugal tinha estabilizado, o diamante funcionava, as jogadas fluíam e o Catar tinha deixado de conseguir partir em velocidade para o ataque. Mas não estava.

Não que a vitória de Portugal tivesse estado alguma vez em perigo em Debrecen, mas a expulsão do guarda-redes Barsham, após uma falta sobre Gonçalo Guedes fora da área no final da 1.ª parte, fez o Catar baixar ainda mais as linhas, obrigando Portugal a jogar em ataque posicional, algo que demasiadas vezes parece condicionar uma seleção nacional onde o talento não falta.

E por isso a 2.ª parte foi um pequeno grande bocejo, com Portugal pacientemente a trocar a bola, mas raramente a encontrar espaços para chegar à baliza com perigo iminente. Fê-lo aos 58’, por João Mário, que falhou a emenda praticamente em cima da linha. O golo do Catar, caído do céu, num canto (mas também do céu que a defesa portuguesa soube criar para o adversário...), não teve o condão de acordar a seleção e as substituições acabariam por desmantelar o diamante que tão boa conta de si havia dado nos últimos 25 minutos da 1.ª parte, provando que pode muito bem ser o melhor amigo desta equipa.

O 3-1 surgiu já em momento de descompressão, aos 88’, numa grande penalidade sofrida por Jota e marcada por Bruno Fernandes.

Apesar de, no geral, a exibição de Portugal ter sido mais uma vez desenxabida, Fernando Santos deverá tirar alguns apontamentos do jogo, principalmente dessa 1.ª parte em que Portugal tentou e muitas vezes conseguiu criar jogo interior de qualidade. Porque tem jogadores e talento para isso. Terça-feira há mais, em Baku, frente ao Azerbaijão. Agora a doer e sem hipóteses de deslizes.