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Portugal

A estrada para o Catar é cheia de cruzamentos

A seleção portuguesa cumpriu em Baku, vencendo (3-0) o Azerbaijão em jogo de qualificação para o Mundial 2022. Sem o castigado Cristiano Ronaldo, foram Cancelo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva quem mais se destacou, mas a fórmula lusa para marcar foi a do costume

Pedro Barata

TOFIK BABAYEV/Getty

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No futebol, há mil e uma maneiras para fazer balançar as redes adversárias. São inúmeros os caminhos que levam ao objetivo maior do jogo. No entanto, Portugal tem uma clara apetência para chegar ao golo através de uma ação particular: cruzamento para a área e remate. Numa seleção apetrechada de gente com facilidade para finalizar, fazer a bola viajar de uma zona lateral para o coração da área quase tem monopolizado os tentos apontados.

Fernando Santos havia dito que “não lhe passava pela cabeça” perder pontos em Baku, e os seus jogadores deram-lhe ouvidos. Numa exibição competente, Portugal derrotou o Azerbaijão por 3-0, chegando aos 13 pontos em cinco jornadas do grupo A, mais três do que a Sérvia, que agora tem menos um encontro realizado - joga ainda esta terça-feira.

Perante a ausência de Cristiano Ronaldo, o selecionador nacional fez alinhar um 4-3-3 de papéis mais definidos, com Palhinha como médio mais recuado, Moutinho ajudando o médio do Sporting a equilibrar a equipa e Bruno Fernandes, mais solto e dinâmico, muito ativo na tarefa de assistir Bernardo Silva, Jota e André Silva. E se, sem CR7, Portugal perde uma fonte quase inesgotável de golos mas ganha uma repartição de espaços mais clara na frente de ataque, o que permanece inalterado é o caminho escolhido para marcar.

Anadolu Agency

Contra a República da Irlanda, Ronaldo bisou na sequência de dois cruzamentos; sem Cristiano, frente ao Catar, Portugal apontou os seus dois primeiros tentos após centros laterais; e agora, diante do Azerbaijão, os três tentos lusos voltaram a surgir após cruzamentos.

Talvez fazer viajar a bola pelo ar para as zonas de remate tenha sido a fórmula encontrada para contrariar o mau estado do relvado. O Azerbaijão, que só venceu um dos últimos 13 encontros que disputou e não vence qualquer partida em casa desde novembro de 2018, tentou condicionar o futebol dos visitantes com uma postura defensiva, semelhante à que bons resultados deu ao seu técnico, o italiano De Biasi, quando treinava a Albânia e conseguiu surpreender chegando ao Euro 2016. Na altura, os albaneses de De Biasi derrotaram Portugal, em 2014, no último jogo da era Paulo Bento na seleção portuguesa.

Mas, se no começo do jogo a equipa de Fernando Santos teve dificuldades para criar perigo, aos 26 minutos os lusos descobriram a fórmula para o golo. Ou redescobriram, porque ela tem-lhes sido familiar. Bruno Fernandes cruzou desde a esquerda e Bernardo Silva, com um acrobático remate, inaugurou o marcador.

Bruno e Bernardo foram, mesmo, dois dos principais destaques da equipa, particularmente a partir do 1-0. Os virtuosos jogadores que atuam em Manchester têm sentido, regularmente, dificuldades para apresentarem na seleção a mesma pujança que evidenciam em Inglaterra mas, na ausência de Cristiano Ronaldo, ambos beneficiaram de uma distribuição táctica mais clara, com André Silva como referência ofensiva.

Bernardo, partindo da direita, ia oferecendo detalhes técnicos um pouco por todo o lado, enquanto Bruno acrescentava perigo a muitas das bolas que tocava, acelerando a jogada rumo à finalização. Foi isso que fez aos 31 minutos, com um cruzamento venenoso que, após desvio de Diogo Jota, foi parar aos pés de André Silva, que aumentou a vantagem. Logo a seguir, Bruno Fernandes voltou a servir o jogador do RB Leipzig, mas desta feita o atacante não teve a melhor pontaria.

No final da primeira parte, Portugal foi uma equipa algo displicente, permitindo ao Azerbaijão, um rival frágil, criar duas ocasiões de golo. No entanto, os locais não conseguiram marcar e, até final, Portugal conseguiu mesmo acabar com a pior sequência de encontros a encaixar golos de maneira consecutiva na era Fernando Santos. Após cinco partidas seguidas a sofrer, a seleção nacional não concedeu qualquer tento.

Para o segundo tempo, Fernando Santos fez entrar Rúben Neves para o lugar do amarelado João Palhinha e a seleção nacional beneficiou da postura menos defensiva do Azerbaijão para criar muitas oportunidades de perigo. Bernardo ia tricotando os lances e Bruno executando o último passe, mas outro jogador da Premier League não estava feliz na finalização.

Diogo Jota foi o primeiro herói de 2021 na seleção. Os três golos que apontou em dois encontros em março faziam antever um bom ano para o jogador do Liverpool com a camisola portuguesa, mas o Europeu não lhe correu especialmente bem - apesar do golo à Alemanha - e nesta janela de seleções a baliza parecia voltar a não querer nada com ele.

No arranque da etapa complementar, Bruno Fernandes assistiu por duas vezes o número 21 da seleção, mas este não finalizou com qualidade. Até que, ao minuto 75 e após o enésimo lance de desequilíbrio de João Cancelo pela direita (o público da casa reagiu várias vezes com gritos de espanto aos túneis e habilidades do lateral com técnica de extremo do City), Diogo Jota, de cabeça, fixou o 3-0 final (pela primeira vez em 2021, o Azerbaijão perdeu um jogo por mais do que um golo de diferença). Na celebração, o jogador do Liverpool pareceu querer exorcizar os fantasmas que o vinham impedindo de marcar, tirando-os do seu corpo.

Foi o quarto tento de Jota nesta qualificação, todos de cabeça e após cruzamentos laterais, a forma preferida de Portugal para marcar. Sem Ronaldo, a seleção venceu, somando agora 14 vitórias, três empates e quatro derrotas em partidas oficiais desde que, em 2003, Cristiano se estreou com a camisola das quinas e mudou o nosso futebol para sempre. Nos derradeiros oito encontros sem CR7, a equipa de Fernando Santos ganhou seis e empatou dois. Com ou sem Ronaldo, Portugal tem uma relação com o golo baseada em cruzamentos.